Martin Scorsese adota inteligência artificial para storyboards

O lendário diretor Martin Scorsese se une à Black Forest Labs para integrar inteligência artificial no planejamento visual de seus próximos filmes.
Martin Scorsese at the "Die My Love" New York Premiere held at AMC Lincoln Square on November 01, 2025 in New York, New York. (Photo by Kristina Bumphrey/Variety via Getty Images)

O lendário cineasta Martin Scorsese oficializou uma parceria estratégica com a empresa de tecnologia Black Forest Labs, assumindo o papel de consultor para o laboratório de pesquisa. O anúncio, realizado nesta terça-feira, marca um movimento significativo na indústria cinematográfica, com o diretor revelando que está utilizando a tecnologia FLUX da companhia para auxiliar na criação de storyboards de suas futuras produções. A decisão coloca um dos nomes mais respeitados do cinema mundial no centro do debate sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial em processos criativos.

martin scorsese in mr scorsese

Em declaração oficial, Martin Scorsese destacou que a dificuldade de comunicar visões abstratas para a equipe técnica é um desafio que enfrenta há décadas. “Por 70 anos, criei meus próprios storyboards. Sempre existiu o problema de como comunicar o que você vê na sua cabeça para o elenco e a equipe. Existem coisas que você precisa ver e sentir. Estou interessado na interseção entre tecnologia e narrativa, e em ver como isso pode expandir os limites da criatividade para criar experiências mais profundas e ricas para o público”, afirmou o diretor. Ele reforçou que o cinema é um meio jovem, com cerca de 125 anos, e que a abertura para a evolução tecnológica é necessária.

Martin Scorsese oficialmente adota inteligência artificial
Martin Scorsese em seu escritório, onde tem testado novas ferramentas de inteligência artificial para o planejamento visual de cenas.

Eficiência no planejamento de produção

O diretor de Hugo e O Irlandês explicou que a ferramenta permite uma comunicação mais clara e eficiente com profissionais essenciais, como o designer de produção, o diretor de arte e o diretor de fotografia. Segundo Scorsese, a capacidade de visualizar e compartilhar imediatamente o storyboard durante a pré-produção é “criativamente libertadora”. Ele ressaltou que, no processo de pré-produção, o tempo é um recurso valioso, e a tecnologia permite avançar com maior agilidade sem comprometer a qualidade ou o artesanato cinematográfico.

Para ilustrar a utilidade da ferramenta, o cineasta mencionou que poderia ter planejado os detalhes da icônica sequência de entrada no Copacabana, em Goodfellas, de forma muito mais rápida com o auxílio da tecnologia da Black Forest Labs. O uso de inteligência artificial para gerar mensagens visuais foi classificado pelo diretor como uma forma de “inteligência cinematográfica”. Ele já havia demonstrado abertura a inovações técnicas anteriormente, como o uso de 3D em Hugo e a tecnologia de rejuvenescimento digital em O Irlandês.

Recepção crítica e polêmica na indústria

A adesão de Martin Scorsese à inteligência artificial gerou reações imediatas e polarizadas entre artistas e profissionais do setor. A ilustradora e artista de conceito Karla Ortiz criticou duramente a postura do diretor através das redes sociais. “Ele joga todos os artistas de storyboard com quem já trabalhou sob o ônibus, enquanto destrói seus meios de subsistência com modelos que provavelmente são treinados no trabalho desses mesmos artistas”, escreveu Ortiz. O diretor e animador Sam Deats também expressou descontentamento, argumentando que o processo de storyboard leva poucos segundos para ser realizado manualmente e que não haveria necessidade de recorrer a modelos baseados em obras supostamente apropriadas de milhões de artistas.

O debate sobre a ética e o impacto da inteligência artificial em Hollywood tem sido um ponto de tensão constante, especialmente após as greves recentes que paralisaram a indústria. Enquanto nomes como Ben Affleck, que vendeu uma empresa de tecnologia para a Netflix, e Steven Soderbergh, que confirmou o uso de IA em novos projetos, seguem caminhos similares, outros cineastas mantêm uma postura de resistência. Guillermo del Toro, por exemplo, declarou recentemente ao ser questionado sobre a infiltração da IA em espaços criativos que “não acredita que alguém queira isso”, chegando a comparar a ideia de gerar conteúdo do zero via IA a um desrespeito profundo.

Debate sobre inteligência artificial em Hollywood
A integração de tecnologias generativas em Hollywood continua sendo um tema de intenso debate entre sindicatos e criadores.

Contexto histórico e transições no cinema

A trajetória de Martin Scorsese como historiador do cinema oferece uma perspectiva sobre como a indústria lida com mudanças tecnológicas. O diretor entende que o cinema passou por diversas transições ao longo de sua existência e que o momento atual é apenas mais um período de adaptação. Embora tenha sido um crítico ferrenho de produções de super-heróis e do que considera a degradação da experiência cinematográfica, sua aceitação de ferramentas específicas de IA sugere uma distinção clara entre o uso da tecnologia como auxílio de planejamento e a substituição do processo criativo humano.

A discussão sobre o futuro da narrativa visual é complexa e envolve questões sobre direitos autorais, valorização do trabalho humano e a preservação da autoria. Enquanto a indústria busca definir limites claros, a decisão de um dos maiores nomes da história do cinema em adotar essas ferramentas certamente influenciará o mercado. A Black Forest Labs, fundada em 2022, especializou-se em geração de imagens e agora ganha um aliado de peso para validar sua tecnologia dentro de um fluxo de trabalho profissional de alto nível. O impacto dessa parceria será observado de perto, tanto pela comunidade artística quanto pelos estúdios que buscam otimizar custos e prazos de produção.

Apesar das críticas, Scorsese mantém sua posição de que a experimentação é vital para a sobrevivência da arte. O diretor, que já havia comentado em entrevistas passadas sobre as transformações profundas no modelo de negócios do entretenimento, parece ver na tecnologia uma forma de manter a viabilidade de projetos complexos. A questão que permanece para a indústria é se a eficiência prometida pela inteligência artificial compensará os riscos percebidos à integridade do trabalho criativo e à subsistência dos profissionais que historicamente moldaram a linguagem visual do cinema.

A postura de Martin Scorsese reflete uma tendência crescente de cineastas que buscam integrar novas ferramentas para resolver problemas práticos de produção, mesmo diante de uma resistência cultural significativa. A evolução do debate sobre a inteligência artificial em Hollywood está longe de um consenso, mas a participação ativa de figuras de prestígio como Scorsese acelera a normalização de tais tecnologias em ambientes de pré-produção. O resultado prático dessa colaboração com a Black Forest Labs será testado em seus próximos projetos, servindo como um termômetro para a aceitação definitiva da IA como uma ferramenta legítima de auxílio à visão do diretor.

Fontes: THR Movieweb