A animação francesa Jim Queen está pronta para causar um impacto significativo no cenário cinematográfico internacional ao realizar sua estreia mundial no prestigiado Festival de Cannes. O filme, que integra a concorrida seleção de exibições da meia-noite (Midnight Screenings) entre domingo, 17 de maio, e segunda-feira, apresenta uma premissa audaciosa e irreverente: um vírus misterioso, batizado de Heterosis, irrompe na capital francesa com a capacidade peculiar de transformar homens gays em heterossexuais. Longe de ser um drama baseado em fatos reais ou uma narrativa extraída das manchetes de jornais, a obra se estabelece como uma comédia adulta animada que promete desafiar convenções e atrair olhares pela sua ousadia estética e temática.


O protagonista e a crise de identidade
No centro da trama está Jim Parfait — cujo sobrenome, ironicamente, significa “perfeito” em francês. Jim é um influenciador digital musculoso e uma figura central na comunidade conhecida como “Gym Queens” nas redes sociais. Sua vida, meticulosamente construída sobre a imagem e a popularidade digital, desmorona drasticamente quando ele contrai o vírus Heterosis. A consequência imediata e devastadora para o protagonista é a perda súbita de todos os seus seguidores online, com uma única exceção: Lucien, um jovem virgem que vive no armário. Esta dupla improvável embarca em uma jornada frenética pelas ruas de Paris, com foco especial no bairro de Marais, o coração pulsante da cena queer da cidade, em uma busca desesperada por uma cura que não apenas restaure a identidade de Jim, mas que também salve a própria comunidade LGBTQIA+ da ameaça de extinção.
A gênese do projeto e a visão criativa
O filme marca a estreia na direção de longas-metragens da dupla Nicolas Athané e Marco Nguyen. O roteiro, fruto de uma colaboração estreita com Simon Balteaux e Brice Chevillard, reflete experiências pessoais dos criadores. Nguyen, em declarações ao The Hollywood Reporter, destacou que a inspiração para Jim Queen nasceu de sua própria trajetória: “Eu sou gay e, quando cheguei a Paris aos 17 anos, descobri um mundo inteiramente novo. A cultura gay era extremamente rica e composta por diversas comunidades, incluindo a cena fetish, que serviram como grandes fontes de inspiração para o filme”.
A colaboração entre os membros da equipe foi fundamental para a construção da narrativa. Simon Balteaux, que também se identifica como parte da comunidade, descreve o projeto como uma “carta de amor” às comunidades LGBTQIA+ de Paris e às pessoas incríveis que nelas habitam. O processo de criação envolveu a observação atenta de amigos, ex-parceiros e figuras encontradas em festas parisienses. Balteaux, que se mudou do interior para Paris aos 20 anos, confessa que se reconhece profundamente no personagem Lucien, o jovem que ainda está descobrindo seu lugar no mundo.
Autenticidade e representação
Um dos pilares do desenvolvimento de Jim Queen foi a busca pela precisão na representação da diversidade queer. A equipe criativa fez questão de incluir membros da comunidade na leitura e revisão dos roteiros. “Trabalhamos com muitas pessoas e pedimos que lessem os scripts, pois queríamos realmente representar essas comunidades”, explica Athané. O alívio da equipe foi imenso ao perceber que os consultores não apenas aprovaram o conteúdo, mas se sentiram genuinamente representados pela obra. Além do foco geográfico em Paris e da celebração da cultura queer, o filme aborda temas universais que ressoam com o público global, como a busca pela identidade, o desejo de ser visto, a pressão da autoimagem e os desafios da fama nas redes sociais.
Produção e elenco
A produção é assinada por David Alric e Arthur Delabays, do renomado estúdio de animação francês Bobbypills, conhecido por projetos como Creature Commandos. A Global Constellation é a responsável pelas vendas internacionais do título. O elenco de vozes é um dos grandes destaques, reunindo talentos como Alex Ramirès e Jérémy Gillet nos papéis principais, além de participações notáveis como o ícone do cinema adulto François Sagat, o cantor Philippe Katerine e a performer drag La Briochée. Brice Chevillard, que trouxe sua experiência como animador em Meu Malvado Favorito 2, descreveu o processo de criação como um sopro de ar fresco. Após anos trabalhando em grandes produções de apelo massivo, Chevillard encontrou na escrita de Jim Queen a liberdade necessária para desenvolver personagens excêntricos e complexos, que fogem dos padrões convencionais de animações de grande estúdio.
Com sua estreia em Cannes, Jim Queen se posiciona não apenas como uma sátira cômica, mas como um marco cultural que utiliza a animação para explorar a complexidade da vida urbana e da identidade contemporânea, prometendo ser um dos títulos mais comentados da temporada.
Fonte: THR