Maury Povich recria programa clássico em campanha publicitária

O apresentador retorna ao icônico cenário de testes de paternidade para estrelar uma peça publicitária focada em inteligência artificial.
BEVERLY HILLS, CALIFORNIA - JUNE 02: Honoree Maury Povich speaks onstage during the 18th Annual Brandon Tartikoff Legacy Awards at Beverly Wilshire, A Four Seasons Hotel on June 02, 2022 in Beverly Hills, California. (Photo by David Livingston/Getty Images)

Maury Povich, um dos nomes mais reconhecidos da televisão diurna norte-americana, tem demonstrado uma inclinação recente por revisitar sua trajetória icônica com um toque de metalinguagem. Após participar de um podcast com Ricki Lake para discutir seus dias de glória nos anos 1990 e fazer uma aparição surpresa no reality show The Real Housewives of Atlanta — onde utilizou um detector de mentiras para mediar uma disputa entre Pinky e Phaedra —, o apresentador decidiu elevar esse nível de reflexividade a um novo patamar. Povich é a estrela de uma campanha publicitária de 15 minutos, dividida em três segmentos, para a empresa de inteligência artificial Air.

A produção, realizada no mês passado em um estúdio em Midtown, Manhattan, contou com a reconstrução meticulosa do cenário de seu programa de longa data, Maury. Para esta peça publicitária, o set foi renomeado como On Air With Maury, marcando um retorno simbólico do apresentador após quatro anos de ausência das telas. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Povich comentou sobre a experiência de voltar ao ambiente que definiu sua carreira: “Eu não abria um envelope há quatro anos. Então, foi bom”, afirmou, referindo-se ao gesto que se tornou sua marca registrada durante as revelações de testes de paternidade.

A campanha utiliza a temática da inteligência artificial de forma central em todos os seus segmentos. No primeiro deles, a narrativa foca em dois sócios de uma empresa de trampolins — uma premissa propositalmente absurda — onde um acusa o outro de ter dormido com sua namorada e a engravidado. O desenrolar da trama revela que a namorada é, na verdade, um avatar sintético. O amigo falha no teste de polígrafo, confirmando o envolvimento com a entidade digital, mas o teste de paternidade indica que ele não é o pai do feto, mantendo o tom caótico e dramático que Povich ajudou a popularizar. O apresentador descreveu a experiência de atuar contra um avatar como algo “íntimo”, destacando a ironia de alguém que construiu sua fama sobre dramas humanos reais agora contracenando com uma criação artificial.

O objetivo da empresa Air com este investimento é demonstrar como a inteligência artificial pode otimizar e baratear os processos de pré-produção, mesmo em filmagens que seguem moldes tradicionais. A eficiência foi notável: a peça publicitária passou do desenvolvimento à conclusão em apenas algumas semanas. A escolha de Povich como rosto da campanha não foi aleatória. Apesar de ter nascido na década de 1930, o apresentador mantém uma relevância digital impressionante, com a página oficial de seu programa no Facebook ainda acumulando mais de 6,5 milhões de seguidores.

A decisão de Povich em participar do projeto foi impulsionada por uma conexão pessoal e profissional. O cofundador da Air, Tyler Strand, é filho de um executivo de marketing que trabalhou no The Montel Williams Show, programa com o qual Povich teve contato no passado. Além da nostalgia, o apresentador foi atraído pela proposta de colaboração entre a criatividade humana e a tecnologia. “Se fosse apenas uma empresa de IA clássica, acho que não teria me envolvido”, explicou Povich. “Mas o fato de combinar IA com criatividade humana foi o que me atraiu.”

Apesar de sua disposição em explorar novas tecnologias, Povich mantém uma postura crítica e cautelosa. Durante a entrevista, ele abordou o uso de deepfakes, citando um caso recente em que foi utilizado sem autorização em um vídeo falso simulando um teste de paternidade com o treinador Mike Vrabel e a jornalista Dianna Russini. O vídeo foi tão convincente que causou mal-entendidos reais, levando até mesmo a irmã do apresentador a sugerir que ele emitisse um pedido de desculpas público. Povich, no entanto, foi enfático: “Era IA! As pessoas deveriam saber disso”.

Essa experiência reforçou suas preocupações sobre o futuro da indústria. Povich declarou que se sentiria profundamente incomodado ao descobrir que um roteiro vencedor de um Oscar ou Emmy foi gerado por inteligência artificial. Ele também deixou claro que não deseja que sua imagem seja utilizada para recriar seu programa, seja agora ou após sua morte. Embora o formato de talk show tradicional esteja em declínio, Povich observa o cenário com um misto de humor e ceticismo, sugerindo que, talvez, uma reunião de grandes nomes como Donahue, Springer e Morton Downey Jr. em 2026 pudesse atrair audiência, mesmo que mediada por tecnologias que ele ainda observa com ressalvas.

Fonte: THR