Penélope Cruz brilha em The Black Ball no Festival de Cannes

O novo épico queer dirigido por Los Javis recebe uma ovação de 16 minutos e explora a história espanhola através da obra de Federico García Lorca.

O Festival de Cannes foi palco de um momento cinematográfico e político de grande impacto nesta quinta-feira, com a estreia mundial de The Black Ball (La Bola Negra). O longa-metragem, dirigido pela aclamada dupla espanhola Javier Ambrossi e Javier Calvo — amplamente conhecidos pelo público e pela crítica como Los Javis — foi recebido com uma ovação estrondosa de 16 minutos, um feito que sublinha a relevância da obra e o prestígio crescente dos cineastas. A presença de Penélope Cruz em uma participação especial estendida elevou ainda mais o brilho da produção, que marca a estreia da dupla na competição oficial do festival francês.

The Black Ball crew
The Black Ball crew
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Um marco na trajetória de Los Javis

A exibição em Cannes representa um passo significativo na carreira de Ambrossi e Calvo. Após conquistarem uma base de fãs fervorosa ao redor do mundo com produções televisivas de sucesso, como a série biográfica Veneno e o drama psicológico La Mesías, a dupla transita agora para o formato de longa-metragem com uma ambição narrativa renovada. The Black Ball não é apenas o primeiro filme da dupla a integrar a seleção oficial de Cannes, mas também o primeiro projeto produzido sob o selo da Suma Content Films, a nova divisão cinematográfica da produtora dos diretores, sinalizando uma expansão estratégica em suas atividades criativas.

Contexto histórico e inspiração literária

A narrativa de The Black Ball é um épico queer que atravessa 85 anos da história da Espanha, entrelaçando as vidas de três homens gays em três períodos distintos: 1932, 1937 e 2017. A estrutura do filme busca tecer uma tapeçaria complexa sobre o desejo, a perda e, fundamentalmente, sobre o que uma geração deixa como legado para a seguinte. O roteiro, escrito por Ambrossi e Calvo em colaboração com o dramaturgo Alberto Conejero, fundamenta-se em uma base literária e histórica profunda. A obra utiliza como ponto de partida quatro páginas sobreviventes de um romance inacabado de Federico García Lorca, escritas pouco antes de o poeta ser assassinado por forças nacionalistas em 1936, além de incorporar elementos da peça La piedra oscura, também de autoria de Conejero.

O título do filme, The Black Ball, carrega um peso simbólico e histórico. Ele faz referência a uma prática de exclusão social comum em certas épocas, onde uma bola preta era inserida em uma urna de votação para negar a entrada de um jovem gay em um clube de Granada. Este detalhe serve como uma metáfora potente para a rejeição sistêmica e o isolamento enfrentado por gerações de indivíduos LGBTQIA+ ao longo do século XX na Espanha.

Um elenco de peso e a força do discurso

Além da participação especial de Penélope Cruz, o elenco de The Black Ball reúne talentos de diversas gerações e áreas da cultura espanhola. A veterana Glenn Close assume um papel de suporte fundamental, enquanto o filme marca a estreia nas telas do cantor e compositor Guitarricadelafuente. O elenco é completado por nomes como Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes e Lola Dueñas, que contribuem para a densidade emocional da trama.

O momento mais marcante da estreia, contudo, ocorreu após a exibição, quando a dupla de diretores subiu ao palco. Em um discurso visivelmente emocionado, enquanto os aplausos da plateia ainda ecoavam pelo Grand Théâtre Lumière, Ambrossi e Calvo fizeram uma declaração contundente sobre a atualidade da obra. “Há noventa anos, Federico García Lorca foi morto pelo fascismo por ser gay. Então, para todos que pensam que vamos recuar em nossos direitos LGBT, temos más notícias. Porque nós viemos para ficar”, declararam os cineastas. Eles agradeceram ao Festival de Cannes pela oportunidade e enfatizaram a importância da união na luta por direitos civis, afirmando: “Que todos nós saibamos verdadeiramente que estamos na mesma luta”.

Produção técnica e distribuição

A excelência técnica de The Black Ball é assegurada por uma equipe de confiança que já havia colaborado com Los Javis em La Mesías. A cinematografia ficou a cargo de Gris Jordana, enquanto a trilha sonora foi composta por Raül Refree, elementos que ajudam a construir a atmosfera imersiva do filme. As filmagens foram um processo extenso, totalizando 12 semanas de trabalho em locações variadas, incluindo regiões da Espanha como Castela e Leão, Cantábria, Andaluzia e Madrid, com sequências adicionais rodadas na Grécia.

O projeto é uma coprodução robusta que envolve a Movistar Plus+, a Suma Content Films, a produtora El Deseo (de Pedro e Agustín Almodóvar) e a Le Pacte. Com a Goodfellas responsável pelas vendas internacionais, o filme já gera grandes expectativas para o mercado global. A estreia comercial está programada para o dia 2 de outubro na Espanha, com distribuição da Elastica Films. Atualmente, o longa disputa dois dos prêmios mais prestigiados do festival: a Palme d’Or (Palma de Ouro) e a Queer Palm, consolidando-se como um dos títulos mais comentados desta edição de Cannes.

Fonte: Variety