Documentário A Secret Heart retrata jornada de transição familiar

O longa-metragem de estreia de Tom Fontenille explora a transformação de seu pai, Lilou, e a busca por cura e aceitação dentro de uma família francesa.

O documentário A Secret Heart (originalmente intitulado Cœur Secret) faz sua estreia mundial na quinta-feira, 14 de maio, durante o Festival de Cannes. O filme integra a seleção da ACID (Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion), uma das mostras paralelas mais respeitadas do festival, gerida pela associação de cineastas franceses. A obra marca a estreia na direção de longas-metragens de Tom Fontenille, um cineasta de 33 anos que assumiu múltiplas funções na produção, incluindo a cinematografia, além de assinar o roteiro em parceria com Valentine Bonnaz e contar com a edição de Marie Bottois.

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A gênese de um projeto inesperado

A trajetória que levou à criação de A Secret Heart não foi planejada como um exercício cinematográfico convencional. Segundo o próprio Fontenille, o projeto nasceu de uma necessidade urgente de comunicação dentro de seu núcleo familiar. Após a morte de sua mãe, o diretor sentiu que as barreiras emocionais entre ele e seu pai, Lilou, haviam se tornado intransponíveis. O ato de filmar surgiu, inicialmente, como uma ferramenta terapêutica para registrar conversas e tentar processar o luto coletivo. “No início, a ideia não era fazer um filme”, revelou o diretor em entrevista ao The Hollywood Reporter. “Eu queria abordar coisas difíceis na minha família, como a morte da minha mãe, e era realmente complicado me comunicar com meu pai. Comecei a filmar nossas conversas, e ele era, a princípio, muito relutante.”

A dinâmica mudou drasticamente quando Fontenille decidiu compartilhar parte do material bruto com o pai. Para sua surpresa, Lilou não apenas aceitou ser filmado, como expressou admiração pela estética das imagens capturadas. O ponto de virada na narrativa ocorreu quando Tom e sua irmã descobriram roupas femininas no guarda-roupa do pai. Ao confrontarem a situação, a revelação do cross-dressing de Lilou abriu uma nova porta para o documentário. “Quando meu pai viu as imagens, ele me disse: ‘Você pode me filmar quando estou usando roupas femininas também'”, relembrou o diretor. Foi a partir desse momento de vulnerabilidade compartilhada que o projeto ganhou contornos de uma obra cinematográfica estruturada.

Uma metamorfose familiar

A sinopse oficial do filme descreve um arco de transformação profunda: “No espaço de quatro anos, Lilou emergiu do segredo. Ela se tornou uma mulher de 64 anos que gosta de projetos de bricolagem, jardinagem, ciclismo e de passar tempo com seus netos”. O documentário não se limita apenas à transição de gênero de Lilou, mas atua como um espelho de toda a estrutura familiar. A descrição da ACID reforça esse aspecto: “Nesta crônica familiar, cada membro é forçado a reajustar seu lugar e confrontar o que havia permanecido enterrado e escondido. Pouco a pouco, uma metamorfose discreta, porém irreversível, se instala”.

Pauline Ginot, delegada geral da ACID, descreve o filme como uma obra de humildade rara, que consegue transitar entre o melodrama e o épico familiar. “Começamos com uma família de quatro pessoas cujas vidas são colocadas em movimento ao longo de várias linhas narrativas: o luto pela mãe, o pai que passa por uma revolução, inicia uma transição de gênero e, então, arrasta todos consigo”, explica Ginot. O filme documenta, segundo o diretor, uma família que aprende a curar suas feridas e a reinventar o papel de cada indivíduo dentro do grupo.

Produção e distribuição

O longa-metragem foi produzido pela 5A7 Films. A estratégia de distribuição internacional está a cargo da Lightdox, empresa conhecida por representar títulos de prestígio como Gabin e Fiume o morte!. A escolha de exibir o filme na ACID em Cannes sublinha o caráter independente e autoral da obra, que se destaca por sua abordagem crua e honesta sobre a intimidade. Ao documentar essa transformação, Fontenille não apenas registrou a transição de seu pai, mas também a sua própria jornada como filho, tentando compreender e aceitar as mudanças que alteraram permanentemente a configuração de sua família. O filme se apresenta, portanto, como um testemunho de resiliência e um registro histórico de uma mudança de vida que, embora pessoal, ressoa com questões universais de identidade, luto e a contínua necessidade de reinvenção dos laços afetivos em tempos de crise.

Fonte: THR