A gigante de efeitos visuais DNEG anunciou um investimento estratégico na Anima Kitchent, estúdio de animação sediado nas Ilhas Canárias, com o objetivo de consolidar um dos maiores polos de produção audiovisual da Europa. A operação conta com o suporte financeiro da SETT, fundo de capital de risco estatal da Espanha, que destinou 24,9 milhões de euros (aproximadamente 28,8 milhões de dólares) para a iniciativa. O aporte conjunto transforma ambas as entidades em acionistas da Anima Kitchent, com os recursos sendo canalizados por meio da ReDefine Originals, braço de animação e incubadora criativa da DNEG.

Fundada em 2017 em Las Palmas de Gran Canaria, a Anima Kitchent é liderada pelo diretor executivo Angel Molinero e pela gerente de operações Ariana Villalobos. Desde sua criação, o estúdio expandiu sua força de trabalho de uma dúzia de funcionários para uma equipe atual de 170 profissionais. O crescimento é atribuído ao sucesso de produções voltadas ao público pré-escolar, como Cleo & Cuquín, Lea & Pop e Cuquín, esta última desenvolvida para a Warner Bros.. Discovery. A empresa também se destaca pelo uso estratégico do YouTube, plataforma onde acumula mais de 67 milhões de inscritos, servindo como base para o lançamento e a consolidação de suas propriedades intelectuais.
Objetivos de expansão e criação de empregos
O plano de investimento da DNEG e da SETT visa elevar o patamar operacional da Anima Kitchent, com a meta de gerar 275 novos postos de trabalho. Segundo comunicado do Ministério para a Transformação Digital e Função Pública da Espanha, o foco está no desenvolvimento e na produção de longas-metragens originais de alta qualidade, buscando criar valor a longo prazo por meio de suas propriedades intelectuais. O investimento da SETT integra a segunda fase do plano Spain Audiovisual Hub, que possui um orçamento total de 1,7 bilhão de euros, parte integrante do Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência da União Europeia.
A nova estrutura da Anima Kitchent continuará a usufruir dos incentivos fiscais das Ilhas Canárias, que oferecem créditos de 54% a 45% sobre despesas de produção de filmes e séries. O benefício é limitado a 36 milhões de euros por longa-metragem e 18 milhões de euros por episódio de série, abrangendo tanto projetos de animação quanto de efeitos visuais. Além disso, como zona periférica da União Europeia, o arquipélago oferece condições especiais através da ZEC (Zona Especial Canaria), com imposto de renda corporativo de 4% e 7% de IVA, taxas significativamente inferiores aos 25% e 21% praticados na Espanha continental.
Diversificação econômica e o setor audiovisual
Angel Víctor Torres Pérez, ministro de Política Territorial da Espanha, destacou a importância da aposta governamental no setor audiovisual. Segundo ele, embora o turismo e o comércio sejam fundamentais para a economia das Ilhas Canárias, a diversificação é uma necessidade urgente, e o governo espanhol tem direcionado esforços claros para fortalecer a indústria criativa na região. A estratégia busca transformar as ilhas em um polo de referência global para produções de grande escala, aproveitando a infraestrutura e os incentivos fiscais competitivos.
Pablo Hernández, presidente executivo da ZEC, ressaltou que o diferencial da Anima Kitchent reside na combinação de propriedades intelectuais fortes com valores de produção elevados, aliados a uma análise de dados que monitora tendências de audiência em tempo real. Para ele, a capacidade de produzir rapidamente e com alta qualidade é o que permite que essas produções alcancem novos mercados internacionais. O setor de animação nas Ilhas Canárias tem experimentado um crescimento expressivo, saltando de apenas um estúdio em 2018 para mais de 30 empresas operando atualmente na região.
Crescimento do ecossistema nas Ilhas Canárias
O ecossistema local tem atraído nomes de peso da indústria global. Entre os estúdios presentes nas ilhas estão a Fortiche, responsável pela animação de Arcane; a Atlantis Animation, parceira em Leo and the Giants para a Sony-Disney; e a Tomavision, que contribuiu para Space Jam: Um Novo Legado e Merry Little batman, este último uma parceria entre a Warner Bros.. e o Amazon Prime Video. A 3 Doubles Producciones e a Tinglado Films, produtora do longa pré-selecionado ao Oscar Black Butterflies, também compõem o cenário produtivo local.
A finlandesa Gigglebug, produtora dos curtas de 101 Dalmatian Street, também estabeleceu operações no arquipélago. Recentemente, a Surfing Giant, estúdio por trás de Hey A.J.!, da Disney — projeto de Jeff ‘Swampy’ Marsh, Michael Hodges e Scott Parish, diretor de operações da Alcon Entertainment — anunciou a abertura de um novo estúdio na região. Esse movimento de expansão reflete uma tendência de mercado onde estúdios buscam alternativas resilientes e estáveis para a produção de conteúdo, fugindo das instabilidades que afetam outros centros globais de entretenimento.
Estabilidade e atratividade para o mercado global
Para Pablo Hernández, o investimento na Anima Kitchent sinaliza que as Ilhas Canárias se tornaram uma alternativa credível e resiliente para a animação global. Ele descreve a região como um porto seguro contra as disrupções que atingem outros mercados, destacando que a combinação de talentos locais, regulamentação estável e incentivos fiscais competitivos permite que as empresas se adaptem às mudanças nas condições de mercado com maior agilidade. O sucesso de produções como World War II with Tom Hanks demonstra como o streaming tem impulsionado a demanda por conteúdos de alta qualidade, algo que o novo aporte na Anima Kitchent pretende explorar.
O acordo entre a DNEG e a Anima Kitchent foi desenvolvido em conjunto com a SETT e contou com mais de quatro anos de articulação com a ZEC e parceiros como a Proexca-Gobierno de Canarias e os Cabildos insulares. Segundo Hernández, o trabalho de base realizado ao longo dos anos garantiu que, quando a oportunidade surgiu, a DNEG já possuísse um entendimento profundo sobre a capacidade produtiva e as vantagens competitivas que as ilhas poderiam oferecer. O setor, que antes era visto apenas como um destino de filmagem, agora se consolida como um centro de desenvolvimento intelectual e criativo, alinhando-se a movimentos de mercado como o visto em My Adventures with Superman, que busca fôlego antes de novas temporadas. A expectativa é que o investimento não apenas gere empregos, mas também posicione a Espanha como um player central na exportação de animação de alta qualidade para o mercado internacional, reforçando a importância de políticas públicas de incentivo ao setor cultural e tecnológico.
Fonte: Variety