Uma coleção inusitada de curtas-metragens, integralmente gerados por Inteligência Artificial a partir de ensaios fotográficos de revistas eróticas publicadas há 50 anos, fez sua estreia oficial durante o prestigiado Festival de Cannes. O projeto, que utiliza tecnologia de ponta para revitalizar materiais visuais do passado, já está disponível para o público na plataforma de streaming Cultpix. Além da exibição digital, a iniciativa prevê um lançamento físico em formatos Blu-ray e VHS, este último contando com uma edição limitada, sob o selo da distribuidora Klubb Super 8.


Tecnologia a serviço da memória e do debate cultural
O desenvolvimento técnico desta obra é assinado por Thomas Meier, da empresa norueguesa Multiformat. O processo criativo envolveu a aplicação de ferramentas de IA generativa para transformar fotografias estáticas datadas de 1976 em vídeos de movimento completo. O resultado final inclui a adição de cores vibrantes, som sincronizado, diálogos e narração em off, conferindo uma nova dimensão a registros que, até então, eram apenas imagens impressas. A iniciativa não visa apenas o entretenimento, mas busca provocar um debate profundo sobre como a percepção pública e os padrões morais em relação a conteúdos adultos sofreram transformações drásticas ao longo das últimas cinco décadas.
Segundo Rickard Gramfors, CEO e cofundador da Cultpix, o objetivo central é utilizar a tecnologia moderna como uma lente para analisar atitudes sociais que hoje parecem notavelmente inocentes. “O que era considerado chocante e escandaloso na época, hoje é visto sob uma ótica muito mais branda”, explica Gramfors. Ao trazer essas fotografias estáticas para o formato de vídeo, o projeto estabelece um diálogo direto entre a estética arriscada do passado e as capacidades da nova tecnologia, explorando como a nossa compreensão sobre o corpo humano e a sexualidade evoluiu significativamente desde a década de 1970.
Contexto histórico e curadoria especializada
O anúncio em Cannes ocorre em um momento de crescente interesse acadêmico e curatorial por obras de erótica vintage. O festival, inclusive, aproveitou o clima de resgate histórico para exibir uma cópia restaurada de The Devils (1971), de Ken Russell. O filme, que enfrentou censura severa e cortes em seu lançamento original, permanece até hoje como um marco fundamental nos debates sobre liberdade artística, censura e a representação da sexualidade nas telas.
A Cultpix, lançada em abril de 2021, consolidou-se como uma das maiores plataformas de streaming dedicadas ao cinema cult e de gênero no mundo. O serviço é amplamente reconhecido por resgatar e preservar produções que marcaram época nos circuitos de drive-in e grindhouse, abrangendo uma vasta gama de gêneros, desde o horror e a ficção científica até produções de artes marciais e faroestes europeus. A plataforma mantém uma curadoria especializada em erótica vintage, trabalhando em estreita colaboração com detentores de direitos renomados, como a Something Weird Video e a Vinegar Syndrome.
O renascimento do cinema de época
O movimento de valorização de obras clássicas e controversas ganha força em diversos espaços culturais ao redor do globo. O New Beverly Cinema, em Los Angeles, sob a curadoria de Quentin Tarantino, apresentou recentemente uma temporada dedicada ao gênero Eros, prestando uma homenagem ao histórico do local como um cinema voltado ao público adulto durante a década de 1970. Paralelamente, o Cinemateket, do Instituto de Cinema Sueco, promoveu a retrospectiva Svenska Synden, que analisa como a abordagem permissiva e aberta do cinema sueco em relação à nudez tornou-se um fenômeno cultural internacional, desafiando censores e conservadores ao redor do mundo. Esse cenário de redescoberta reforça a relevância do projeto da Multiformat, que utiliza a IA não apenas como ferramenta estética, mas como um instrumento de preservação e reflexão histórica sobre o cinema e os costumes.
Fonte: Variety