Koji Fukada explora a solidão e a arte em Nagi Notes no Festival de Cannes

O cineasta japonês Koji Fukada discute a criação de seu novo longa, a ausência de vilões na narrativa e o contraste entre a vida urbana e a rural no Japão.

O cineasta japonês Koji Fukada, um nome que tem se consolidado como uma das vozes mais distintas do cinema contemporâneo, vive um momento de consagração internacional. Com o lançamento de seu mais recente longa-metragem, Nagi Notes, Fukada alcança um patamar de prestígio ao ser selecionado para a competição principal do Festival de Cannes. Esta inclusão não apenas destaca o seu amadurecimento artístico, mas também marca um marco histórico para o cinema de seu país: pela primeira vez em 25 anos, três cineastas japoneses — Fukada, Hirokazu Kore-eda com Sheep in the Box e Ryûsuke Hamaguchi com All of a Sudden — disputam simultaneamente a cobiçada Palma de Ouro.

Koji FUKADA 2026 Nagi Notes Partners Star Sands Hassaku Labs Wonderstruck Survivance Momo Film Co. copy
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Um reconhecimento precoce e o compromisso com o coletivo

A trajetória de Fukada é marcada por uma ascensão constante. Em 2022, aos 42 anos, ele foi agraciado com o prestigioso Prêmio Akira Kurosawa no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. Na ocasião, o cineasta demonstrou uma humildade característica ao sugerir que a honraria, destinada a trajetórias de vida consagradas, talvez tivesse chegado cedo demais, especialmente ao ser comparado a gigantes como Steven Spielberg, Yoji Yamada e Hou Hsiao-hsien. Compartilhando o palco com o vencedor de cinco Oscars, Alejandro González Iñárritu, Fukada tomou uma decisão que refletiu seu compromisso ético com a classe artística: doou o valor em dinheiro do prêmio para uma organização que ele mesmo ajudou a fundar, voltada a oferecer suporte jurídico e psicológico a trabalhadores freelancers do setor cinematográfico no Japão. Esse gesto reforçou sua promessa de continuar trabalhando arduamente para honrar a confiança depositada em seu talento.

A gênese de Nagi Notes: Da peça ao território

A origem de Nagi Notes é um exemplo fascinante de como o processo criativo pode ser fluido e orgânico. A colaboração com o dramaturgo Oriza Hirata, com quem Fukada já havia trabalhado em Sayonara (2015), foi o ponto de partida. Hirata entrou em contato com o diretor sugerindo uma adaptação de sua peça Tokyo Notes, que se passa inteiramente dentro de um museu de arte. O dramaturgo apontou a existência de um museu notável na cidade de Nagi, sugerindo que a adaptação fosse ambientada ali, em vez de Tóquio. Intrigado pela proposta, Fukada viajou cerca de seis horas de trem-bala até a localidade em 2017. Ao chegar, o cineasta percebeu que, embora o museu fosse uma instituição impressionante e um cenário visualmente rico, limitar a história àquelas paredes seria um desperdício do potencial narrativo da própria cidade.

O que começou como uma adaptação teatral transformou-se em uma exploração profunda do território. Fukada decidiu realizar uma residência artística de dez meses em Nagi, um período que foi fundamental para que ele pudesse construir a narrativa do zero, baseando-se na observação direta da vida local e em conversas com os moradores. Essa imersão permitiu que o filme capturasse a essência de uma comunidade que, embora rural, possui uma consciência cultural aguçada, em parte devido à presença do museu de design moderno que, há quase 30 anos, se destaca na paisagem local.

Conflitos humanos e a ausência de vilões

A narrativa de Nagi Notes foca em duas mulheres de meia-idade: Yuri, interpretada por Shizuka Ishibashi, e Yoriko, vivida por Takako Matsu. Yuri é uma arquiteta de uma grande firma em Tóquio que, ao se encontrar em um beco sem saída tanto em sua vida profissional quanto pessoal, decide visitar Yoriko, a ex-esposa de seu irmão, na cidade de Nagi. Yoriko, por sua vez, vive uma existência mais reclusa, dedicando-se à escultura de figuras humanas talhadas em blocos brutos de madeira. A interação entre as duas, somada ao contato com outros habitantes locais, desencadeia uma série de memórias e tensões que culminam em um acerto de contas inesperado.

Um dos aspectos mais notáveis da visão de Fukada é a sua recusa em criar antagonistas tradicionais. Inspirado por figuras como Hayao Miyazaki, o diretor defende que a presença de “vilões” não pertence ao seu universo cinematográfico. Para ele, o conflito não precisa ser gerado por uma força maligna externa, mas sim pela complexidade das relações humanas e pela solidão inerente à existência. O filme explora, inclusive, o contraste entre a vida urbana e a rural, destacando a presença de uma base das Forças de Autodefesa do Japão em Nagi, o que adiciona uma camada de estranhamento e reflexão sobre a relação entre a capital e as províncias remotas do país.

O impacto da residência e o futuro em Cannes

Durante sua estadia de dez meses, Fukada não apenas observou, mas absorveu as contradições de Nagi. A coexistência entre o museu de arte contemporânea e a base militar tornou-se um símbolo das tensões e da identidade da cidade. O cineasta utiliza essa dualidade para espelhar as vidas de suas protagonistas: a arquiteta, cuja profissão exige colaboração e planejamento urbano, e a escultora, que encontra na solidão da madeira a sua forma de expressão. Ao se preparar para sua primeira subida oficial aos degraus do Palais em Cannes como diretor em competição, Fukada reflete sobre o aprendizado que obteve ao ouvir as histórias escondidas dos moradores de Nagi. O filme, portanto, não é apenas uma obra de ficção, mas um registro afetivo de um lugar e de suas pessoas, consolidando Fukada como um observador atento das nuances da alma humana. Com Nagi Notes, o diretor reafirma sua posição como um dos cineastas mais sensíveis e necessários do cinema japonês atual, capaz de transformar o cotidiano em uma experiência cinematográfica profunda e universal.

Fonte: THR