O Conselheiro merece redescoberta como obra-prima de Ridley Scott

O thriller de 2013, escrito por Cormac McCarthy, desafia expectativas com uma narrativa niilista e atuações marcantes que merecem uma nova análise.

Quando O Conselheiro chegou aos cinemas em 2013, a recepção foi, para dizer o mínimo, hostil. O filme de Ridley Scott foi recebido pelo público e pela crítica como um saco de lixo em chamas, uma piada cruel para qualquer espectador que buscasse as emoções típicas de um thriller de cartel. Com um pedigree de bastidores impressionante — um roteiro original do lendário romancista Cormac McCarthy, logo após o sucesso da adaptação vencedora do Oscar Onde os Fracos Não Têm Vez, somado ao olhar visual robusto de Scott e um elenco estelar composto por Michael Fassbender, Brad Pitt, Javier Bardem e Cameron Diaz — a expectativa era de um sucesso absoluto. No entanto, o que Scott entregou foi a antítese do entretenimento convencional, mergulhando em um abismo de niilismo ainda mais profundo que o de Onde os Fracos Não Têm Vez.

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A recepção crítica e a incompreensão do público

Os críticos massacraram a obra, resultando em uma pontuação de apenas 34% no Rotten Tomatoes, com uma recepção do público ainda mais baixa, na casa dos 24%. O crítico da BBC, Mark Kermode, classificou-o como um dos piores filmes daquele ano, lamentando a experiência de assistir à obra e questionando o que teria acontecido com o diretor. O consenso entre os espectadores da época descrevia o longa como “nojento”, “doentio” e “vazio”, sentindo que a narrativa se assemelhava mais a um audiolivro de McCarthy do que a um thriller meticulosamente construído. Contudo, uma parcela do público compreendeu a proposta, celebrando O Conselheiro como o diamante negro que realmente é. Dedicado explicitamente ao falecido irmão de Ridley, Tony Scott, e produzido com a presença constante de McCarthy no set, nada no filme é um erro; na verdade, é uma obra-prima moderna de coração sombrio que, após 13 anos, está pronta para ser redescoberta.

O inferno do cartel e a espiral de fatalismo

O fatalismo de O Conselheiro se estabelece antes mesmo de a trama principal se desenrolar. O filme abre com o protagonista, interpretado por Fassbender, e sua namorada, vivida por Penélope Cruz, em um momento íntimo sob lençóis brancos. Visualmente, eles já parecem cadáveres antes mesmo de vermos seus rostos. A conversa é carregada de uma verbosidade estranha e maneirismos que sugerem, desde o início, que nada de bom os aguarda. Scott pontua os créditos iniciais com uma montagem de cocaína sendo embalada em tambores de aço e carregada em navios-tanque, enquanto armazéns são lavados para apagar evidências. O protagonista, que nunca recebe um nome, é movido pela ganância e acaba arrastado para uma trama de tráfico que o leva, junto com o filme, a uma espiral de morte inevitável, onde corpos humanos não passam de marcas em registros arcanos ou vítimas em filmes snuff de advertência.

Michael Fassbender em cena de O Conselheiro
Michael Fassbender interpreta o advogado que se perde no submundo do crime organizado.

Atuações extravagantes e a estética do horror

Acompanhando o protagonista em sua descida ao inferno, temos o extravagante traficante Reiner, interpretado por Bardem, e Westray, o homem do dinheiro com seu chapéu de cowboy, vivido por Pitt. À margem, observamos a namorada de Reiner, a personagem de nome sugestivo Malkina, interpretada por Diaz como a própria personificação da ganância. Tanto Bardem quanto Diaz entregam performances memoráveis e exageradas, com o figurino de Bardem sendo pilhado dos arquivos de grandes casas de design. Diaz, por sua vez, protagoniza uma cena sexual bizarramente inesquecível, que deixa claro o quão irrelevante um parceiro é para sua satisfação pessoal. O filme também introduz um dispositivo de assassinato horripilante conhecido como “bolito”, sobre o qual é melhor não entrar em detalhes. Estilisticamente, O Conselheiro apresenta a marca registrada do Ridley Scott tardio: uma imagem digitalmente nítida, colorida e esteticamente elegante. O que provavelmente afastou o público na época foi a série de monólogos de McCarthy que compõem a maior parte do diálogo e revelam o coração do filme de forma mais clara do que os visuais, por vezes aterrorizantes, já o faziam.

Um pesadelo inesquecível

O personagem de Fassbender recebe múltiplos avisos sobre os salários da ganância e o resultado inevitável de brincar com o cartel, tudo entregue na forma de monólogos densos por Pitt, Bardem e pelo lendário ator suíço Bruno Ganz, que interpreta um joalheiro filósofo oferecendo um “diamante de advertência”. No entanto, como as vítimas do dispositivo de assassinato bizantino que Reiner descreve com alegria, o destino do conselheiro está selado assim que ele começa a negociar na moeda do cartel. Não é uma experiência divertida, mas é um pesadelo inesquecível para quem consegue suportar a crueza da narrativa.

Fonte: Collider