A indústria do entretenimento em Los Angeles vive um momento de tensão, marcado por uma queda acentuada na atividade de produção que levanta alertas sobre o futuro da cidade como capital mundial do cinema. O fenômeno, que se intensificou após o fim da bolha do streaming em 2022, resultou na perda de 73 mil empregos no setor em todo o país, com dois terços desse impacto concentrado na Califórnia. O desafio de manter grandes projetos em solo americano tornou-se um tema central de debates políticos e econômicos, com produtores e estúdios buscando alternativas mais viáveis financeiramente em outros países.
O caso do reboot de Baywatch, produzido pela Fox, ilustra bem os obstáculos enfrentados. Embora o governo da Califórnia tenha investido US$ 21 milhões para trazer a produção de volta ao seu habitat original, a equipe encontrou uma série de restrições burocráticas impostas por órgãos locais, como a proibição de estacionar caminhões ou dirigir na areia. O co-criador da série, Greg Bonann, destacou que a produção quase se tornou um símbolo da ineficiência regulatória, forçando negociações diretas com autoridades para garantir a viabilidade das filmagens na região.
Custos elevados e a concorrência global
A perda de competitividade de Los Angeles não é um problema recente, mas a pressão por produtos de alta qualidade com orçamentos controlados acelerou a migração para o exterior. Enquanto a Califórnia lida com custos de vida elevados e acordos sindicais complexos, outros países oferecem incentivos fiscais agressivos e infraestrutura dedicada. O Reino Unido, por exemplo, investiu US$ 2,2 bilhões em subsídios para cinema e TV em 2024, criando um ambiente atrativo que dificulta a permanência de grandes franquias nos Estados Unidos.
Produtores como Charles Roven, responsável por obras como Oppenheimer, apontam que os programas de rebate da Califórnia são limitados e não cobrem salários acima da linha, como os de atores e diretores. Essa disparidade financeira é um fator decisivo para cineastas independentes, como Brady Corbet, que optou por filmar na Hungria e em Portugal para viabilizar seus projetos. A busca por eficiência orçamentária também afeta produções de menor escala, como o filme de terror Obsession, que, apesar de ter sido rodado em Los Angeles, enfrenta pressões crescentes de sindicatos para se tornar um projeto signatário, elevando os custos operacionais.
O impacto na economia local e a busca por soluções
A fuga de produções tem gerado um efeito cascata na economia de Los Angeles, afetando desde equipes técnicas até empresas de serviços auxiliares, como floriculturas e restaurantes. O fechamento de estabelecimentos tradicionais, como o Connie & Ted’s, é citado como um reflexo direto da diminuição do público que frequentava esses locais. Diante desse cenário, lideranças políticas, incluindo a prefeita Karen Bass e o senador Adam Schiff, buscam alternativas para reverter a tendência, com a proposta de um incentivo federal que possa equiparar a competitividade americana aos padrões internacionais.
Apesar das dificuldades, alguns projetos ainda conseguem se manter na Califórnia graças a incentivos estaduais e à preferência de grandes estrelas. Séries como Shrinking, estrelada por Harrison Ford, e o projeto The Studio, da Point Grey Pictures, conseguiram viabilizar suas filmagens localmente ao negociar créditos fiscais específicos. O showrunner Bill Lawrence, que divide suas produções entre Vancouver e Los Angeles, reforça a importância de manter a cidade como o principal hub da indústria, embora reconheça que a decisão de filmar fora é, muitas vezes, uma questão de sobrevivência do projeto.
Paralelos com a indústria automobilística
Analistas comparam a situação atual de Hollywood com a crise enfrentada pela indústria automobilística em Detroit. Assim como as montadoras buscaram mão de obra mais barata e incentivos em outras regiões, os estúdios estão migrando para onde o custo-benefício é mais favorável. No entanto, especialistas como James Hohman, do Mackinac Center for Fiscal Policy, observam que Michigan conseguiu manter sua relevância no setor automotivo através de subsídios estratégicos e apoio federal. A lição para a Califórnia parece ser clara: a sobrevivência da indústria depende de uma resposta coordenada que combine incentivos fiscais competitivos e uma revisão das políticas regulatórias que, atualmente, tornam a produção local um desafio constante.
Fonte: Variety