Kristen Stewart critica sistema de estúdios em Cannes

Atriz comenta sua participação no filme Full Phil, a parceria com Woody Harrelson e sua insatisfação com as práticas atuais da indústria cinematográfica.

Kristen Stewart, uma das figuras mais proeminentes do cinema contemporâneo, demonstrou um entusiasmo contagiante ao discutir seu mais recente projeto, o filme Full Phil, dirigido pelo aclamado e peculiar cineasta francês Quentin Dupieux. A atriz, que já acumulou uma indicação ao Oscar e possui uma carreira consolidada como diretora, revelou que sua decisão de integrar o elenco foi tomada antes mesmo de ter acesso ao roteiro completo da obra. Essa escolha, segundo ela, foi motivada por uma admiração de longa data pelo estilo surrealista, pela estética inconfundível e pelo método de produção ágil e independente que caracteriza a filmografia de Dupieux.

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Em uma entrevista exclusiva concedida durante o Festival de Cannes, onde o filme teve sua estreia na prestigiada seção Midnight Screenings, Stewart detalhou sua visão sobre o cineasta. Ela o descreveu não apenas como um diretor, mas como um verdadeiro mestre que mantém uma conexão visceral com a câmera e com cada membro do elenco durante as filmagens. Para a atriz, a capacidade de Dupieux de visualizar a edição final ainda durante o dia de gravação é um diferencial que eleva o processo criativo a um patamar de maestria técnica e artística.

A essência de Full Phil

O filme, que possui uma duração concisa de uma hora e vinte minutos, narra a jornada de uma dupla de pai e filha, interpretados por Kristen Stewart e Woody Harrelson, que viajam até Paris na tentativa de reconstruir seus laços familiares. No entanto, a narrativa rapidamente se desvia para um terreno de caos e absurdo. Os planos de reconciliação são constantemente interrompidos por uma série de obstáculos inusitados, que incluem protestos nas ruas, a interferência de um funcionário de hotel excessivamente curioso, uma obsessão bizarra por um filme de terror da década de 1950 e um fluxo interminável de gastronomia francesa. Stewart descreve o estilo de Dupieux como um conjunto de “soco no estômago”, porém, ressalta que são golpes doces e envolventes, capazes de prender a atenção do espectador através de uma sucessão frenética de eventos.

A parceria com Woody Harrelson

Um dos pontos altos da produção, segundo Stewart, foi a oportunidade de finalmente colaborar com Woody Harrelson. A atriz expressou uma admiração profunda pelo veterano, descrevendo-o como um profissional exemplar e uma pessoa extremamente gentil. A química entre os dois, essencial para a verossimilhança da relação pai e filha, fluiu de maneira natural, permitindo que a dupla explorasse as nuances de personagens que, apesar de suas falhas e comportamentos questionáveis, buscam desesperadamente uma conexão humana em meio à confusão parisiense. Stewart destacou que a experiência de filmar ao lado de Harrelson foi um dos momentos mais gratificantes de sua carreira recente.

Críticas contundentes ao sistema de estúdios

A entrevista tomou um rumo mais sério quando o assunto se voltou para a estrutura atual da indústria cinematográfica norte-americana. Kristen Stewart não poupou críticas ao sistema de estúdios, expressando um cansaço evidente em relação às práticas corporativas que, em sua visão, priorizam o lucro desenfreado em detrimento da expressão artística genuína. A atriz foi enfática ao declarar que existe uma necessidade urgente de mudança na forma como o cinema é financiado e produzido.

“Há uma necessidade premente de que paremos de fazer com que bilionários se tornem ainda mais bilionários”, afirmou Stewart, criticando a concentração de riqueza e poder que dita as regras do mercado atual. Para a atriz, o sistema de estúdios impõe barreiras burocráticas que sufocam a criatividade e impedem a realização de obras mais radicais, autênticas e vitais. Ela defende que o cinema deve ser um espaço de conexão real entre as pessoas, e não apenas um produto de consumo massificado desenhado para maximizar retornos financeiros para grandes conglomerados.

Stewart sugeriu que, diante das dificuldades impostas por esse modelo, os artistas precisam buscar alternativas independentes. Ela mencionou que planeja explorar novas formas de distribuição, possivelmente utilizando plataformas digitais para lançar seus futuros trabalhos como diretora, buscando assim contornar a dependência excessiva dos grandes estúdios que, segundo ela, não possuem interesse em projetos que desafiem o status quo.

Novos horizontes: Flesh of the Gods

Além de sua participação em Full Phil, Stewart compartilhou detalhes sobre seu envolvimento no thriller de vampiros Flesh of the Gods, dirigido por Panos Cosmatos e coestrelado pelo ator brasileiro Wagner Moura. A atriz descreveu o início das filmagens, que ocorrem nas Ilhas Canárias, como uma experiência intensa e imersiva. Ela afirmou que a equipe está totalmente dedicada ao projeto, descrevendo a visão de Cosmatos como um “sonho psicodélico” no qual todos estão profundamente envolvidos. Esse projeto reforça o compromisso de Stewart em continuar escolhendo papéis que a desafiem criativamente e que se alinhem com sua visão artística, mantendo o foco em histórias que realmente lhe interessam, independentemente das pressões do mercado comercial.

A postura de Kristen Stewart em Cannes reflete um movimento crescente entre artistas de alto calibre que buscam maior autonomia criativa. Ao se posicionar contra as práticas dos estúdios e ao abraçar projetos de diretores com visões singulares, como Dupieux e Cosmatos, a atriz reafirma sua posição como uma das vozes mais autênticas do cinema moderno, disposta a enfrentar as estruturas estabelecidas em prol de uma arte mais livre e significativa.

Fonte: Variety