Hania Mroue, fundadora e diretora do Metropolis Cinema, o único cinema de arte do Líbano, reafirma o compromisso cultural da instituição ao manter a segunda edição do festival South Screens (Écrans du Sud) em Beirute. A decisão ocorre em um momento de escalada nos ataques aéreos israelenses na região, desafiando um cenário de instabilidade extrema que afeta a capital libanesa e seus arredores.

Apesar de um bombardeio registrado na tarde de quinta-feira no subúrbio de Choueifat, próximo ao aeroporto internacional da cidade — o primeiro ataque nas imediações da capital desde o início de maio —, a organização do evento confirmou a continuidade da programação. A resiliência do Metropolis Cinema reflete uma postura de adaptação constante, característica de uma trajetória que, segundo Mroue, sempre operou em contextos de crise.

Adaptação como estratégia de sobrevivência cultural
O Metropolis Cinema possui um histórico de resistência. Inaugurado em 11 de julho de 2006, o espaço iniciou suas atividades justamente no dia anterior ao início de um conflito armado entre Israel e o Líbano. Essa experiência moldou a forma como a equipe lida com a instabilidade. Hania Mroue explica que a escolha é entre a paralisia ou a adaptação, e a equipe optou por seguir em frente, mesmo diante dos riscos operacionais e da responsabilidade de reunir público e equipe em um ambiente tenso.
A diretora relata que, no início da atual escalada, o cinema precisou fechar as portas por duas semanas devido à violência dos ataques. No entanto, ao perceber que a situação não se resolveria rapidamente, a equipe decidiu reabrir. O desafio de programação foi imenso: evitar conteúdos desconectados da realidade local, mas também não sobrecarregar o público com produções focadas estritamente na guerra, visto que a audiência já lida com o esgotamento causado pelo noticiário constante.
Recepção do público e o papel do cinema como refúgio
A decisão de reabrir o Metropolis Cinema provou ser acertada. Após a reabertura, o espaço registrou um mês de sessões esgotadas, incluindo a exibição do documentário Do You Love Me, de Nana Daher. O filme, que utiliza imagens de arquivo para explorar a psique coletiva libanesa ao longo de 70 anos, atraiu um público disposto a enfrentar os riscos para buscar um momento de desconexão e coletividade.
Para Mroue, o cinema funciona como um dos poucos locais em Beirute capazes de reunir pessoas independentemente de suas afiliações políticas, crenças religiosas ou posições sociais. Em um país marcado por uma profunda polarização, o Metropolis Cinema atua como um ponto de encontro necessário. A disposição do público em frequentar o espaço, mesmo sob a ameaça de bombardeios, sublinha a importância vital desses espaços culturais para a manutenção da coesão social.
Significado do festival South Screens no cenário global
A realização do festival South Screens, que ocorre de 28 de maio a 6 de junho, carrega um peso simbólico significativo. O evento abre com o documentário And the Fish Fly Above Our Heads, da diretora libanesa Dima El-Horr, que retrata a realidade de três homens idosos em uma praia pública de Beirute. A programação também inclui obras de cineastas como Oliver Laxe, Saeed Roustaee, Rungano Nyoni, Park Chan-wook, Lucrecia Martel e Cherien Dabis.
A diretora destaca que o festival não busca o glamour de tapetes vermelhos ou premiações, mas sim criar encontros reais entre cineastas e o público. A presença de convidados internacionais, como Oliver Laxe, que viajou da Espanha, é vista como um gesto de solidariedade. Para Mroue, o festival é uma afirmação de que, além de sobreviver à guerra, é possível criar algo com significado real, conectando a experiência cinematográfica do Líbano com outros países do Sul Global.
A ameaça constante e a operação diária
A situação em Beirute permanece precária. A maior parte do sul do Líbano enfrenta evacuações em massa, com aldeias inteiras sob ameaça. A capital vive sob o medo constante de bombardeios e ataques à infraestrutura crítica, como o aeroporto. A presença de drones sobrevoando a cidade 24 horas por dia é uma fonte contínua de estresse, mantendo a população em um estado de alerta permanente.
Hania Mroue descreve a operação do cinema como um exercício de planejamento de curto prazo, muitas vezes hora a hora. A incerteza sobre o que acontecerá durante a noite impede planos de longo prazo. Mesmo com a celebração do 20º aniversário do Metropolis Cinema prevista para julho, a equipe mantém cautela, adaptando a programação conforme a evolução da situação no terreno, mas sem abrir mão da intenção de marcar a data com um evento simbólico e poderoso.
A resiliência demonstrada por Mroue e sua equipe é um lembrete da importância da cultura em tempos de crise. Enquanto o mundo observa os desdobramentos do conflito, o Metropolis Cinema continua a ser um farol de resistência, provando que a arte pode oferecer um espaço de humanidade mesmo quando o ambiente ao redor é dominado pela incerteza e pelo medo.
Fonte: Variety