Festival de Cannes 2026 enfrenta críticas por falta de brilho

A metade do evento francês decepciona críticos e público, enquanto bilheterias globais celebram o sucesso de cinebiografias e novos suspenses.

O Festival de Cannes 2026 atingiu o seu ponto médio sob uma atmosfera de descontentamento. O crítico Steve Pond, em sua avaliação da primeira metade do evento, descreveu o cenário atual como “bastante sem brilho”. A ausência de uma presença robusta de Hollywood, que já havia sido apontada anteriormente, parece ter deixado um vácuo que nem mesmo a seleção internacional conseguiu preencher de forma satisfatória. O sentimento geral entre os frequentadores é de uma falta da tradicional “joie de vivre” que costuma permear a Croisette.

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Destaques e decepções em Cannes

Apesar da recepção morna, alguns títulos conseguiram gerar burburinho. O drama LGBTQ+ “Club Kid”, estrelado por Jordan Firstman, destacou-se por protagonizar a primeira e, até agora, única guerra de lances do festival, culminando em uma aquisição pela A24 por 17 milhões de dólares. Outro ponto de interesse é o drama policial “Paper Tiger”, dirigido por James Gray e com lançamento previsto pela Neon para o final deste ano, que já é visto como um forte candidato para a temporada de premiações. Contudo, a estreia do filme foi marcada por um incidente curioso: a ausência de Scarlett Johansson. Gray tentou, sem sucesso, realizar uma chamada de vídeo com a atriz durante a ovação de pé do público, já que ela está ocupada com as filmagens de “The Exorcist” e, na sequência, com “The Batman: Part II”.

No campo da ficção científica, o longa “Hope”, de Na Hong-jin, foi exibido no último domingo e gerou uma resposta fortemente divisiva, ilustrando a irregularidade da programação deste ano. Enquanto a segunda metade do festival ainda pode trazer surpresas, o clima atual permanece, nas palavras de Pond, “muito monótono”. Além disso, o festival tem servido como palco para discussões sobre o futuro da indústria, com relatos de que muitos cineastas estão começando a abraçar a inteligência artificial como uma ferramenta prática no processo de criação cinematográfica.

Bilheteria global e o fenômeno Michael

Enquanto o clima em Cannes é de incerteza, o mercado cinematográfico global apresenta números expressivos. A cinebiografia “Michael”, dirigida por Antoine Fuqua, retomou o topo das bilheterias após quatro semanas em cartaz. O filme, que narra a vida do Rei do Pop, ultrapassou a marca de 700 milhões de dólares mundialmente, com 282,8 milhões de dólares apenas no mercado doméstico. O sucesso é impulsionado pelo uso estratégico de 1.100 telas Imax e formatos premium, que não estavam disponíveis nas semanas anteriores devido à exclusividade de “The Devil Wears Prada 2”. A expectativa é que o filme receba um novo impulso durante o feriado de Memorial Day, aproximando-se do recorde de 975 milhões de dólares de “oppenheimer” e buscando o título de primeira cinebiografia a atingir 1 bilhão de dólares na história.

Por outro lado, “The Devil Wears Prada 2” sofreu uma queda de 57% em seu terceiro final de semana, mas ainda mantém resultados sólidos. Com 175 milhões de dólares domésticos e 546 milhões de dólares globais, o filme já superou as bilheterias totais de produções da Marvel Studios como “Thunderbolts*”, “Captain America: Brave New World” e “The Fantastic Four: First Steps”.

O sucesso de Obsession e o cenário de terror

O grande destaque entre os recém-chegados é o terror “Obsession”, dirigido por Curry Barker. Com um orçamento modesto de apenas 1 milhão de dólares e adquirido pela Focus Features por 15 milhões de dólares após o festival de Toronto, o filme estreou com 16,1 milhões de dólares. Com uma rara nota A- no CinemaScore e 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, o longa demonstra um excelente boca a boca. O público-alvo, composto por 59% de homens e 75% na faixa etária de 18 a 35 anos, parece ter impactado diretamente o desempenho de “Mortal Kombat II”, que sofreu uma queda de 66% em seu segundo final de semana.

A ascensão dos thrillers na Netflix

A Netflix tem consolidado sua posição ao investir em filmes de ação e suspense de médio orçamento, preenchendo uma lacuna deixada pelos grandes estúdios de Hollywood. Projetos como “The Rip”, de Ben Affleck e Matt Damon, “War Machine”, com Alan Ritchson, o filme de tubarão “Thrash” e o confronto entre Charlize Theron e Taron Egerton em “Apex” têm alcançado números expressivos na plataforma. A estratégia de reviver o blockbuster de classificação indicativa R (para maiores) tem sido um sucesso, atraindo o público que sentia falta desse estilo de produção, comum nas décadas de 1990 e 2000. O jornalista Drew Taylor explorou essa tendência em uma reportagem especial, detalhando como a plataforma tem resgatado esse gênero para o streaming.

Além disso, o cenário de novidades inclui a ressurreição do projeto “Afterworld”, do criador de “Amphibia”, Matt Brawly, que após ser descartado pela Sony, encontrou apoio de investidores tailandeses graças ao engajamento dos fãs com artes conceituais online. Enquanto isso, o mercado aguarda ansiosamente por atualizações sobre o elenco de James Bond, cujas audições foram oficialmente iniciadas, e a expansão do elenco de “The Batman: Part II”, que recentemente adicionou Sebastian Koch e Bryan Tyree Henry.

Fonte: TheWrap