Park Chan-wook brinca sobre Palma de Ouro no Festival de Cannes

O cineasta sul-coreano, presidente do júri da 79ª edição do evento, ironizou a dificuldade de escolher o vencedor do prêmio máximo do cinema mundial.

O renomado cineasta sul-coreano Park Chan-wook, amplamente reconhecido por sua filmografia impactante e por ser um dos favoritos de longa data do Festival de Cannes, protagonizou um momento de descontração e honestidade brutal durante a coletiva de imprensa oficial que marcou o encerramento da 79ª edição do evento. O diretor, que assumiu a prestigiosa posição de presidente do júri este ano, aproveitou a oportunidade para fazer uma autocrítica bem-humorada sobre a complexa tarefa de selecionar o vencedor da Palma de Ouro, o prêmio mais cobiçado do cinema mundial.

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Em uma declaração que rapidamente repercutiu entre os jornalistas e críticos presentes no Palais des Festivals, Park Chan-wook revelou, com um tom de voz inexpressivo e irônico, os dilemas internos que enfrentou ao lado de seus colegas jurados. “Para ser completamente honesto, eu não queria entregar a Palma de Ouro a nenhum dos filmes, porque é um prêmio que eu mesmo nunca recebi na minha carreira”, confessou o diretor, arrancando risadas da plateia. Ele completou o pensamento com um toque de resignação cômica: “Mas, no fim das contas, eu não tive outra escolha”. A fala, embora carregada de humor, sublinhou a posição única de Park, um cineasta aclamado internacionalmente que, apesar de sua influência e prestígio, ainda não alcançou o topo do pódio em Cannes.

Apesar da brincadeira sobre sua própria trajetória, o júri presidido por Park Chan-wook cumpriu rigorosamente sua missão de avaliar a seleção oficial. O veredito o veredito O veredito final foi a entrega da Palma de Ouro ao complexo drama moral Fjord, dirigido pelo cineasta romeno Cristian Mungiu. O filme, que conta com as atuações de Sebastian Stan e Renate Reinsve, consolidou Mungiu como uma figura histórica no festival. Com esta vitória, ele se torna o décimo cineasta na história do evento a conquistar o prêmio máximo por duas vezes, um feito notável que ocorre 19 anos após sua primeira vitória, quando foi laureado pelo impactante 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias.

A defesa das decisões compartilhadas

Um dos momentos mais significativos da coletiva de imprensa foi quando o presidente do júri abordou a decisão coletiva de não eleger favoritos únicos em categorias cruciais, optando por dividir os prêmios. O júri decidiu conceder honras compartilhadas tanto para a categoria de atuação quanto para a de direção, uma escolha que gerou debates, mas que Park Chan-wook defendeu com firmeza e convicção.

No que diz respeito à atuação, o prêmio foi dividido entre Virginie Efira e Tao Okamoto, por suas performances no filme All of a Sudden, dirigido por Ryusuke Hamaguchi. Park foi enfático ao justificar a decisão: “Se vocês assistiram aos dois filmes que foram premiados na categoria de atuação, estou certo de que concordariam plenamente com nossas escolhas”. O diretor argumentou que a qualidade das interpretações era de tal magnitude que a distinção individual se tornaria injusta.

A mesma lógica foi aplicada à categoria de direção, que resultou em um empate técnico entre o polonês Pawel Pawlikowski, pelo filme Fatherland, e a dupla espanhola composta por Javier Calvo e Javier Ambrossi, pelo longa The Black Ball. Ao ser questionado sobre a dificuldade de chegar a um consenso, Park Chan-wook reforçou sua posição: “Para enfatizar isso novamente, ambos os cineastas realizaram um trabalho absolutamente incrível, e nós simplesmente não conseguimos decidir se um era melhor do que o outro”. Para o presidente do júri, a divisão dos prêmios não foi um sinal de indecisão, mas sim um reconhecimento da excelência técnica e narrativa apresentada por ambos os lados.

Um júri diversificado e o peso da responsabilidade

O processo de deliberação deste ano foi conduzido por um grupo eclético de profissionais da indústria cinematográfica, reunidos sob a liderança de Park Chan-wook. O júri da 79ª edição foi composto por nomes de grande relevância no cenário artístico global, incluindo a atriz Demi Moore, a atriz Ruth Negga, a diretora Chloé Zhao, além de Laura Wandel, Diego Céspedes, Isaach De Bankolé e Paul Laverty. A diversidade de perspectivas dentro desse grupo foi fundamental para a construção do consenso final, mesmo diante de uma seleção de filmes que, segundo o próprio presidente, apresentou desafios consideráveis na hora de definir os vencedores.

A coletiva de encerramento não serviu apenas para anunciar os premiados, mas também para oferecer um vislumbre dos bastidores de um dos festivais mais importantes do mundo. A postura de Park Chan-wook, equilibrando o peso da autoridade de um presidente de júri com a humildade de um artista que ainda almeja o reconhecimento máximo, humanizou o processo de premiação. Ao brincar com sua própria falta de uma Palma de Ouro, ele não apenas quebrou o gelo, mas também estabeleceu uma conexão direta com a audiência, lembrando a todos que, por trás das decisões técnicas e dos prêmios, existem cineastas que compartilham a mesma paixão e as mesmas aspirações que aqueles que estão competindo.

O Festival de Cannes, ao longo de seus 79 anos, sempre foi um palco para grandes debates sobre a arte cinematográfica, e a edição de 2026 não foi exceção. A escolha de Fjord como o grande vencedor, somada às decisões de dividir prêmios de atuação e direção, reflete uma curadoria que valoriza a complexidade moral e a inovação estética. A presença de Park Chan-wook como presidente do júri trouxe um olhar experiente e, ao mesmo tempo, provocativo, garantindo que as discussões sobre o futuro do cinema continuassem no centro das atenções. Enquanto o festival se encerra, as palavras de Park permanecem como um lembrete da subjetividade inerente à arte e da dificuldade, muitas vezes impossível, de quantificar o talento e a genialidade em um único troféu.

A trajetória de Park Chan-wook em Cannes é, por si só, um capítulo à parte na história do festival. Como um dos cineastas mais respeitados da atualidade, sua presença no comando do júri foi vista como um reconhecimento de sua contribuição inestimável ao cinema mundial. Ao encerrar a 79ª edição, ele não apenas entregou os prêmios, mas também deixou uma marca indelével através de sua honestidade e de sua capacidade de encontrar humor mesmo nas situações mais formais e pressionadas. O legado desta edição, com suas escolhas corajosas e seu júri diversificado, certamente será discutido por críticos e cinéfilos por muito tempo, consolidando ainda mais o papel de Cannes como o epicentro da cultura cinematográfica global.

Fonte: Variety