Guneet Monga Kapoor, a renomada produtora que alcançou o ápice do reconhecimento internacional ao conquistar o Oscar de Melhor Curta-Metragem Documental em 2023 com “The Elephant Whisperers”, marcou presença na edição de 2026 do Festival de Cannes com uma agenda estratégica ambiciosa. Acompanhada por quatro bolsistas beneficiadas por suas iniciativas, a produtora delineou um plano de negócios que sinaliza uma transição deliberada para o cinema de gênero, o desenvolvimento de franquias protagonizadas por mulheres e, em um horizonte de médio prazo, a incursão no dinâmico mercado de jogos eletrônicos. Este movimento ocorre exatamente um ano após a fundação da “Women in Film India”, organização que se tornou um pilar central em sua atuação atual.


O fortalecimento da Women in Film India
A “Women in Film India”, lançada durante o Festival de Cannes de 2025, consolidou-se rapidamente como uma força motriz no cenário cinematográfico indiano, atingindo a marca expressiva de 3.500 membros em seus primeiros doze meses de existência. A organização tem como missão principal o aprimoramento de habilidades técnicas e a criação de pontes sólidas para que talentos locais alcancem mercados globais. Durante o evento deste ano, a produtora formalizou uma parceria estratégica com o “Cannes Film Market”, garantindo que quatro bolsistas tivessem acesso privilegiado ao “Producers Network” e ao “Impact Lab”. A alta demanda pelo programa, que recebeu mais de 200 candidaturas para apenas quatro vagas, reflete a carência e o interesse latente por oportunidades de capacitação profissional no setor.
A estrutura de suporte oferecida pela “Women in Film India” é abrangente. Além da presença em grandes festivais, a organização mantém workshops mensais em parceria com o “So House” e promove ciclos de resiliência conduzidos pela life coach Chetna Chakravarthy. Estes treinamentos ocorrem online, em ciclos de seis semanas, atendendo grupos de 20 a 30 participantes. Os resultados práticos dessa mentoria já são visíveis: no ano passado, seis projetos e seis cineastas foram levados ao mercado de Toronto. Entre os sucessos, destaca-se o projeto “Sons of the River”, de Katyayani Kumar, que obteve seleção pelo “Film Independent”, e o longa “Ulta”, de Paromita Dhar, que conquistou o segundo lugar na competição de coprodução de longas-metragens no “WAVES Film Bazaar” em Goa. Monga Kapoor expressou seu desejo de expandir ainda mais esse ecossistema, planejando a criação de um laboratório de roteiros e uma série de cafés da manhã voltados para produtores na Índia, dependendo da disponibilidade de financiamento e equipe.
Transição para o cinema de gênero e novos projetos
A estratégia de produção de Monga Kapoor para o futuro próximo é clara e diversificada. Seu próximo grande lançamento, a comédia de suspense “Udta Teer”, é uma coprodução realizada em parceria com a “Dharma Productions”. O filme, que conta com os atores Ayushmann Khurrana e Sara Ali Khan nos papéis principais, tem sua estreia agendada para o dia 11 de setembro. Paralelamente, a produtora está finalizando um longa-metragem em língua tâmil, dirigido por Karthik Subbaraj. Este projeto é particularmente significativo por ser o primeiro em que Monga Kapoor atua como financiadora direta, assumindo o risco do capital próprio em vez de apenas produzir sem participação acionária, sob os termos de seu acordo com a Jio Studios. A qualidade técnica da produção é evidenciada pela trilha sonora composta pelo lendário Ilaiyaraaja, que marca seu 1.540º filme, com uma gravação orquestral realizada em Praga envolvendo 80 músicos.
Além desses títulos, a produtora confirmou que “Kill 2” está em desenvolvimento e que pretende colocar três novos filmes em produção dentro do período de um ano. O portfólio futuro também inclui uma série de filmes de gênero liderados por mulheres, abrangendo narrativas como um filme de desastre natural com forte apelo atmosférico e um longa de terror do tipo “slasher”, ambos atualmente em fase final de negociação. A produtora enfatiza que sua ambição é um motor essencial de sua carreira: “Eu sou ambiciosa e não tenho medo dessa ambição”, declarou, reforçando seu compromisso em elevar o patamar das produções indianas no cenário global.
Dinâmicas de mercado e o futuro das produções
A mudança de foco para o cinema de gênero não é uma decisão aleatória, mas uma resposta pragmática às transformações nas dinâmicas de mercado. Monga Kapoor observa que o cenário de aquisições por parte dos serviços de streaming passou por uma contração significativa. Na Índia, plataformas como a JioHotstar redirecionaram seus investimentos prioritariamente para o esporte, especificamente o críquete, enquanto a Zee reduziu o ritmo de suas comissões e a Prime Video já possui suas grades de conteúdo definidas até 2027 e 2028. Diante desse cenário, a produtora argumenta que o público das salas de cinema tem demonstrado uma preferência clara por produções de grande escala, com apelo de franquia e elementos de gênero bem definidos.
“Como produtora, eu sempre me posiciono entre o comércio e a arte”, explica Monga Kapoor. Ela lamenta que, no mercado atual, os dramas tradicionais tenham se tornado produções de nicho, com menos chances de alcançar grandes audiências, e que mesmo os dramas de prestígio hoje em dia exijam o suporte de plataformas de streaming antes mesmo de o projeto entrar em fase de produção. Essa realidade força os produtores a serem mais estratégicos na escolha de seus projetos. A visão de Monga Kapoor para o futuro envolve a criação de propriedades intelectuais que possam transitar entre diferentes mídias, incluindo o setor de jogos eletrônicos, aproveitando a força de franquias lideradas por mulheres para capturar a atenção de um público global cada vez mais exigente e conectado. Ao equilibrar a viabilidade comercial com a curadoria artística, a produtora reafirma seu papel como uma das vozes mais influentes e resilientes do cinema contemporâneo, mantendo o olhar atento às oportunidades de inovação tecnológica e narrativa que o mercado oferece.
Fonte: Variety