Oito filmes que fracassaram e ganharam sequências anos depois

Revisitamos produções que não tiveram sucesso comercial em suas estreias, mas que conquistaram o status de clássicos cult e retornaram décadas depois.

Existe uma lealdade peculiar que nutrimos por filmes que, por diversos motivos, não receberam o devido reconhecimento no momento de seu lançamento original. Quando observamos números de bilheteria baixos, é comum que essas obras sejam percebidas como verdadeiros azarões do cinema, merecendo muito mais atenção do público do que aquela que efetivamente obtiveram nas salas de exibição. Essa energia de ‘underdog’ — ou azarão — é um dos fatores fundamentais que nos levam a abraçar produções que foram consideradas fracassos comerciais, mesmo anos depois de os estúdios responsáveis terem seguido em frente para outras franquias ou projetos.

Muitos dos filmes favoritos de diversos cinéfilos não foram grandes sucessos em suas estreias, mas ainda assim persiste uma responsabilidade quase pessoal em advogar por entradas de gênero subestimadas, como é o caso de The Nice Guys e Dredd. Embora nenhum desses dois exemplos tenha recebido as sequências que, na visão de muitos fãs, mereciam, a história do cinema nos mostra que muitos outros clássicos cult tiveram destinos diferentes e conseguiram, de fato, ganhar continuações mais de uma década após o lançamento original. No entanto, é preciso analisar com cautela: nem todos esses retornos tardios valeram a espera.

This Is Spinal Tap (1984) e Spinal Tap II: The End Continues (2025)

Rob Reiner é amplamente reconhecido por ter praticamente inventado o gênero de falso documentário, ou mockumentary, quando concebeu Spinal Tap. Infelizmente, um dos maiores riscos para filmes que estão muito à frente de seu tempo é a falta de sucesso comercial imediato. Independentemente do desempenho financeiro inicial, o público passou anos citando as falas da banda fictícia de rock. Quando a sequência finalmente foi anunciada, era fácil imaginar uma versão que utilizasse o hiato de décadas a seu favor, trazendo uma nova camada de sátira. Infelizmente, Spinal Tap II: The End Continues não conseguiu atingir o nível máximo de intensidade, ou como diriam os fãs, não conseguiu ‘chegar ao 11’.

Hocus Pocus (1993) e Hocus Pocus 2 (2022)

As irmãs Sanderson em Abracadabra 2
As irmãs Sanderson retornam em Abracadabra 2, disponível no Disney+.

Hocus Pocus, conhecido no Brasil como Abracadabra, é um caso fascinante de um fracasso de bilheteria que se transformou em uma verdadeira tradição de Halloween ao longo das décadas. A diversão exagerada e o tom ‘camp’ desse clássico cult encapsulam perfeitamente a estética da infância de muitos espectadores dos anos 90, tornando-o um filme nostálgico para revisitar todo mês de outubro. Como um produto muito específico de sua época, dificilmente alguém esperava ansiosamente por uma sequência. Contudo, após três décadas, as irmãs Sanderson retornaram em Hocus Pocus 2, lançado diretamente no Disney+. Infelizmente, o novo longa não conseguiu capturar o mesmo charme do original. Por outro lado, é justo notar que o elenco reunido não perdeu o ritmo, fazendo com que parecesse que nenhum tempo havia passado entre as duas produções.

The Boondock Saints (1999) e The Boondock Saints II: All Saints Day (2009)

Norman Reedus em Santos Justiceiros 2
Norman Reedus retorna para a sequência de Santos Justiceiros.

The Boondock Saints, ou Santos Justiceiros, teve um desempenho tão modesto que não chegou a arrecadar 20 mil dólares em seu fim de semana de estreia nos cinemas. Apesar disso, o filme tornou-se um sucesso estrondoso no mercado de home video. A atuação de nomes como Willem Dafoe e Norman Reedus conferiu ao filme um charme único que, de outra forma, ele não teria. Esse culto de seguidores acabou levando à criação de uma sequência que muitos consideram desnecessária: Boondock Saints II: All Saints Day. Embora Reedus tenha retornado, o filme carecia de muitos elementos que tornaram o primeiro um clássico, incluindo a energia inspirada no estilo de Quentin Tarantino. A sequência apostou excessivamente no ‘fan service’, uma estratégia raramente eficaz, fazendo com que o resultado final parecesse mais uma paródia do que uma expansão autêntica da premissa original. No caso de Boondock Saints II, o problema não é apenas que a sequência não valeu a espera, mas sim que ela provavelmente nunca deveria ter sido produzida.

Clerks (1994) e Clerks II (2006)

Jay e Silent Bob em O Balconista
O Balconista lançou a carreira de Kevin Smith nos anos 90.

O filme independente Clerks, intitulado no Brasil como O Balconista, foi o responsável por lançar a carreira do diretor Kevin Smith. Mais de uma década depois, Clerks II expandiu a vida dos personagens e elevou a premissa original com uma reflexão mais sentimental sobre a amizade e o amadurecimento. Foi uma surpresa agradável que provou que sequências tardias podem, sim, apresentar conceitos convincentes e necessários para o desenvolvimento dos personagens.

Escape from New York (1981) e Escape from L.A. (1996)

Kurt Russell como Snake Plissken
Kurt Russell retorna como Snake Plissken em Fuga de Los Angeles.

Escape from New York, ou Fuga de Nova York, dirigido por John Carpenter, foi considerado um fracasso de bilheteria na época, em grande parte devido às limitações orçamentárias que moldaram sua estética. Anos mais tarde, Kurt Russell retornou ao icônico papel de Snake Plissken em Escape from L.A.. Contudo, o tom surreal e satírico da sequência polarizou o público, afastando-se significativamente da abordagem mais contida e realista do primeiro longa-metragem.

The Dark Crystal (1982) e Age of Resistance (2019)

Cena de O Cristal Encantado: A Era da Resistência
A série da Netflix expandiu o universo criado por Jim Henson.

Apesar da inegável paixão e visão artística de Jim Henson e Frank Oz, The Dark Crystal foi uma decepção comercial em seu lançamento. Quarenta anos depois, a série The Dark Crystal: Age of Resistance, produzida pela Netflix, revitalizou a mitologia com um sucesso notável. A produção conseguiu elevar o material original, expandindo o mundo de Thra e superando as expectativas dos fãs que aguardavam um retorno a esse universo fantástico.

Tron (1982) e Tron: Legacy (2010)

Embora Tron não tenha se tornado o sucesso absoluto que a Disney esperava na década de 80, o filme foi um pioneiro absoluto em efeitos visuais e computação gráfica. Quase 30 anos depois, Tron: Legacy trouxe uma abordagem visual moderna, acompanhada por uma trilha sonora memorável composta pelo Daft Punk, sendo considerado por muitos como o melhor e mais coeso capítulo da franquia até hoje.

Blade Runner (1982) e Blade Runner 2049 (2017)

Blade Runner 2049 é amplamente aclamado pela crítica e pelo público como uma das melhores sequências tardias da história do cinema. O diretor Denis Villeneuve conseguiu honrar o legado do trabalho original de Ridley Scott, trazendo Harrison Ford de volta em uma obra que venceu múltiplos prêmios da Academia. Assim como outros exemplos citados, a franquia demonstra que, quando bem executado, o tempo pode ser um aliado poderoso na construção de legados cinematográficos duradouros e profundos.

Fonte: Movieweb