Pedro Almodóvar critica Trump e defende liberdade em Cannes

O cineasta espanhol aproveitou a conferência de imprensa de seu novo filme para alertar sobre os riscos à democracia e o dever moral dos artistas.

O renomado cineasta Pedro Almodóvar, figura central do cinema mundial, utilizou a conferência de imprensa de seu mais recente longa-metragem, intitulado “Bitter Christmas”, durante a 79ª edição do Festival de Cannes, para proferir uma declaração contundente sobre o cenário político internacional. Diante de uma plateia composta por jornalistas de diversas partes do globo, o diretor espanhol afirmou categoricamente que a Europa nunca deve se sujeitar à influência ou aos métodos de Donald Trump. A declaração, carregada de peso político, foi recebida com uma salva de palmas efusiva pelos presentes, sinalizando uma sintonia entre o cineasta e parte da crítica especializada sobre os rumos da política ocidental.

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O contexto da fala de Almodóvar não foi casual. O diretor respondia a questionamentos sobre o crescente clima de censura e as pressões enfrentadas por artistas no cenário contemporâneo. O debate ganhou contornos específicos ao abordar a situação política nos Estados Unidos sob a gestão de Trump e as tensões recentes na França, onde o grupo Canal+ esteve no centro de uma polêmica. Relatos indicam que a chefia da emissora teria ameaçado implementar uma lista negra contra profissionais da indústria cinematográfica que assinaram uma carta aberta em oposição ao principal acionista da empresa. Para Almodóvar, tais episódios são sintomas claros de um ambiente hostil à liberdade criativa.

O dever moral do artista

Durante a coletiva, Almodóvar enfatizou que a omissão não é uma opção viável para quem trabalha com arte. “Isso nos afeta profundamente”, declarou o diretor ao comentar sobre o medo que tem paralisado parte da classe artística. Ele instou seus colegas de profissão a não sucumbirem a esse temor, argumentando que o silêncio é um sintoma perigoso de que a sociedade está caminhando em uma direção equivocada. “Não quero julgar ninguém, mas acredito que os artistas têm o dever moral de se manifestar sobre a situação em que vivem na sociedade contemporânea”, afirmou o cineasta, reforçando que o silêncio é um sinal inequívoco de que a democracia está em processo de erosão.

Para o diretor, a pior postura que um criador pode adotar é a passividade ou a aceitação da censura. Ele defendeu que a classe artística deve atuar como um escudo contra a “loucura” política que tem dominado o debate público. Além de suas palavras, o próprio Almodóvar deu o exemplo ao aparecer no evento utilizando um broche com a frase “Free Palestine”, uma forma visual de protesto que reforça seu compromisso com causas humanitárias e políticas que, segundo ele, não podem ser ignoradas pela cultura.

Críticas à neutralidade no Oscar

A postura de Almodóvar em Cannes também serviu para reiterar suas críticas à recente cerimônia do Oscar. O diretor já havia manifestado, antes mesmo do início do festival, seu descontentamento com o caráter excessivamente apolítico da premiação deste ano. Em entrevista ao Los Angeles Times, ele observou que foi notável a ausência de protestos significativos contra guerras ou contra figuras políticas polarizadoras durante a transmissão da cerimônia. “Não estou culpando ninguém em particular, mas foi bastante notável assistir ao Oscar e não ver muitos protestos contra a guerra ou contra Trump”, observou.

O cineasta destacou que, embora possa ter havido outras manifestações isoladas, o exemplo mais claro e direto que ele conseguiu recordar foi o do ator Javier Bardem, que, durante o evento, utilizou seu tempo de fala para pedir por “Free Palestine”. Para Almodóvar, essa escassez de posicionamento político em palcos globais é um reflexo do medo que permeia a indústria.

A visão sobre a democracia americana

Ao aprofundar sua análise sobre os Estados Unidos, Almodóvar não poupou críticas à estrutura democrática atual do país. Ele afirmou que, em sua visão, os EUA não operam mais como uma democracia plena. “Algumas pessoas dizem que talvez seja uma democracia imperfeita, mas eu realmente não acho que os EUA sejam uma democracia agora”, pontuou. O diretor descreveu o cenário como um paradoxo doloroso e irônico: o fato de que a própria democracia, através de mecanismos eleitorais legítimos, permitiu a ascensão de regimes que ele classifica como totalitários. Essa análise, segundo ele, é fonte de uma tristeza profunda.

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que Almodóvar utiliza sua visibilidade para criticar Donald Trump. Em 2025, durante a cerimônia de entrega do Chaplin Award no Lincoln Center, em Nova York, o cineasta já havia se referido ao então presidente norte-americano com termos que destacavam sua natureza autoritária. O histórico de Almodóvar demonstra uma coerência em seu ativismo, utilizando sua posição de prestígio para questionar o poder e defender valores que considera fundamentais para a preservação da liberdade e dos direitos humanos. O cineasta reafirma, assim, que sua obra e sua voz pública são extensões de um mesmo compromisso com a verdade e com a crítica social, recusando-se a separar o artista do cidadão político.

Fonte: Variety