O renomado cineasta Peter Jackson, conhecido mundialmente por sua visão épica e técnica inovadora, foi agraciado com uma Palma de Ouro honorária na noite de terça-feira. A cerimônia, que marcou o início oficial da 79ª edição do Festival de Cannes, ocorreu dentro do prestigiado Grand Lumiére Theatre. Embora o próprio Jackson tenha brincado ao afirmar que não se considera exatamente o tipo de pessoa que costuma frequentar o universo da “Palme”, o festival fez questão de integrá-lo ao seu panteão de grandes mestres.




A entrega do cobiçado troféu foi realizada por Elijah Wood, o ator que imortalizou o personagem Frodo Baggins na trilogia O senhor dos anéis. O momento foi carregado de nostalgia e reconhecimento mútuo. Wood, visivelmente emocionado, compartilhou com a plateia uma lembrança íntima de quando recebeu a notícia de que havia sido escalado para o papel que mudaria sua trajetória profissional. “Sentei-me no chão do meu quarto e soube que minha vida havia sido dividida em um antes e um depois”, recordou o ator, descrevendo o impacto profundo que o convite de Jackson teve em sua juventude.
Em um discurso caloroso, Wood destacou a origem humilde do diretor. “Peter cresceu em um país que, naquela época, mal possuía uma indústria cinematográfica estabelecida”, pontuou o ator, enquanto recebia aplausos dos presentes. “Mas, ao estilo clássico de Pete, isso não seria um obstáculo. Quando eu tinha apenas 18 anos, O senhor dos anéis não foi apenas o início da jornada de Frodo, mas o começo da minha própria. Então, Pete, eu realmente não tenho palavras para te agradecer por isso.”
A trajetória de Jackson em Cannes é antiga e significativa. O cineasta neozelandês estreou no mercado do festival em 1987 com seu primeiro longa-metragem, Bad Taste. Em um relato pessoal após receber a ovação de pé e um abraço caloroso de Wood, Jackson revelou detalhes sobre a produção desse filme inicial, que foi rodado durante fins de semana ao longo de quatro anos, enquanto ele ainda trabalhava como foto-gravador na Nova Zelândia. “Se o filme não tivesse sido bem vendido no mercado aqui, eu teria voltado para a Nova Zelândia para meu emprego de foto-gravador. Felizmente, ele foi muito bem aceito. Foi o que deu início à minha carreira”, confessou o cineasta.
O diretor também aproveitou a ocasião para relembrar o período tenso de 2001, quando trouxe trechos de O Senhor dos Anéis para o festival. Naquela época, a franquia estava sob intenso escrutínio da imprensa, em parte porque o estúdio responsável, a Warner Bros.., estava sendo colocado à venda. Jackson, com seu humor característico, provocou risos na plateia ao comentar a situação atual do mercado, fazendo uma alusão direta à recente venda da Warner Bros.. para a Paramount Skydance, sob o comando de David Ellison. “O que vai, volta”, brincou o diretor.
Jackson detalhou a estratégia de marketing da época: “Trouxemos 20 minutos aqui em 2001 e fizemos uma rodada de imprensa em um castelo nas colinas. Essa aposta mudou a percepção sobre o filme. Quando A Sociedade do Anel foi lançado em dezembro, havia uma expectativa que não teria existido se não fosse por Cannes”. O sucesso da trilogia, que rendeu ao cineasta neozelandês um total de 17 estatuetas do Oscar, consolidou sua posição como um dos maiores visionários do cinema contemporâneo.
Após o encerramento de seu discurso, Jackson foi novamente ovacionado. A anfitriã da cerimônia, Eye Haïdara, pediu que o cineasta permanecesse no centro do palco para uma surpresa especial. Após a exibição de um clipe do documentário de Jackson sobre os Beatles, as artistas Theodora e Oklou subiram ao palco para uma performance vibrante de “Get Back”. A energia da apresentação foi contagiante, levando Jackson a balançar a cabeça, bater palmas e cantar junto, acompanhado por membros do júri, como Moore.
A cerimônia seguiu com um momento de união simbólica, quando Jane Fonda e Gong Li subiram ao palco para declarar oficialmente a abertura do festival. Tradicionalmente, essa honra cabe a um único apresentador, mas a escolha de uma dupla este ano reforçou a mensagem de globalização. “Jane vem do Ocidente”, declarou Gong Li. “E eu venho do Oriente. Esta noite, estamos juntas aqui. Esta é a magia do Festival de Cannes.” Ela complementou afirmando que o cinema transcende línguas, culturas e gerações, focando no que é compartilhado: as emoções humanas. “O cinema nos permite encontrar e conectar. Esse é o poder dos filmes”, concluiu.
Jane Fonda, por sua vez, aproveitou o holofote para abordar o cenário político e social fragmentado. “Acredito no poder das vozes”, afirmou a atriz. “Vozes na tela, vozes fora da tela e, definitivamente, vozes nas ruas, especialmente agora. O cinema sempre foi um ato de resistência, pois contamos histórias, e histórias são o que compõem uma civilização. São narrativas que trazem empatia aos marginalizados e nos permitem sentir através das diferenças.” Fonda encerrou seu discurso com um apelo contundente: “Vamos celebrar a audácia, a liberdade e o ato feroz da criação”.
Após um breve intervalo, a celebração continuou com a estreia mundial de La Vénus électrique, de Pierre Salvadori. O início desta 79ª edição ocorre em um momento em que o festival enfrenta desafios em relação à presença de Hollywood. Relatos indicam que grandes estúdios têm evitado o evento devido a custos elevados e uma série de fracassos de alto perfil, um fenômeno que tem sido amplamente debatido pela crítica especializada. Apesar das tensões externas, a noite de abertura em Cannes reafirmou o compromisso do festival com a celebração da arte cinematográfica e a honra aos seus maiores criadores, como Peter Jackson.