Festival de Xangai debate evolução feminina no cinema chinês

Atrizes e cineastas discutem a mudança na representação feminina no cinema chinês e a importância da autenticidade em uma indústria em constante evolução.

O Festival Internacional de Cinema de Xangai promoveu uma nova edição do painel Women in Motion, iniciativa da marca de luxo Kering voltada para destacar a presença feminina nas artes e combater a desigualdade de gênero. O evento reuniu talentos de diferentes gerações e origens geográficas para discutir as transformações estruturais na indústria cinematográfica, com foco especial na evolução dos papéis femininos no mercado chinês.

A atriz Cecilia Yip, que iniciou sua carreira na década de 1980 e conquistou reconhecimento internacional com Hong Kong 1941, compartilhou reflexões sobre o início de sua trajetória. Segundo a artista, o ambiente de trabalho da época era marcado por uma objetificação constante das atrizes, frequentemente reduzidas ao termo pejorativo de “vasos de flores”. Para Yip, o cenário atual apresenta uma mudança significativa, com personagens femininas que carregam maior profundidade narrativa e complexidade psicológica, afastando-se dos estereótipos que dominavam as produções de décadas passadas.

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A busca por personagens com camadas e a perseverança na carreira

Ao lado de Yip, a atriz Rebecca Li Manxuan, indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Asian New Talent Awards por sua atuação em Like, Happy, Love, trouxe a perspectiva de uma nova geração. Li enfatizou a importância de confiar no próprio talento e manter a resiliência diante dos desafios iniciais da carreira. Para a atriz, o sucesso não é imediato e pequenos fracassos podem servir como combustível para o aprimoramento profissional, permitindo que as artistas busquem papéis que realmente desafiem suas capacidades interpretativas.

A discussão ocorre em um momento de ascensão para produções centradas em mulheres no cinema da China. O mercado tem registrado sucessos comerciais expressivos, como a comédia Her Story, dirigida por Shao Yihui, que arrecadou US$ 93 milhões, e o fenômeno Hi, Mom, de Jia Ling, que alcançou a marca de US$ 848 milhões em 2021. Esses resultados demonstram que o público tem demonstrado forte interesse por narrativas que exploram a experiência feminina sob novas óticas, algo que também é observado em outros festivais globais, como o Festival de Xangai, que frequentemente abre espaço para debates sobre traumas e mudanças sociais.

Perspectivas globais e o papel da mentoria no cinema

O painel realizado no histórico Cathay Theater também contou com a participação da produtora tunisiana Dora Bouchoucha e da documentarista peruana Carla Gutiérrez. Ambas atuaram como juradas nas categorias de longa-metragem e documentário, respectivamente. A presença de convidadas internacionais reforçou o caráter global da iniciativa da Kering, que desde 2015 colabora com nomes como Michelle Yeoh e Julianne Moore para promover mudanças de mentalidade no setor.

Carla Gutiérrez, aclamada por seu trabalho no documentário Freda, sobre a artista mexicana Frida Kahlo, destacou como a não-ficção permite uma conexão empática profunda entre o espectador e a experiência do outro. A documentarista relembrou o impacto que sentiu ao assistir a obras que a transportaram para realidades distintas, reforçando o poder do cinema como ferramenta de sensibilização social.

Conselhos para a nova geração de cineastas

Ao final do encontro, as quatro convidadas foram questionadas sobre quais conselhos dariam às suas versões mais jovens no início da carreira. A mensagem central foi de coragem e autenticidade. Rebecca Li e Cecilia Yip concordaram que a coragem é o elemento fundamental para enfrentar as incertezas da profissão. Gutiérrez, por sua vez, incentivou as jovens cineastas a serem mais assertivas e “fazerem mais barulho” para garantir que suas vozes sejam ouvidas em um ambiente competitivo.

Encerrando o painel, Dora Bouchoucha reforçou a importância da integridade artística. Segundo a produtora, o segredo para uma carreira sustentável é manter-se fiel a si mesma e evitar a armadilha de tentar agradar a todos os públicos ou estúdios. O evento reafirmou o compromisso do Women in Motion em servir como um espaço de inspiração, onde a troca de experiências entre veteranas e novos talentos contribui para a construção de uma indústria mais equitativa e diversa.

Fonte: THR

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