Propeller One-Way Night Coach recebe críticas negativas em Cannes

A estreia de John Travolta na direção é alvo de duras críticas no Festival de Cannes devido a falhas técnicas e um roteiro considerado superficial.

A trajetória de John Travolta no cinema é marcada por papéis icônicos em produções que definiram gerações, como Saturday Night Fever, Grease e Pulp Fiction. No entanto, sua transição para a cadeira de diretor com o filme Propeller One-Way Night Coach tem gerado um debate intenso e, em grande parte, negativo. A exibição da obra no Festival de Cannes, um dos palcos mais prestigiados da sétima arte mundial, levantou questões sobre como um projeto com falhas tão evidentes conseguiu espaço em um evento de tamanha magnitude. A resposta, segundo críticos, reside apenas no peso do nome do astro, já que o produto final é amplamente considerado um dos pontos mais baixos da narrativa cinematográfica recente.

Com pouco mais de uma hora de duração, o filme, que também foi roteirizado por Travolta, possui uma estética que remete a criações amadoras, assemelhando-se a uma produção gerada por inteligência artificial rudimentar. A trama se passa na Nova York dos anos 1960 e acompanha Jeff, um menino de oito anos interpretado por Clark Shotwell, que viaja para a Califórnia acompanhado de sua mãe, uma atriz em decadência vivida por Kelly Eviston-Quinnett, na esperança de revitalizar sua carreira. O que deveria ser um conto sobre a maravilha da aviação e a inocência infantil transforma-se, na tela, em uma experiência que oscila entre o hilário e o perturbador.

Um dos elementos mais criticados é a narração onipresente de Travolta, que interpreta a versão adulta de Jeff. O ator opta por descrever cada ação dos personagens segundos antes de elas ocorrerem na tela, como se estivesse lendo o livro original em que o filme se baseia para uma audiência que não consegue acompanhar o visual. Essa escolha narrativa é descrita como exaustiva, comparável a assistir a uma série complexa ao lado de alguém que insiste em explicar cada cena, eliminando qualquer possibilidade de imersão ou interpretação por parte do espectador.

O roteiro também falha ao tentar construir profundidade. A caracterização das mulheres no filme é um ponto de forte controvérsia: elas são retratadas como figuras superficiais, alcoólatras ou meros objetos de desejo. A personagem Liz, uma comissária de bordo que é apresentada como sobrevivente do Holocausto, tem seu trauma reduzido a uma frase descartável, demonstrando uma falta de sensibilidade que, segundo críticos, revela a incapacidade do diretor de lidar com temas complexos. A participação de Ella Bleu Travolta, filha do diretor, como o interesse amoroso do protagonista, adiciona uma camada de desconforto, dado que o personagem de Jeff é uma representação infantil do próprio Travolta.

A falta de conflito real é outro problema estrutural. Embora existam alusões a problemas familiares e à instabilidade da mãe, a narrativa não desenvolve essas tensões, preferindo focar em detalhes triviais e desprovidos de propósito, como o protagonista comendo um cachorro-quente a bordo. A tentativa de criar um conto de fadas falha ao não oferecer qualquer insight sobre a condição humana, tratando os personagens como caricaturas: homens solitários, mulheres submissas e crianças idealizadas. Ao final da exibição em Cannes, o que se viu foi um público rindo da própria ludicrousidade da obra. O filme de Travolta, ao tentar capturar fantasias de uma juventude que ele já não possui, acabou se tornando um exemplo notável de como uma visão autoral, quando desprovida de técnica e autocrítica, pode resultar em um dos lançamentos mais atrozes da história recente do festival.

Fonte: Collider