Disney+ prioriza franquias consagradas em vez de produções arriscadas

A estratégia de crescimento do streaming da Disney foca em nostalgia e marcas estabelecidas, limitando o espaço para projetos originais.

O mercado global de entretenimento atravessa um momento de reavaliação profunda. Embora o consumo de conteúdo digital seja uma realidade consolidada, com cerca de 83% da população adulta nos Estados Unidos utilizando ao menos uma plataforma de streaming, o comportamento do assinante mudou. Dados recentes indicam que 40% dos americanos estão adotando uma postura mais seletiva, cortando gastos e cancelando serviços que não consideram essenciais. Nesse cenário de maior cautela, o Disney+ tem conseguido, na pior das hipóteses, manter sua base de assinantes estável ou, conforme apontado pelo relatório fiscal de 2025, apresentar um crescimento moderado. No entanto, essa estabilidade aparente esconde um risco latente para produções que fogem do padrão estabelecido.

A estratégia da nostalgia e o peso das franquias

Diante da pressão por resultados financeiros, um conglomerado do porte da Disney possui dois caminhos distintos. O primeiro seria o investimento em produções arriscadas e inovadoras, capazes de atrair novos assinantes interessados em narrativas inéditas. O segundo, e que tem sido o preferido da companhia, é o retorno ao porto seguro: reboots, remakes, sequências de legados e franquias já consagradas. A história da Disney é marcada por apostas calculadas que, quando bem-sucedidas, são exploradas até a exaustão. Um exemplo clássico é Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, que começou como uma aposta arriscada e, após o sucesso, gerou uma série de sequências que, com o tempo, perderam o vigor original. Atualmente, em vez de buscar algo novo, a empresa opta por retornar a esse universo com um sexto filme.

Essa lógica também se aplica às animações. A adaptação em live-action de The Lion King não foi um risco criativo, mas um sucesso comercial garantido. A Disney tem replicado esse modelo ao revisitar sistematicamente seus clássicos animados. No âmbito do streaming, o Disney+ seguiu o mesmo padrão. Embora WandaVision tenha sido a primeira série do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) na plataforma, ela não representou um risco real, dado o interesse massivo na franquia na época. O problema surgiu quando o serviço se tornou saturado de conteúdos similares. Mesmo quando a empresa tenta algo diferente, como a série Daredevil: Born Again, que possui um tom mais maduro (TV-MA), o sucesso de bilheteria de Deadpool & Wolverine serviu como validação de que havia um mercado para esse tipo de conteúdo, tornando a aposta menos ousada do que parece.

O custo de evitar riscos e o futuro do catálogo

A preferência por marcas conhecidas, como o revival de Malcolm in the Middle, sob o título Malcolm in the Middle: Life’s Still Unfair, demonstra que a Disney busca o caminho de menor resistência. Projetos que geram qualquer tipo de divisão de opinião, como Goosebumps, Willow ou The Acolyte, acabam tendo uma vida curta na plataforma. A lógica é clara: por que investir em algo que pode alienar metade da audiência quando é possível focar em conteúdos que possuem uma base de fãs garantida e potencial de atração de novos usuários? Com a integração crescente do Hulu ao aplicativo principal, existe um receio real entre críticos e analistas de que produções que se beneficiam da separação de marcas, como Shōgun ou Dopesick, acabem sendo diluídas pelo desejo de focar no denominador comum — o conteúdo inofensivo e não divisivo.

O ex-CEO Bob Iger sugeriu que essa é a direção que a empresa pretende seguir para impulsionar o crescimento de assinantes. Contudo, essa estratégia possui uma falha inerente. Embora a história da Disney permita que a nostalgia seja um motor eficaz por um tempo, o que realmente atrai assinantes para plataformas concorrentes, como a Netflix, são ideias originais e arriscadas, a exemplo de Stranger Things. O sucesso de produções originais reside justamente na possibilidade de falha, mas os benefícios superam os riscos. Ao criar um ambiente controlado e previsível, o Disney+ corre o risco de se tornar um destino pouco atraente para criativos, diretores e atores que buscam liberdade artística. A longo prazo, a plataforma pode acabar atraindo apenas talentos dispostos a trabalhar dentro de fórmulas rígidas por um salário, perdendo a capacidade de inovar. Em um mercado onde o consumidor está cada vez mais criterioso sobre quais assinaturas manter, a falta de ousadia pode se tornar um erro estratégico que a Disney lamentará não ter evitado desde o início.

Fonte: Collider