A Indonésia oficializou suas intenções de conquistar o cobiçado status de País de Honra no prestigiado Festival de Cannes para a edição de 2028. O anúncio, feito pelo ministro da Cultura, Fadli Zon, durante sua estadia na Riviera Francesa, marca um ponto de inflexão na política cultural do país. Zon apresentou uma estratégia abrangente e detalhada, desenhada para transicionar a indústria cinematográfica indonésia de uma posição periférica no mercado global para um papel de protagonismo, influência e relevância cultural inquestionável.


Uma visão estratégica para a projeção global
Durante sua entrevista exclusiva, o ministro Fadli Zon enfatizou que a busca pelo status de País de Honra em 2028 não é apenas uma questão de prestígio diplomático ou visibilidade superficial. Segundo ele, o objetivo central é a construção de uma plataforma internacional robusta que possa sustentar o cinema, a cultura e o talento criativo da Indonésia a longo prazo. O ministro reconhece que, embora o mercado interno indonésio esteja vivenciando um momento de ouro, com números de bilheteria impressionantes e uma produção local vibrante, o país ainda enfrenta dificuldades em converter esse sucesso doméstico em um fenômeno de exportação consistente e reconhecido internacionalmente.
Para superar essa barreira, a estratégia do ministério está sendo estruturada em três pilares fundamentais: a expansão agressiva da capacidade de distribuição global, a facilitação do acesso de cineastas regionais a festivais de primeira linha e, crucialmente, a criação de estruturas de incentivo financeiro que sejam competitivas no mercado global. Zon entende que o cenário atual exige que a Indonésia se alinhe às práticas de países que já consolidaram suas indústrias como polos de atração, como a Coreia do Sul e a Tailândia.
Desenvolvimento de incentivos e infraestrutura financeira
Ao abordar a questão dos incentivos fiscais e dos reembolsos de produção, Fadli Zon demonstrou um pragmatismo notável. Ele admite abertamente que a Indonésia ainda está em processo de desenvolvimento de sua arquitetura legal e econômica para atrair produções estrangeiras. “Reconhecemos que incentivos e reembolsos são ferramentas cada vez mais vitais na indústria cinematográfica global, especialmente em um ambiente onde nações competem ferozmente por investimentos e parcerias criativas”, afirmou o ministro. O governo indonésio está atualmente em uma fase de estudo intensivo de modelos internacionais bem-sucedidos, com o compromisso de que qualquer esquema implementado entregue valor econômico mensurável e promova o desenvolvimento contínuo dos talentos locais.
Enquanto a estrutura definitiva de incentivos está sendo desenhada, o governo já tomou medidas imediatas para mitigar lacunas. Foram estabelecidos fundos de contrapartida e modelos de financiamento colaborativo, desenhados especificamente para fortalecer os laços entre cineastas indonésios e players globais da indústria. Além disso, o ministério tem feito uso estratégico do Dana IndonesiaRaya, o fundo de dotação cultural do país. Este fundo tem sido um motor essencial para apoiar o desenvolvimento de talentos, assistência à produção, mobilidade internacional e a participação de cineastas em festivais de prestígio ao redor do mundo.
Parcerias bilaterais e o papel da França
A presença da Indonésia no Festival de Cannes de 2026 serve como um microcosmo da ambição do governo. O destaque é o Next Step Studio Indonesia, uma iniciativa de incubação de talentos e coprodução voltada para jovens cineastas. Este programa é fruto de uma coalizão que envolve o Ministério da Cultura, o Governo Provincial de Jacarta, a Embaixada da França na Indonésia e o Institut Français Indonesia. Esta colaboração é um reflexo direto dos compromissos culturais bilaterais estabelecidos na Declaração de Borobudur, um marco nas relações entre Indonésia e França.
A estratégia de expansão também se beneficia de uma base política sólida, construída a partir do encontro entre o presidente Prabowo Subianto e o presidente Emmanuel Macron no ano passado. Ambos os líderes reafirmaram a importância de uma cooperação cultural ampliada. Além do Next Step Studio, a Indonésia está investindo em um laboratório de cinema conjunto com a França e estabelecendo parcerias institucionais de alto nível com a La Fémis e o CNC. Essas alianças são fundamentais para a estratégia de coprodução europeia do país, que também identifica os Países Baixos como um parceiro estratégico vital para o intercâmbio de talentos e a educação cinematográfica.
Engajamento em plataformas de mercado
A participação indonésia em Cannes este ano é abrangente, estendendo-se por diversas plataformas de mercado cruciais. Cineastas e produtores locais estão ativamente envolvidos no Cannes Docs, no Producer’s Network, no SFC Rendezvous Industry e no programa de matchmaking SamaSama Lab. Além disso, há um esforço consciente para expandir a presença em eventos como a Critics’ Week e o Annecy Animation Film Festival. Um ponto alto deste esforço foi a Indonesian Cinema Night, realizada em 14 de maio, um evento desenhado especificamente para conectar produtores, diretores e instituições indonésias diretamente com investidores internacionais, programadores de festivais e outros tomadores de decisão da indústria global.
O futuro da indústria e a identidade cultural
O ministro Fadli Zon projeta um futuro onde a Indonésia não seja apenas um destino de filmagem, mas um colaborador influente na criação de conteúdo global. A visão é de um ecossistema equilibrado, onde a produção comercial de grande escala coexiste com vozes independentes e autorais. O governo entende que a autenticidade das histórias indonésias — ricas em diversidade cultural e geográfica — é o seu maior trunfo. Ao promover essa identidade única em um palco tão grande quanto Cannes, o país espera não apenas atrair capital, mas também garantir que a narrativa indonésia seja ouvida e compreendida em escala universal. A meta de 2028 é, portanto, o ápice de um esforço contínuo de profissionalização, internacionalização e afirmação da Indonésia como uma potência cultural emergente no cenário cinematográfico mundial.
Fonte: Variety