Lançado em 1990, Goodfellas, dirigido por Martin Scorsese, permanece como uma das obras mais influentes e estudadas sobre o crime organizado. Em um período em que qualquer filme sobre a máfia era inevitavelmente comparado à grandiosidade de The Godfather, de Francis Ford Coppola, a tarefa de criar algo novo parecia uma missão impossível. Enquanto os dois primeiros capítulos da saga de Coppola sobre a família Corleone são amplamente considerados o ápice do cinema, funcionando como uma declaração operística sobre legado, capitalismo e o Sonho Americano, Scorsese trilhou um caminho distinto. O diretor, conhecido por seu interesse em estudos de personagens moralmente ambíguos e suas relações com o poder e impulsos masculinos, provou ser a voz moderna do submundo criminal com esta obra-prima, que agora está disponível no Prime Video para aqueles que desejam revisitar o longa pela centésima vez.
Goodfellas oferece um retrato honesto do crime organizado
Diferente da aura romântica e quase mítica que envolve a obra de Coppola — que utilizou a máfia como pano de fundo para uma releitura moderna de Rei Lear, com a figura calorosa de Vito Corleone servindo como um contraste deliberado à sua profissão violenta —, Goodfellas opta por uma abordagem visceral e crua. O filme mergulha na vida de Henry Hill, interpretado por Ray Liotta, um soldado em uma família mafiosa de Nova York. O longa não tenta glorificar as atividades criminosas, mas expõe, com honestidade brutal, por que as pessoas são atraídas por esse mundo: a euforia inicial do poder, o prazer de sequestrar caminhões e a adrenalina de participar de esquemas de extorsão e extorsão. No entanto, Scorsese equilibra essa atração com a fúria do declínio trágico de seus personagens.
A estrutura narrativa é dividida de forma clara: a primeira metade funciona como uma festa interminável, enquanto a segunda metade, marcada por assassinatos chocantes, batalhas contra o vício em drogas e uma paranoia crescente, representa a ressaca fatal. Apesar de ter sido um sucesso moderado nas bilheterias em seu lançamento, o filme foi aclamado pela crítica e recebeu honrarias da Academia, embora tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para Dances with Wolves, um resultado que permanece controverso até hoje. A atuação de Robert De Niro como Jimmy Conway e de Joe Pesci como Tommy DeVito é fundamental para a construção dessa atmosfera tensa e imprevisível, consolidando o filme como um clássico que rivaliza com outros marcos de Scorsese, como Taxi Driver e Raging Bull.
A inovação técnica de Martin Scorsese
Do ponto de vista técnico, Goodfellas é uma verdadeira aula de cinema. A montagem frenética de Thelma Schoonmaker quebra convenções tradicionais para refletir o comportamento iconoclasta de Hill, Conway e DeVito, criando um efeito profundo que dita o ritmo acelerado da obra. A cinematografia de Michael Ballhaus complementa essa visão, utilizando movimentos de câmera dinâmicos que alternam entre o estilo documental, como se fôssemos uma mosca na parede, e técnicas brechtianas, incluindo quebras da quarta parede que tornam o espectador cúmplice da narrativa. A trilha sonora, composta por uma curadoria precisa de músicas pop americanas, que transita do doo-wop dos anos 50 ao rock psicodélico dos anos 70, funciona como um registro histórico da evolução do submundo.
Scorsese consegue, com maestria, fazer com que o submundo do crime pareça convidativo e reconfortante para personagens como Henry Hill, ao mesmo tempo em que revela a destruição moral que essa escolha acarreta. O filme aborda temas profundos como fé, culpa, tentação e arrependimento, tornando a experiência de assistir a Goodfellas algo imersivo e, por vezes, desconfortável. É, sem dúvida, uma obra que exige revisitas constantes, assemelhando-se a uma reunião de família regada a comida italiana — apenas é melhor não perguntar de onde veio a carne. A habilidade de Scorsese em equilibrar violência extrema com uma narrativa envolvente faz dele uma figura icônica tanto para o público casual quanto para os cinéfilos mais exigentes.
Fonte: Collider