A franquia global Married at First Sight, um dos pilares do entretenimento televisivo no Reino Unido, encontra-se em meio a uma crise sem precedentes. A emissora Channel 4, responsável pela produção local do programa, tomou a decisão drástica de remover todos os episódios de suas plataformas de streaming e serviços lineares, além de desativar as contas oficiais da produção nas redes sociais, após a revelação de denúncias de abuso sexual envolvendo ex-participantes.

A investigação da BBC Panorama
O escândalo veio à tona após uma investigação aprofundada realizada pelo programa Panorama, da BBC. A reportagem trouxe a público relatos perturbadores de mulheres que participaram do formato — conhecido por unir estranhos em casamentos simulados, organizados por especialistas. Segundo os depoimentos, pelo menos três ex-participantes alegaram ter sido vítimas de violência sexual durante o período de filmagens.
Os detalhes dos relatos são graves: uma das participantes afirmou ter sido estuprada pelo seu marido no programa e, posteriormente, ter sofrido ameaças de um ataque com ácido. Uma segunda mulher relatou à emissora e à produtora CPL, antes mesmo da exibição dos episódios, que teria sido vítima de estupro por parte de seu parceiro. Apesar do alerta, a produção manteve a exibição do material. Uma terceira participante, Shona Manderson, a única a optar por revelar sua identidade, acusou seu marido na tela de ter praticado um ato sexual não consensual. Em resposta, os homens citados nas denúncias negaram categoricamente as acusações, contestando os fatos apresentados pelas mulheres.
Falhas na proteção e responsabilidade da emissora
As ex-participantes que decidiram expor os casos argumentam que o Channel 4 falhou em seu dever de proteger os envolvidos. Embora a emissora tenha declarado anteriormente ao Panorama que as alegações eram “totalmente não corroboradas e contestadas”, a pressão pública forçou uma mudança de postura. A repercussão negativa foi imediata, levando a empresa de turismo Tui a anunciar a suspensão do patrocínio ao programa, um golpe significativo para uma das produções mais valiosas da televisão britânica, que frequentemente alcança audiências superiores a três milhões de espectadores.
O Married at First Sight, que possui versões localizadas em mais de 35 países, é um fenômeno de popularidade comparável ao Love Island. No Reino Unido, o programa já contava com dez temporadas exibidas, e a edição mais recente, já gravada, tinha previsão de estreia para este ano.
Protocolos de bem-estar sob análise
Em resposta à crise, o Channel 4 defendeu a integridade de seus processos. Em um comunicado oficial, a emissora afirmou que o MAFS UK é produzido sob “alguns dos protocolos de bem-estar mais abrangentes e robustos da indústria”. Segundo a rede, o processo inclui verificações de antecedentes rigorosas, um código de conduta claro, check-ins diários com uma equipe especializada e suporte psicológico disponível antes, durante e após as filmagens. A emissora reiterou que a saúde física e mental dos participantes é de “importância primordial” e que os processos de cuidado são revisados e fortalecidos regularmente.
A emissora também confirmou que, no mês passado, foi informada sobre “sérias alegações de má conduta contra um pequeno número de ex-participantes”. O canal sustenta que, sempre que preocupações foram levantadas através dos protocolos existentes, “ações imediatas e apropriadas foram tomadas com base nas informações disponíveis na época”, refutando qualquer alegação de negligência.
Revisão independente e o futuro da franquia
Para lidar com a crise, a diretora executiva do Channel 4, Priya Dogra, anunciou a contratação do escritório de advocacia Clyde & Co para conduzir uma revisão externa independente. Esta auditoria, iniciada em abril, possui dois objetivos principais: examinar os protocolos de bem-estar que estavam em vigor no momento em que as denúncias foram feitas e avaliar se mudanças são necessárias para reforçar a segurança dos participantes em futuras produções.
Em sua declaração, Dogra expressou solidariedade aos participantes que se sentiram angustiados após a experiência no programa, embora tenha ressaltado que seria “totalmente inapropriado” comentar especificamente sobre as alegações criminais contra os ex-participantes. Enquanto a investigação segue em curso, o futuro da franquia no Reino Unido permanece incerto, deixando a indústria televisiva em alerta sobre os limites da responsabilidade das emissoras em reality shows de alta intensidade.
Fonte: THR