Matlock e It: Welcome to Derry exploram dramas complexos

Elencos e produtores de grandes produções da TV debatem a construção de narrativas, a responsabilidade dos personagens e o impacto de temas atuais.

A televisão contemporânea atravessa um momento de diversificação sem precedentes, onde dramas de variados formatos e gêneros buscam não apenas entreter, mas também provocar reflexões profundas sobre a moralidade e a condição humana. Esse cenário foi amplamente discutido durante o Variety FYC TV Fest, realizado em 6 de maio de 2026, um evento que serviu como palco para que equipes criativas de produções de peso — especificamente It: Welcome to Derry (WBTV/HBO), The Audacity (AMC) e Matlock (CBS) — pudessem dissecar os desafios de suas narrativas. Embora as séries operem em universos distintos, todas compartilham um ponto de convergência: a exploração do mal, seja ele manifestado através de entidades sobrenaturais, da ganância corporativa ou de segredos jurídicos devastadores.

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Matlock: O peso das escolhas e a busca por redenção

No centro das discussões sobre Matlock, os atores Jason Ritter e Skye P. Marshall ofereceram uma visão íntima sobre a dinâmica de seus personagens. Na trama, eles interpretam ex-parceiros que, além de compartilharem a responsabilidade da co-parentalidade, precisam navegar pelas águas turbulentas de uma relação profissional dentro de um escritório de advocacia. O ponto de virada da segunda temporada, onde o personagem de Ritter, Julian, confessa seu envolvimento em um esquema de encobrimento massivo, tornou-se o foco central do debate sobre a trajetória da série.

Para Skye P. Marshall, a revelação foi um momento catártico, embora tenha trazido à tona frustrações pessoais com a falta de consequências que frequentemente permeia a ficção televisiva. “Eu estava tentando encontrar uma maneira de garantir que houvesse algum tipo de prestação de contas para Julian, mas sem que isso significasse que ele passaria seis temporadas na prisão”, explicou a atriz. Ela enfatizou que o público está exausto de ver figuras poderosas escapando impunes de seus erros. “Eu estou exausta. Se ele pudesse, pelo menos, cumprir alguns meses de detenção logo no início da terceira temporada, seria um passo importante para a justiça narrativa”, completou.

Jason Ritter, por sua vez, vê a queda de Julian não como um fim, mas como uma oportunidade de transformação radical. O ator argumenta que, embora a carreira de Julian possa estar em ruínas, a confissão oferece uma forma de libertação. “Talvez sua vida profissional esteja chegando ao fim, mas, de certa forma, ele finalmente está livre de todo esse peso”, refletiu Ritter. Ele destacou que a relação de Julian com seu pai sempre foi pautada por uma busca incessante por validação, uma dinâmica elusiva que o mantinha preso a um ciclo de decisões questionáveis. “Às vezes, quando o seu maior e pior segredo é finalmente exposto, você ganha a chance de começar uma vida nova, mais humilde e autêntica”, concluiu o ator, sugerindo que a terceira temporada explorará as consequências dessa vulnerabilidade recém-descoberta.

It: Welcome to Derry e a fidelidade ao legado de Stephen King

A transição para o terror sobrenatural ocorreu com a presença dos produtores executivos Andy Muschietti e Barbara Muschietti, responsáveis pela expansão do universo de It. O casal, que também liderou a produção dos filmes da franquia, revelou que o retorno à cidade de Derry foi motivado por uma conexão profunda e duradoura com o material original de Stephen King. “Nós lemos o livro quando tínhamos 14 e 15 anos”, recordou Barbara. “Já tínhamos lido outras obras de King, mas aquela história em particular deixou uma marca indelével em nós. Ainda hoje, sentimos que somos constantemente puxados de volta para aquele livro e para a mente do autor.”

Para Andy Muschietti, que assumiu a direção tanto dos filmes quanto da nova série, o livro funciona como uma espécie de “bíblia” narrativa. Ele argumenta que, apesar do sucesso das adaptações cinematográficas, a complexidade da obra literária ainda oferece camadas inexploradas. “Os filmes não fazem justiça total à riqueza que o livro possui”, afirmou o diretor. Ele destacou especificamente os capítulos conhecidos como “interlúdios”, que detalham as investigações de Mike Hanlon, um dos membros do grupo conhecido como ‘Losers’. Segundo Andy, Hanlon é a figura central que permanece na cidade, tentando decifrar a natureza do mal que assombra Derry, um fio condutor que a série pretende explorar com maior profundidade.

Um dos pontos mais aguardados pelos fãs e confirmado pela produção é o retorno de Bill Skarsgård ao papel do aterrorizante palhaço Pennywise. Segundo Barbara Muschietti, a escalação de Skarsgård sempre foi o objetivo primordial da equipe. “Muitas vezes não temos consciência da sorte que tivemos ao reunir aquele grupo original”, disse ela. “Conseguimos trazer basicamente as mesmas pessoas que fizeram os filmes conosco. O fato de Bill ser o ‘Deus’ daquela encarnação do personagem, aliado à nossa paixão evidente pelo projeto, permitiu que convencêssemos o elenco e a equipe a embarcar nessa jornada de longo prazo.” A série promete, portanto, não apenas revisitar o terror, mas expandir o folclore de Derry sob uma lente mais detalhista e fiel à visão original de King.

The Audacity: O horror corporativo e a política da tecnologia

Por fim, o painel abordou The Audacity, uma série que se afasta do sobrenatural para focar em um tipo de horror muito mais tangível e contemporâneo: a influência desmedida dos líderes do setor de tecnologia. O showrunner Jonathan Glatzer, acompanhado pelos atores Billy Magnussen e Simon Helberg, discutiu como a série utiliza a ficção para espelhar a realidade política e social atual. O drama se concentra na ambição desenfreada desses magnatas, cujas decisões afetam milhões de pessoas, levantando questões cruciais sobre a responsabilidade ética dos gigantes da tecnologia.

“Todos possuem uma opinião muito forte sobre os indivíduos que ocupam o topo da pirâmide”, observou Glatzer durante o debate. A série explora como esses personagens, movidos por um desejo insaciável de poder, acabam por moldar a sociedade à sua própria imagem, muitas vezes ignorando as consequências humanas de suas inovações. O elenco destacou que o desafio de interpretar esses papéis reside em encontrar a humanidade por trás da fachada de frieza corporativa, um exercício que exige uma análise cuidadosa sobre a moralidade em um mundo onde a tecnologia e a política estão cada vez mais entrelaçadas. A série se posiciona, assim, como uma crítica mordaz à era da informação, onde a ‘audácia’ de poucos pode definir o destino de muitos.

O evento, ao reunir essas três produções, reforçou a tendência de que o público televisivo atual demanda narrativas que não apenas ofereçam entretenimento, mas que também confrontem temas de accountability, legado literário e a ética do poder. Seja através da redenção de um advogado em Matlock, da exploração do terror psicológico em It: Welcome to Derry ou da análise crítica sobre a tecnologia em The Audacity, a televisão continua a ser o principal campo de batalha para a exploração das complexidades humanas. A diversidade de temas apresentada no Variety FYC TV Fest demonstra que, independentemente do gênero, o sucesso de uma série reside na capacidade de seus criadores em conectar dilemas universais com a realidade urgente do espectador moderno, garantindo que as discussões sobre o futuro da dramaturgia televisiva permaneçam vibrantes e essenciais para a cultura popular.

Fonte: Variety