O design de figurino em produções televisivas de ficção científica e fantasia vai muito além da estética, funcionando como uma ferramenta narrativa essencial para definir hierarquias sociais e a sobrevivência em mundos colapsados. Em obras como Pluribus, The Testaments, Fallout e Murderbot, o vestuário atua como um marcador de poder, resistência e identidade em cenários onde a escassez é a regra. A construção visual dessas distopias exige um trabalho minucioso de pesquisa e execução, transformando tecidos e cortes em extensões da própria trama política e social de cada universo.
Em Pluribus, a narrativa apresenta um mundo onde um vírus alienígena conecta a população a uma mente coletiva pacífica, deixando apenas treze indivíduos fora desse controle. Entre eles está o personagem Mr. Diabaté, interpretado por Samba Schutte, que utiliza o vestuário para expressar sua individualidade hedonista. A figurinista Jennifer L. Bryan buscou inspiração nos Sapeurs congoleses, cujo estilo dandy é uma forma de rebeldia pós-colonial. Enquanto os humanos conectados pela mente coletiva vestem roupas compartilhadas e funcionais, Diabaté se destaca com ternos sob medida, simbolizando sua recusa em aceitar as limitações impostas pela nova ordem mundial.
A estética do poder em cenários de colapso
A disparidade social também é evidente em Paradise, onde um desastre climático forçou a elite a se refugiar em bunkers subterrâneos. A figurinista Coxy, responsável pela segunda temporada, explica que a hierarquia é mantida através da qualidade das vestimentas. Enquanto a população geral utiliza roupas vintage recicladas, os bilionários mantêm um visual impecável e sob medida. A personagem Samantha Sinatra Redmond, vivida por Julianne Nicholson, exemplifica essa distinção ao usar peças de grifes como Saint Laurent e Céline, reforçando sua posição de autoridade dentro do refúgio.
Essa necessidade de proteção através da imagem também é vista em The Testaments, adaptação do universo de Margaret Atwood. A figurinista Leslie Kavanagh utiliza uniformes codificados por cores para estabelecer a rígida hierarquia da República de Gilead. As jovens, filhas de comandantes, são vestidas com tecidos que indicam seu estágio de amadurecimento e status social. A personagem Agnes, por exemplo, utiliza seda de alta qualidade, um contraste direto com a realidade de outras jovens que, como Becka, precisam seguir padrões mais rígidos e menos privilegiados para sobreviver sob o regime patriarcal.
O figurino como forma de resistência política
A resistência através da moda ganha contornos diferentes em Fallout. A protagonista Lucy MacLean, interpretada por Ella Purnell, transita entre o traje de cofre funcional e roupas impostas por seu pai, Hank, que tentam domesticá-la. A figurinista Dayna Pink destaca que o vestido amarelo com bordados florais, inspirado no jogo original, representa a fantasia de controle de Hank. No entanto, ao manter suas botas de combate, Lucy subverte essa imagem, demonstrando que sua identidade permanece intacta apesar das tentativas de manipulação. Esse conflito visual reflete a tensão entre o passado idealizado e a brutalidade do deserto pós-nuclear.
Em Murderbot, a abordagem é focada na sustentabilidade como um ato de resistência contra um sistema corporativo opressor. A figurinista Carrie Grace trabalhou com fibras naturais e técnicas de upcycling para criar o guarda-roupa da equipe Preservation Alliance. O uso de roupas reparadas e peças modulares, como jaquetas que se transformam em coletes, reflete a mentalidade de um grupo que valoriza a autonomia e a expressão individual. Assim como em Interview With the Vampire, onde o figurino ajuda a construir a complexidade de Louis, aqui as roupas contam a história de um grupo que se recusa a ser apenas mais uma engrenagem no sistema.
Detalhes que definem a narrativa visual
A atenção aos detalhes em The Testaments, como os detalhes florais nas roupas de gala, serve para representar o florescimento das jovens em um ambiente de opressão. Kavanagh ressalta que cada escolha de tecido, desde o drapeado da seda até a rigidez dos uniformes, foi pensada para mostrar onde cada personagem se encontra na escala social de Gilead. Esse nível de detalhamento é o que separa uma produção comum de uma obra que consegue imergir o espectador em sua realidade distópica. A moda, nestes casos, não é apenas um adereço, mas uma linguagem própria.
Da mesma forma, em Fallout, a justaposição entre o estilo retro-futurista dos anos 1950 e a decadência do mundo exterior cria uma tensão constante. O figurino de Hank, sempre impecável, contrasta com os habitantes de Las Vegas que utilizam penas e uniformes de hotel reaproveitados. Essa escolha visual reforça a ideia de que, mesmo no fim do mundo, a elite tenta manter as aparências de um passado que já não existe mais. É um lembrete constante de que o poder, em qualquer cenário, busca se diferenciar através da estética.
A importância da sustentabilidade em Murderbot
A equipe de Murderbot utiliza o vestuário para desafiar a supremacia corporativa. A escolha de materiais como o cashmere reaproveitado e jaquetas feitas de colchas antigas, criadas pela designer Diana Coatsworth, enfatiza a filosofia de vida do grupo. Para eles, a moda é uma forma de protesto silencioso contra o consumismo desenfreado e a exploração laboral. A personalização dos uniformes com grafites e bordados é uma maneira de mostrar que, mesmo sob vigilância, a individualidade pode florescer através da criatividade e do cuidado com o que se veste.
A modularidade das peças, que permite adaptações conforme a necessidade da jornada, também serve como metáfora para a adaptabilidade dos personagens. Como visto em outras produções, a exemplo de Corlys Velaryon em suas jornadas, a vestimenta deve acompanhar a evolução do personagem. Em Murderbot, essa evolução é marcada pela capacidade de transformar o que é descartado em algo funcional e esteticamente relevante. É uma lição de que, em um futuro hiper-capitalista, a verdadeira rebeldia pode estar na capacidade de criar e manter o que é próprio.
Conclusão sobre a construção de mundos
A análise do trabalho de figurinistas como Jennifer L. Bryan, Coxy, Leslie Kavanagh, Dayna Pink e Carrie Grace revela que a moda na TV é um pilar fundamental da construção de mundos. Seja através da rebeldia dandy de Mr. Diabaté, da rigidez opressora de Gilead, da elegância autoritária de Sinatra ou da resistência sustentável de Murderbot, o figurino comunica valores, medos e aspirações. Essas produções demonstram que, mesmo nos cenários mais sombrios, a escolha do que vestir é um ato político e uma afirmação de humanidade.
O sucesso dessas séries em criar universos críveis e visualmente impactantes deve muito a essa dedicação em transformar conceitos abstratos em peças de vestuário tangíveis. Ao observar como cada detalhe, desde o tipo de fibra até a cor de um uniforme, é cuidadosamente planejado, percebemos a profundidade do trabalho criativo envolvido. A moda, portanto, continua a ser uma das formas mais eficazes de contar histórias, revelando quem somos e como nos posicionamos diante das estruturas de poder que tentam nos definir.
Fonte: THR