A trajetória de Jordan Firstman no mundo do entretenimento sempre foi marcada por uma fé inabalável em sua visão criativa. Agora, essa convicção atinge seu ápice com Club Kid, seu longa-metragem de estreia como roteirista, diretor e protagonista. O filme, que faz parte da prestigiada mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, surge como um dos títulos mais aguardados para o mercado de vendas deste ano, consolidando a transição de Firstman de um fenômeno das redes sociais para um cineasta de peso no cenário independente.
A produção de Club Kid não foi isenta de desafios, especialmente no que diz respeito à sua identidade sonora. O filme abre com um flashback ambientado em 2016, onde um grupo de amigos se desloca em um Uber ao som de “Sex With Me”, hit do álbum Anti de Rihanna. Firstman, que na época não possuía os direitos autorais da faixa, recusou-se terminantemente a gravar cenas alternativas, apesar da pressão dos produtores. Ele mantinha a certeza de que, se a própria Rihanna visse o filme, ela se conectaria com a obra. A aposta, que beirava o risco de comprometer a abertura do longa, provou-se certeira: após o contato ser estabelecido — algo que Firstman atribui, com humor, a uma combinação de “Deus e meu assessor de imprensa” —, a estrela autorizou o uso da música, garantindo a atmosfera desejada.
Aos 34 anos, Firstman traz uma bagagem considerável para este projeto. Conhecido inicialmente por suas impressões virais no Instagram, ele também construiu uma carreira sólida como ator em produções como Rotting in the Sun, de Sebastián Silva, e a série I Love LA. No entanto, sua experiência vai além das câmeras; ele passou quase uma década em salas de roteiro de comédias consagradas, como Search Party e Big Mouth, além de ter circulado por festivais como Sundance e SXSW com seus curtas-metragens. A semente de Club Kid surgiu em 2023, durante o Festival de Sundance, quando Firstman começou a articular a ideia de uma dinâmica cômica envolvendo um adulto e uma criança. Naquele período, ele vivia um relacionamento com um morador de Berlim e estava profundamente imerso na cena festiva da cidade, o que acabou servindo como o alicerce narrativo para o roteiro.
A trama acompanha um promotor de festas que já ultrapassou seu auge e vê sua vida sofrer uma reviravolta drástica ao descobrir a existência de um filho de dez anos. Para Firstman, que se mudou para Los Angeles aos 20 anos e viu dois de seus projetos televisivos anteriores ficarem presos no “limbo” do desenvolvimento por anos, era fundamental evitar que Club Kid sofresse o mesmo destino no sistema tradicional de estúdios. A solução foi trilhar o caminho independente. Com o apoio de produtores como Alex Coco — que recentemente conquistou um Oscar pelo trabalho em Anora, de Sean Baker — e Galen Core, o projeto ganhou fôlego. O financiamento veio da Topic Studios, que buscava manter o ritmo após o sucesso de A Real Pain, de Jesse Eisenberg.
Ryan Heller, chefe de cinema da Topic, destaca que, embora Firstman seja tecnicamente um cineasta estreante em longas, ele demonstra uma maturidade que o diferencia de outros iniciantes. Essa experiência foi posta à prova durante os 26 dias de filmagem. O diretor impôs a si mesmo o desafio de filmar em película e em locações reais em Nova York, incluindo casas noturnas autênticas. Firstman ressalta que a equipe teve acesso a espaços exclusivos, muitas vezes inacessíveis ao público comum, graças às suas conexões pessoais na cena noturna. “O convite não foi tomado como garantido”, afirma o diretor, enfatizando o respeito pela cultura que ele pretendia retratar.
A autenticidade foi a palavra de ordem. Grande parte dos figurantes era composta por jovens da cena noturna real, o que Firstman descreve como um esforço para capturar a essência da cultura queer contemporânea. Ele chega a comparar o processo a um “filme em língua estrangeira”, observando como a equipe técnica, composta majoritariamente por homens heterossexuais, precisou aprender a “linguagem” e os códigos daquela subcultura para que o resultado final soasse genuíno.
Para o papel do filho, a diretora de elenco Lucy Bevan, que possui um vasto conhecimento de atores mirins britânicos devido ao seu trabalho na série de harry potter, foi fundamental. Ao encontrar Reggie Absolom, conhecido por atuar em Silo e The Other Bennet Sister, Firstman soube imediatamente que tinha encontrado o protagonista ideal, mesmo antes de analisar formalmente a fita de audição. A dedicação de Firstman em cada etapa — desde a insistência na trilha sonora até a escolha criteriosa do elenco e a recusa em ceder às pressões dos estúdios — reflete a essência de um cineasta que, acima de tudo, confia em seu instinto. Agora, com a estreia em Cannes, Club Kid se posiciona não apenas como um filme sobre a vida noturna, mas como o testemunho da persistência de um artista que finalmente conseguiu levar sua visão autêntica para o grande público.
Fonte: THR