O fim de uma série de TV tem um impacto diferente de um filme. A imersão em personagens e tramas por meses ou anos cria uma conexão que torna os desfechos ainda mais significativos. A era do streaming e o investimento em narrativas longas e complexas proporcionaram à televisão da virada do milênio finais memoráveis.






Esta lista foca em séries que estrearam a partir de 2000, excluindo clássicos dos anos 90 como The Sopranos, Friends e The West Wing, cujos finais merecem discussão à parte. A seleção de apenas 11 títulos é um desafio, dada a riqueza de grandes conclusões televisivas neste século.
‘Friday Night Lights’ (2006 – 2011)
Apesar de sua premissa de drama adolescente e esporte universitário, Friday Night Lights transcendeu o gênero. Ao longo de cinco temporadas, a série explorou triunfos, decepções, a vida comunitária e as pressões sobre jovens com sonhos adultos, usando o futebol americano como pano de fundo.
O episódio final, “Always”, entrelaça a jornada do técnico Eric Taylor e sua esposa Tami. Enquanto os Lions de East Dillon disputam um campeonato, o casamento do casal enfrenta um dilema com uma oferta de Tami na Filadélfia. A química entre Kyle Chandler e Connie Britton confere calor e realismo à relação. A série, que lutou por audiência em sua primeira temporada, consolidou uma reputação imensa, e seu lema “Olhos claros, corações cheios, não podemos perder” tornou-se icônico.
‘The Americans’ (2013 – 2018)
The Americans subverteu as expectativas de um thriller de espionagem ao entregar um estudo profundo sobre casamento, identidade e ideologia. A trama acompanha dois espiões do KGB vivendo disfarçados como um casal em Washington D.C. durante os anos 80.
O episódio final, “START”, resolve a tensão acumulada em uma cena de estacionamento onde Philip e Elizabeth confrontam seu vizinho do FBI, Stan, que descobriu a verdade. A atuação de Matthew Rhys e Keri Russell eleva o drama. A fuga para a União Soviética, com a identidade exposta, contrasta com a decisão da filha Paige de permanecer nos EUA. O final, sem uma resolução clara, reflete o custo emocional da vida que levaram.
‘The Leftovers’ (2014 – 2017)
Partindo de um mistério central – o desaparecimento inexplicável de 2% da população mundial –, The Leftovers, sob a batuta de Damon Lindelof, evitou cair em clichês de mitologia. Em três temporadas, a série construiu uma narrativa cada vez mais emocionante, culminando em “The book of Nora”.
O episódio oferece uma resposta sobre o destino dos desaparecidos, mas deixa espaço para interpretação. A cena final, com Nora (Carrie Coon) e Kevin (Justin Theroux) reunidos como idosos em uma casa na Austrália, é um exemplo de contenção e emoção. Apesar de subestimada e sem prêmios Emmy, a série presenteou seus espectadores com um final tocante.
‘Schitt’s Creek’ (2015 – 2020)
Schitt’s Creek prova que um final feliz é possível. Ao longo de seis temporadas, a série transformou uma família rica e superficial nos melhores amigos que se poderia ter. Os Rose chegam à cidade de Schitt’s Creek sem habilidades de sobrevivência e com grande desprezo por tudo e todos.
O desfecho mostra David se casando com Patrick, Alexis partindo para Nova York em busca de sua carreira, e Johnny e Moira retornando a Los Angeles para o renascimento da carreira de Moira. A série mantém seu tom caloroso e engraçado, celebrando a representatividade queer com o casamento de David sem conflitos. Catherine O’Hara, como Moira Rose, é uma figura inesquecível.
‘The Wire’ (2002 – 2008)
David Simon concebeu The Wire não como uma série sobre crime, mas sobre a cidade de Baltimore e suas instituições falhas. As cinco temporadas exploraram o tráfico de drogas, o porto, o governo, as escolas e a imprensa, revelando as engrenagens de um sistema quebrado.
O episódio final, “-30-”, funciona como uma tese para a série, mostrando a continuidade do ciclo com novos personagens assumindo papéis estruturais. McNulty observa um homem em situação de rua forjar uma história, Marlo Stansfield retorna às ruas após sair da prisão, e uma montagem final conecta os personagens que acompanhamos com a próxima geração. A série expõe a vigilância e o ciclo vicioso da cidade.
‘Cobra Kai’ (2021 – 2025)
Cobra Kai, uma continuação de The Karate Kid, surpreendeu ao se tornar uma série envolvente com desenvolvimento de personagens e dramas emocionais genuínos. A trama acompanha Johnny Lawrence na meia-idade, que busca reconstruir sua vida através do karatê.
A temporada final encerra o conflito entre Johnny, Daniel e seus rivais, com o torneio All Valley como palco para as questões pendentes. A série equilibra o melodrama com a autoconsciência, oferecendo um final satisfatório para os arcos de Johnny e Daniel. Embora não seja TV de ponta, é um exemplo de entretenimento de gênero bem executado.
‘Twin Peaks: The Return’ (2017)
Twin Peaks: The Return, de David Lynch e Mark Frost, distanciou-se de uma continuação tradicional, apresentando-se como um filme de 18 horas em formato episódico. O final gerou reações diversas, de admiração a confusão.
Cooper, liberto do Black Lodge, viaja no tempo para tentar salvar Laura Palmer, mas ela desaparece. A cena corta para uma linha do tempo alternativa onde Cooper encontra Carrie Page, que não se lembra de ser Laura. A chegada deles à casa Palmer, agora habitada por estranhos, cria uma atmosfera aterrorizante e melancólica, ignorando expectativas do público. A interpretação do final ficou a cargo dos espectadores, com Lynch optando por não oferecer explicações.
‘Six Feet Under’ (2001 – 2005)
Six Feet Under abordou a mortalidade de forma única em seu final. Ao longo de cinco temporadas, a família Fisher, dona de uma funerária, lidou com o luto, e o criador Alan Ball evitou que o público se acomodasse.
O episódio final, “Everyone’s Waiting”, encerra a história dos Fisher com graça e dor. Claire parte para Nova York em busca de sua carreira fotográfica. O que se segue é um time-lapse emocionante de mortes de personagens principais ao longo de décadas, culminando na ausência de toda a família. Essa sequência, considerada uma das mais assustadoras da televisão, é justificada pela profunda conexão emocional construída com os personagens.
‘Mad Men’
O final de Mad Men gerou debates intensos desde sua exibição. No último episódio, Don Draper, após uma crise pessoal em um retiro na Califórnia, parece encontrar uma epifania durante a meditação, culminando no icônico comercial da Coca-Cola “Hilltop” de 1971.
Matthew Weiner desafia o espectador a decidir se Don retornou ao trabalho ou se encontrou paz genuína. O final também oferece desfechos para Joan, Peggy, Pete e Roger. A série, que explorou performance, identidade e o mito americano da reinvenção, honra seu tema ao manter Don Draper como um mistério.
‘Succession’ (2018 – 2023)
Após a falsa morte de Logan Roy na terceira temporada, a quarta temporada trouxe o evento real, redefinindo o foco de Succession. A série sempre explorou o impacto de crescer no poder sem exercê-lo.
O último episódio, “With Open Eyes”, apresenta a votação de Siobhan, Kendall e Roman sobre a sucessão de Kendall como CEO da Waystar Royco, em meio a uma fusão com a GoJo. A tensão na sala de conferências e nas discussões individuais dos irmãos é palpável. Jesse Armstrong construiu empatia por personagens complexos e terminou a série sem que nenhum deles alcançasse a vitória, mantendo a crueldade e a agudeza que definiram a trama.
Fonte: Movieweb