A indústria cinematográfica global enfrenta um desafio estrutural persistente: a vasta maioria das produções audiovisuais, estimadas em cerca de 80% do total produzido anualmente, nunca alcança uma distribuição comercial efetiva. Diante desse cenário de escassez de janelas de exibição, a Pijama, uma plataforma de vídeo sob demanda (TVOD) inovadora, surge como uma resposta direta dos cineastas Pablo Larraín e Juan de Dios Larraín, conhecidos mundialmente por obras como Jackie, Spencer e o recente Maria. O projeto, que busca preencher a lacuna entre a criação artística e o público final, acaba de anunciar uma série de acordos comerciais de peso com distribuidores e agentes de vendas de prestígio internacional, incluindo MK2, Alpha Violet, Visit Films, Les Films du Losange, Electric Shadow e Utopia Films.


Expansão técnica e alcance de mercado
Lançada oficialmente em 25 de janeiro deste ano, a Pijama iniciou suas atividades como uma plataforma baseada na web. O catálogo inaugural foi composto por 25 títulos provenientes do acervo da Fabula, a produtora dos irmãos Larraín. Em uma estratégia de crescimento acelerado, a plataforma expandiu sua disponibilidade técnica significativamente: em abril, o serviço passou a oferecer suporte para dispositivos iOS e Android, e, mais recentemente, neste mês, a Pijama consolidou sua presença em sistemas de televisão conectada, incluindo Roku, Fire TV, além de interfaces nativas das smart TVs da LG e Samsung. Segundo Juan de Dios Larraín, a expansão não para por aí, com negociações avançadas para parcerias com dois grandes grupos de radiodifusão previstas para serem finalizadas na próxima semana.
O modelo de negócio: Monetização e direitos
A premissa da Pijama é oferecer aos detentores de direitos uma solução de monetização para filmes que, de outra forma, permaneceriam invisíveis. O modelo TVOD permite que produtores e agentes de vendas alcancem audiências globais, contornando a dificuldade de negociação com grandes plataformas de streaming, que frequentemente adquirem apenas uma fração mínima das produções disponíveis. A plataforma atua como um facilitador, permitindo que os detentores dos direitos mantenham o controle sobre a distribuição, incluindo a capacidade de definir estratégias de marketing e gerenciar direitos não exclusivos, muitas vezes contornando limitações geográficas que impediam o acesso do público a obras icônicas.
Um catálogo de prestígio
A força da Pijama reside na curadoria. Graças à recente fase de acordos com agentes de vendas, a plataforma está ganhando uma massa crítica de títulos de alto valor cultural. Entre as adições notáveis provenientes da MK2, destaca-se Secrets & Lies (Segredos e Mentiras), de Mike Leigh, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Outros títulos de peso incluem Orlando, de Sally Potter; The Double Life of Veronique (A Dupla Vida de Veronique), de Krzysztof Kieslowski; e The Piano Teacher (A Professora de Piano), de Michael Haneke. Essas obras, que anteriormente sofriam com bloqueios geográficos que impediam o acesso em diversas partes do mundo, agora encontram um lar digital. Além disso, a Alpha Violet contribuiu com sucessos de festivais, como Drowning Dry, de Laurynas Bareisa, e The Tribe, de Slaboshpytskiy Myroslav. O acervo da própria Fabula continua sendo um pilar central, com 24 títulos, incluindo o aclamado Neruda e o vencedor do Oscar A Fantastic Woman (Uma Mulher Fantástica).
A urgência de uma nova solução
O ritmo de crescimento da plataforma é acelerado, com a adição de 20 novos filmes em um único dia na semana passada. Esse volume reflete a demanda reprimida de um mercado onde as vendas tradicionais estão em constante contração. A lógica por trás da Pijama é simples, porém poderosa: se um filme não é adquirido por um grande serviço de streaming, ele corre o risco de desaparecer. Essa situação priva produtores e distribuidores de oportunidades de monetização global e frustra o público, que, embora interessado, não encontra meios legais de assistir a essas produções. Ao oferecer uma plataforma global de distribuição, a Pijama não apenas resolve um problema de logística, mas também atua como um catalisador para a preservação e circulação do cinema independente. A plataforma, ao permitir que os detentores de direitos capturem valor em territórios onde antes não havia distribuição, posiciona-se como uma ferramenta essencial para a sustentabilidade financeira de cineastas e produtoras em um ecossistema de mídia cada vez mais competitivo e fragmentado. Com a consolidação de parcerias com grandes agentes de vendas e a expansão para múltiplos dispositivos, a Pijama demonstra que existe um caminho viável para o cinema que busca seu público fora dos algoritmos das grandes plataformas de entretenimento, garantindo que obras de arte não fiquem restritas a arquivos, mas alcancem as telas de espectadores ao redor do mundo.
Fonte: Variety