M.I.A. estreia no Peacock com trama de vingança em Miami

Nova série criada por Bill Dubuque aposta em narrativa de crime e busca por justiça, mas sofre com ritmo irregular e excesso de clichês do gênero.

A nova série M.I.A., que acaba de estrear na plataforma de streaming Peacock, mergulha o espectador em uma premissa clássica de vingança ambientada sob o sol escaldante de Miami. Criada por Bill Dubuque, o nome por trás do aclamado sucesso Ozark, a produção tenta equilibrar a tensão de um drama criminal com a leveza de um entretenimento de consumo rápido. A narrativa acompanha a jornada de Etta Tiger Jonze, uma jovem de 21 anos que, após um negócio de tráfico de drogas dar terrivelmente errado e resultar na destruição de sua família, decide caçar implacavelmente os responsáveis. O que se segue é uma caçada que se estende por diversos episódios, onde a protagonista busca justiça pelas próprias mãos.

Shannon Gisela e Tovah Feldshuh em cena de M.I.A.
Shannon Gisela e Tovah Feldshuh estrelam a nova produção do Peacock, que explora temas de justiça extrajudicial.

O que você precisa saber sobre a produção

  • A série é uma criação deBill Dubuque, contando comKaren Campbellno papel fundamental de showrunner.
  • A trama central gira em torno de uma lista de doze nomes específicos que a protagonistaEttapretende eliminar, um a um, como forma de retribuição.
  • O elenco principal é encabeçado porShannon Gisela, acompanhada por veteranos e talentos comoCary Elwes,Danay Garcia,Brittany Adebumola,Dylan Jackson,Alberto Guerra,Maurice Compte,Gerardo CelascoeMarta Milans.
  • A série estreou oficialmente na quinta-feira, 7 de maio, no catálogo doPeacock.

Uma narrativa de vingança com altos e baixos

A protagonista Etta, vivida por Shannon Gisela, é apresentada como uma personagem dotada de memória eidética, uma habilidade que, teoricamente, deveria torná-la uma caçadora formidável. Antes da tragédia, ela levava uma vida aparentemente comum, trabalhando com passeios de vida selvagem em Key Largo. A dinâmica familiar, no entanto, é estilhaçada quando o cartel local, sob o comando dos implacáveis irmãos Mateo e Samuel, decide expandir suas operações criminosas para o tráfico humano. A tragédia resultante deixa a jovem como a única sobrevivente, forçando-a a abandonar sua vida pacata para se tornar uma justiceira. A série tenta, a todo custo, construir uma atmosfera de suspense denso, mas frequentemente perde o fôlego em subtramas que pouco contribuem para o arco principal, deixando o espectador com a sensação de que a história poderia ser mais concisa.

O ritmo da série é, sem dúvida, um dos pontos mais debatidos pelos críticos. A obra alterna bruscamente entre momentos de ação frenética e episódios arrastados, onde a progressão da trama parece estagnar. A tentativa de criar uma “família encontrada” entre Etta, Stanley e Lovely, embora seja um tropo comum em dramas de ação, carece aqui de uma profundidade emocional genuína. Sem essa conexão, torna-se um desafio para o público se importar verdadeiramente com as motivações do grupo ou com os riscos que eles correm ao enfrentar o cartel. A série se posiciona em um limbo curioso: não é um drama de prestígio denso e complexo, nem um entretenimento puramente descerebrado, falhando em entregar plenamente as virtudes de qualquer um desses estilos.

O papel dos coadjuvantes e o estilo visual

Apesar das falhas estruturais no roteiro, a participação de nomes como Tovah Feldshuh traz um novo fôlego à trama, especialmente na reta final da temporada. A personagem Lena, que administra um motel, guarda segredos que elevam o tom da série, aproximando-a de um estilo mais ousado e menos convencional, o que acaba sendo um alívio em meio a tantos clichês. A produção também se beneficia de participações especiais de atores como Mike Colter, Paul Ben-Victor e Sonia Braga. Embora esses talentos não consigam salvar a narrativa de seus tropeços, eles conferem um peso dramático maior ao elenco, elevando a qualidade das cenas em que aparecem.

Um elemento que chama a atenção é a trilha sonora. O uso do gênero yacht rock como um recurso de alívio para o personagem Stanley é uma escolha estilística peculiar. No entanto, o uso recorrente de músicas como “Ride Like the Wind” para pontuar momentos de tensão extrema acaba se tornando um artifício repetitivo. Essa escolha, embora claramente intencional por parte da direção, soa como uma tentativa de emular o sucesso de outras produções recentes de streaming, como euphoria, que utiliza referências musicais de forma muito mais integrada à jornada psicológica de seus personagens. Em M.I.A., a música parece, muitas vezes, deslocada da gravidade da situação.

A vingança como motor de coesão social

Um aspecto interessante, embora controverso, é como a série aborda a vingança extrajudicial. O roteiro sugere, de forma quase irônica, que o ato de buscar vingança é o caminho mais direto para a formação de um grupo de amigos coeso. É uma premissa que beira o absurdo, mas que serve como o motor principal para unir os personagens. Comparando com outras produções recentes, como Man on Fire da Netflix, M.I.A. consegue ser, pelo menos, um pouco mais divertida, mesmo que sua natureza descartável seja evidente desde os primeiros episódios. A série é, em última análise, um produto de consumo imediato: oferece um início promissor, um final que tenta amarrar as pontas soltas, mas que sofre de um “meio” de temporada monótono e pouco inspirado.

A ambientação em Miami é utilizada para criar um contraste visual entre a beleza tropical e a podridão do submundo do crime. As locações, que variam de áreas turísticas a motéis decadentes, ajudam a compor o cenário de uma história que tenta, a todo custo, ser mais do que apenas uma série de vingança comum. Contudo, a execução deixa a desejar em momentos cruciais. O espectador que busca uma trama de crime bem estruturada pode se sentir frustrado com as conveniências do roteiro e com a falta de desenvolvimento dos personagens secundários. Por outro lado, para quem busca apenas passar o tempo com uma história de ação sem grandes compromissos intelectuais, a série pode oferecer momentos de entretenimento passageiro.

Em suma, M.I.A. é uma produção que reflete os desafios atuais das plataformas de streaming em manter o público engajado. Com uma premissa que tinha potencial para ser um thriller psicológico de alto nível, a série acaba se perdendo em fórmulas já batidas. A performance de Shannon Gisela é esforçada, tentando dar credibilidade a uma protagonista que, por vezes, toma decisões questionáveis em nome de sua vingança. A série não é um desastre completo, mas também não alcança o patamar de excelência que o nome de Bill Dubuque poderia sugerir. É uma obra que vive de lampejos de qualidade, mas que, no cômputo geral, entrega um resultado mediano, servindo como um lembrete de que, no gênero de vingança, a execução é tão importante quanto a ideia original.

A série também levanta questões sobre o custo da violência. Embora a vingança seja apresentada como o objetivo final de Etta, a série não explora profundamente as consequências psicológicas desse caminho. A personagem parece imune ao trauma que a perseguição e a violência constante deveriam causar, o que retira um pouco da humanidade que a trama tenta desesperadamente imprimir. A falta de consequências reais para os atos da protagonista torna a jornada menos impactante do que poderia ser. A série se contenta em ser um produto de entretenimento, sem se aprofundar nas questões morais que o tema da vingança naturalmente evoca.

Por fim, a recepção da crítica e do público será o termômetro para saber se M.I.A. terá fôlego para uma segunda temporada ou se será apenas mais uma série esquecível no vasto catálogo do Peacock. Com um início que prende a atenção e um final que tenta justificar toda a jornada, a série deixa um saldo positivo, mas que certamente poderia ser muito melhor se tivesse focado mais na qualidade do roteiro do que em artifícios estilísticos. Para os fãs do gênero de crime e vingança, é uma opção válida, desde que as expectativas sejam ajustadas para uma produção que prioriza o entretenimento descartável em vez da profundidade narrativa.

Fonte: THR