A série Invincible, disponível no Prime Video, apresenta uma abordagem sobre o multiverso que, ironicamente, faz o vasto Marvel Cinematic Universe (MCU) parecer limitado. Embora a produção da Amazon seja tecnicamente um projeto menor em termos de escala industrial, sua exploração das realidades paralelas demonstra uma ambição narrativa que supera a franquia da Marvel. Enquanto o MCU frequentemente utiliza o multiverso como um artifício para participações especiais ou referências superficiais, a animação baseada nos quadrinhos de Robert Kirkman, o criador de The Walking Dead, constrói um cenário onde as escolhas morais e as consequências de cada versão de Mark Grayson possuem um peso narrativo real e perturbador.
O multiverso como ferramenta de desconstrução
A animação, como meio, oferece aos criadores uma liberdade superior, permitindo a realização de mundos imersivos que produções em live-action muitas vezes não conseguem alcançar. Exemplos como Castlevania e Love, Death and Robots provam que o formato animado permite tramas impossíveis de serem executadas com a mesma eficácia em séries como Black Mirror. Em Invincible, essa liberdade é usada para desconstruir os tropos convencionais do gênero de super-heróis de forma sombria, embora menos satírica que The Boys ou Jupiter’s Legacy.
O multiverso na série não serve apenas para reunir diferentes versões de personagens, mas para explorar a tentação e a corrupção moral. Quando o protagonista enfrenta o vilão Angstrom Levy, a série demonstra que, na maioria das realidades, as variantes de Mark são mais propensas a sucumbir à tentação e se aliar ao seu pai, Omni-Man, do que manter sua integridade heroica. Esse confronto, que leva Mark a percorrer diversas realidades, serve como uma vitrine de como o conceito pode ser usado para aprofundar o caráter dos personagens.

Diferenças estruturais entre Invincible e o MCU
Um dos pontos centrais dessa comparação reside na forma como cada obra trata sua continuidade. Enquanto o MCU frequentemente dilui a importância de seu universo principal ao incorporar franquias externas — como os filmes dos X-Men ou o Spider-Man de Sam Raimi —, Invincible mantém o foco em uma realidade central. O MCU, ao tentar integrar essas continuidades antigas, acaba por desvalorizar a primazia de seu próprio universo, tornando-o um repositório de cameos. Em contraste, o mundo de Invincible possui uma realidade que o público realmente valoriza, utilizando o multiverso apenas ocasionalmente, sem que isso ameace a relevância dos eventos centrais.
Além disso, a diversidade das variantes em Invincible é muito mais rica. Enquanto o MCU frequentemente apresenta variantes que diferem pouco além de um corte de cabelo ou um ator diferente, a obra do Prime Video aposta em variações comportamentais e filosóficas profundas. A série evita problemas como o de ter múltiplos heróis idênticos ou a morte prematura de personagens importantes antes mesmo de serem devidamente explorados, como ocorreu com o Sr. Fantástico de Jon Krasinski.
Impacto na narrativa de super-heróis
A série consegue equilibrar a escala épica com o desenvolvimento de personagens, algo que o Marvel Cinematic Universe tem enfrentado dificuldades ao tentar expandir seu escopo. A abordagem de Invincible é moralmente mais complexa e, ironicamente, faz com que seu multiverso pareça muito maior e mais audacioso do que o da Marvel. Ao evitar a armadilha de transformar o multiverso em um simples parque de diversões para fãs, a animação prova que o tamanho do orçamento ou a natureza do formato não definem a qualidade da exploração de conceitos multiversais. Para os espectadores, a série reafirma que o impacto emocional e a coerência narrativa são os verdadeiros pilares de uma história de super-heróis bem contada.
Fonte: ScreenRant