O gênero de super-heróis consolidou diversos clichês ao longo das últimas décadas, especialmente com a proliferação de produções de grande orçamento. Entre as convenções mais comuns, destacam-se as batalhas épicas geradas por computação gráfica, onde o protagonista enfrenta o antagonista, e as grandes reuniões de personagens em equipes. Um momento recorrente em muitas dessas narrativas é a derrota temporária do herói por volta da metade da história, servindo como um ponto de virada para que ele se reagrupe e supere as adversidades no ato final. Embora esse padrão seja frequente, como visto em produções como Black Panther, The Dark Knight Rises e Guardians of the Galaxy, existe um fascínio particular por histórias que subvertem essa expectativa. Em casos raros, o vilão consegue alcançar seus objetivos, mesmo que isso não signifique necessariamente uma vitória triunfal ou a sobrevivência do antagonista.
Esses filmes onde o vilão vence costumam ser celebrados como algumas das entradas mais memoráveis do gênero, oferecendo uma experiência narrativa distinta. A vitória do antagonista pode ocorrer de forma avassaladora ou através de planos meticulosos que, mesmo após a derrota física ou a prisão do vilão, garantem que sua missão principal seja cumprida. A seguir, exploramos sete exemplos notáveis onde o bem não prevaleceu da maneira tradicional.
Captain America: Civil War e a fragmentação dos Vingadores
Em Captain America: Civil War, de 2016, a vitória do vilão é um dos aspectos mais intrigantes da trama. O filme reúne um elenco vasto, incluindo Iron Man, Black Widow, Wanda Maximoff, Bucky Barnes e Vision, além de introduzir spider-man e Black Panther. O antagonista, no entanto, não é uma entidade cósmica ou um ser superpoderoso, mas um homem comum chamado Helmut Zemo. Sem força física para enfrentar os heróis, Zemo utiliza a estratégia para semear a discórdia, explorando segredos do passado para colocar os aliados uns contra os outros. Ao revelar que Bucky Barnes foi o responsável pela morte dos pais de Tony Stark, ele consegue o que queria: a desintegração temporária dos avengers. Mesmo sendo preso ao final, o vilão reconhece que sua missão foi um sucesso absoluto.
Brightburn: quando o super-herói se torna um monstro
Diferente de outras produções do gênero, Brightburn, de 2019, funciona quase como uma inversão completa da mitologia do superman. A premissa explora o que aconteceria se uma criança alienígena com poderes divinos chegasse à Terra e, em vez de se tornar um salvador, escolhesse o caminho da destruição. O protagonista, Brandon Breyer, utiliza suas habilidades para cometer atos de violência extrema contra aqueles que tentam contê-lo. O filme subverte a expectativa de redenção, culminando em um desfecho sombrio onde o jovem assassina a própria mãe e destrói um avião comercial apenas por diversão. É um exemplo raro de um filme de super-heróis que assume uma postura de horror, onde o vilão não apenas vence, mas triunfa sem qualquer oposição moral.
The Batman e a exposição da corrupção sistêmica
Na versão de 2022 dirigida por Matt Reeves, The batman apresenta um Riddler que, embora capturado, consegue concretizar seu plano principal. O antagonista busca expor a corrupção enraizada nas elites de Gotham e, para isso, inunda a cidade, causando destruição em massa. Enquanto o batman de Robert Pattinson atua como um símbolo de esperança e salva inúmeras vidas, ele não consegue impedir o colapso da infraestrutura da cidade nem a revelação dos segredos que o Riddler pretendia expor. O vilão alcança seu objetivo de desestabilizar o sistema, provando que, em certos contextos, a vitória pode ser medida pela mudança social forçada, mesmo que o custo seja a liberdade do próprio antagonista.
Watchmen e o sacrifício pela paz mundial
O filme Watchmen, de 2009, é lembrado por seu final audacioso que desafia as normas dos filmes de super-heróis da época. A trama acompanha um grupo de vigilantes investigando o assassinato de um colega, o que os leva a descobrir o plano de Adrian Veidt, também conhecido como Ozymandias. O vilão planeja incriminar o Dr. Manhattan como uma ameaça global para forçar as nações do mundo a se unirem contra um inimigo comum. Ao final, o plano é bem-sucedido: o mundo entra em um período de paz forçada, e os heróis, com exceção de Rorschach, concordam em manter o segredo de Ozymandias. O antagonista vence ao manipular a realidade geopolítica, sacrificando milhões para salvar a humanidade de uma guerra nuclear.
Unbreakable: a validação da existência do vilão
Lançado antes da explosão dos filmes de super-heróis modernos, Unbreakable, de 2000, foca na dualidade entre um homem com força sobre-humana e um terrorista com uma doença óssea rara. O vilão, Mr. Glass, orquestra uma série de tragédias, incluindo um acidente de trem, para forçar o protagonista a descobrir seus próprios poderes. O objetivo de Mr. Glass era provar a existência de super-heróis e, consequentemente, validar sua própria existência como um vilão. Mesmo terminando confinado em uma instituição psiquiátrica, ele alcança seu propósito, tornando-se o arquiteto de uma nova realidade onde o extraordinário é reconhecido. É uma narrativa que explora a obsessão e a necessidade de significado, onde a vitória do vilão é puramente intelectual e existencial.
Avengers: Infinity War e o estalar de dedos
Talvez o caso mais infame de vitória vilanesca no cinema contemporâneo, avengers: Infinity War, de 2018, mostra Thanos superando todos os heróis da Marvel. O Mad Titan busca as Infinity Stones para eliminar metade da vida no universo, acreditando que isso garantirá a sobrevivência dos recursos para os que restarem. Apesar da resistência de equipes como os Guardians of the Galaxy, Doctor Strange e os defensores de Wakanda, Thanos consegue seu objetivo. Ele sacrifica sua filha, Gamora, e concretiza o estalar de dedos que altera a existência. É um final sem precedentes que deixou o público atônito e estabeleceu um novo patamar para o que um antagonista pode alcançar em uma franquia de grande escala.
The Dark Knight: a corrupção da alma de Gotham
Em The Dark Knight, de 2008, o Joker atua como um agente do caos que, embora preso, consegue corromper o símbolo de esperança de Gotham, Harvey Dent. O vilão não busca apenas a destruição física, mas a destruição moral da cidade. Ao transformar o promotor público em um monstro, o Joker prova que qualquer pessoa pode ser levada ao limite. A vitória do vilão é completa quando o Batman é forçado a assumir a culpa pelos crimes de Dent e se exilar. O filme, que é frequentemente citado como um dos melhores do gênero, mostra que o triunfo de um antagonista pode ser muito mais duradouro do que uma simples derrota militar, deixando cicatrizes permanentes na sociedade que ele tentou destruir. Para os fãs de adaptações de quadrinhos, é interessante notar como a complexidade desses vilões muitas vezes supera a dos heróis, algo que também vemos em produções como Batman: The Animated Series, que continua a influenciar o imaginário popular. Além disso, a exploração de temas sombrios em franquias como House of the Dragon demonstra que o público moderno valoriza narrativas onde as consequências das ações dos personagens, sejam eles heróis ou vilões, possuem um peso real e duradouro no desenrolar da trama.
Fonte: ScreenRant