O conselheiro jurídico chefe da Paramount Skydance, Makan Delrahim, afirmou que parte da resistência à fusão de US$ 111 bilhões com a Warner Bros.. Discovery, liderada por David Ellison, é motivada por visões antissemitas. A declaração, feita em entrevista recente, coloca em evidência a tensão crescente em torno de um dos maiores negócios da história do entretenimento.


A transação, que visa consolidar ativos de peso no mercado global, enfrenta críticas de diversos setores. Até o momento, mais de 5.500 profissionais da indústria, incluindo cineastas e atores, assinaram uma carta aberta manifestando oposição ao acordo. Além disso, parlamentares democratas solicitaram ao procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, que realize um escrutínio rigoroso sobre os termos da fusão.
Delrahim contesta motivações políticas e alega medo infundado
Durante a entrevista, Makan Delrahim defendeu a viabilidade econômica do negócio, argumentando que a fusão trará benefícios concretos ao mercado. Segundo o executivo, a gestão de David Ellison, que possui histórico como cineasta, trará um olhar mais atento às necessidades criativas da indústria. Ele classificou as críticas como uma campanha política orquestrada, afirmando que o medo disseminado por opositores em Washington não reflete a realidade econômica da operação.
O conselheiro jurídico foi enfático ao sugerir que o antissemitismo estaria por trás de parte da oposição. Embora não tenha identificado nominalmente os críticos, a fala gerou repercussão imediata. A Paramount, por sua vez, ainda não forneceu detalhes adicionais sobre a base dessa acusação específica. O debate sobre a fusão ganha contornos complexos, especialmente quando comparado a outros movimentos de mercado, como quando Reacher perde força e sai do Top 10 semanal do Prime Video, demonstrando a volatilidade das audiências e das estratégias de streaming.
Contexto de tensões geopolíticas e boicotes
A menção ao antissemitismo ocorre em um cenário onde a indústria cinematográfica tem sido palco de debates intensos sobre posicionamentos políticos. Em setembro de 2025, o grupo Film Workers for Palestine circulou um compromisso de não colaborar com instituições de cinema israelenses, alegando envolvimento em conflitos na região. A Paramount condenou publicamente o movimento, argumentando que a iniciativa silenciava artistas com base em sua nacionalidade.
A complexidade do cenário é ampliada pelo envolvimento de Larry Ellison, pai de David Ellison e principal financiador da fusão. O bilionário é conhecido por sua proximidade com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e por suas doações a organizações como a Friends of the Israel Defense Forces. Essas conexões alimentam as críticas de opositores que temem que a fusão possa ser influenciada por agendas políticas externas, algo que a empresa nega veementemente.
Preparação para desafios antitruste e futuro da fusão
Sobre a possibilidade de um processo antitruste movido pelo procurador Rob Bonta, Makan Delrahim afirmou que a equipe jurídica está preparada para o pior cenário, embora confie na legalidade do negócio. Ele ressaltou que nenhum regulador sério encontraria violações antitruste ao analisar os dados econômicos da transação. A estratégia da Paramount inclui a promessa de lançar pelo menos 30 filmes por ano, visando fortalecer a presença nos cinemas.
O executivo também defendeu que a união é necessária para que o Paramount+ e a HBO Max consigam competir com gigantes como Netflix, Disney+ e Prime Video. A escala, segundo ele, é o fator determinante para a sobrevivência no mercado atual. Enquanto o setor aguarda definições, o mercado observa como essas movimentações impactam produções futuras, lembrando que Top Gun 3 precisa de um vilão real para evoluir a franquia, assim como a fusão precisa de clareza para avançar sem entraves regulatórios.
A Paramount já havia superado um marco importante no Departamento de Justiça dos Estados Unidos, após o término do período de espera estatutário. Contudo, o órgão mantém a prerrogativa de contestar a fusão a qualquer momento. O acting head da divisão antitruste, Omeed Assefi, já havia descartado qualquer tratamento preferencial ou aceleração do processo por motivos políticos, garantindo que a análise seguirá os trâmites legais padrão.
Makan Delrahim, que assumiu o cargo de conselheiro jurídico chefe em outubro de 2025, traz uma vasta experiência, tendo atuado anteriormente no Departamento de Justiça durante o primeiro mandato de Donald Trump. Sua trajetória profissional e sua atuação como conselheiro de Skydance Media na aquisição da Paramount Global conferem um peso estratégico à sua defesa pública do negócio. A disputa, portanto, permanece em um estágio de alta tensão, onde argumentos jurídicos e tensões ideológicas se entrelaçam.
O peso da herança de Larry Ellison na percepção pública
A figura de Larry Ellison, cofundador da Oracle e pai de David Ellison, é um elemento central que complica a narrativa da fusão. Como um dos homens mais ricos do mundo, sua influência política e suas doações filantrópicas de longa data para organizações ligadas ao Estado de Israel tornaram-se alvos frequentes de ativistas. A preocupação dos críticos não se limita apenas à concentração de mercado — que, por si só, já seria um desafio antitruste monumental —, mas à possibilidade de que a linha editorial e as decisões de conteúdo de um conglomerado que controla marcas como CBS, MTV, Nickelodeon e o vasto catálogo da Warner Bros.. possam ser moldadas por uma visão de mundo específica. Para o público brasileiro, que consome massivamente o conteúdo dessas plataformas via Paramount+ e Max, a questão levanta debates sobre a neutralidade dos grandes estúdios em tempos de polarização global.
A estratégia jurídica de Makan Delrahim
Makan Delrahim não é um novato em batalhas de alto nível. Sua passagem pela divisão antitruste do Departamento de Justiça dos EUA durante o governo Trump foi marcada por uma postura agressiva contra a consolidação de gigantes da tecnologia e telecomunicações. Ao transitar para o lado privado e assumir a defesa da Skydance, Delrahim utiliza seu conhecimento profundo das engrenagens regulatórias para tentar deslegitimar a oposição. Ao classificar as críticas como ‘antissemitismo’ ou ‘medo infundado’, ele tenta deslocar o debate do campo técnico-econômico para o campo moral. Essa é uma manobra clássica de gestão de crise: quando os argumentos sobre ‘eficiência de mercado’ e ‘sinergia’ não são suficientes para convencer o público ou os reguladores, a narrativa é elevada a um patamar ideológico onde o questionamento da fusão passa a ser visto como uma forma de intolerância.
Impacto no mercado de streaming e concorrência
A fusão entre Paramount e Warner Bros.. Discovery não é apenas uma transação financeira; é uma tentativa de sobrevivência em um mercado saturado. O streaming, que antes prometia ser a terra prometida da lucratividade, tornou-se um campo de batalha de margens apertadas e custos de produção astronômicos. A união de catálogos visa criar um ‘super-serviço’ capaz de reter assinantes que, atualmente, pulam de plataforma em plataforma conforme a oferta de conteúdo. Para o assinante brasileiro, a grande dúvida reside na integração dos serviços. Com o Paramount+ e a Max operando sob o mesmo teto, a expectativa é de uma reestruturação profunda nas assinaturas e na oferta de canais lineares. A promessa de 30 filmes por ano, mencionada por Delrahim, é um aceno direto aos exibidores de cinema, que temem que a priorização do streaming mate a experiência da tela grande.
O escrutínio regulatório e o papel do Procurador Rob Bonta
A solicitação de parlamentares democratas ao procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, adiciona uma camada de incerteza jurídica que pode arrastar o processo por meses ou até anos. Bonta, conhecido por sua postura progressista, tem o poder de investigar se a fusão resultará em práticas monopolistas que prejudiquem o consumidor local ou a diversidade de vozes na produção cultural. Diferente de órgãos federais que focam na concorrência nacional, a atuação estadual pode focar no impacto sobre a economia criativa da Califórnia, onde a maioria desses estúdios está sediada. A defesa de Delrahim, ao minimizar esses riscos, ignora que a pressão política, quando combinada com uma base de 5.500 profissionais da indústria insatisfeitos, cria um ambiente onde a aprovação regulatória se torna um processo de desgaste político, e não apenas uma análise de planilhas.
Disponibilidade e futuro do conteúdo no Brasil
Para o público brasileiro, a fusão é um evento de acompanhamento obrigatório. Atualmente, o Paramount+ mantém uma presença robusta com produções locais e licenciamento de grandes franquias, enquanto a Max (antiga HBO Max) domina o segmento de prestígio e entretenimento familiar. Uma eventual fusão dessas operações no Brasil exigiria aprovações do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que historicamente analisa com rigor a concentração de mercado em telecomunicações e mídia. Até o momento, não há uma data oficial para a conclusão do negócio ou para qualquer alteração nos serviços de streaming disponíveis no país. A recomendação para o consumidor é observar as movimentações contratuais e as futuras integrações de catálogo, que devem ocorrer apenas após o sinal verde definitivo das autoridades americanas e internacionais.
Fonte: Variety