Diego Luna, uma figura central no cenário cinematográfico contemporâneo, tanto como ator quanto como realizador, retorna à cadeira de direção com Ashes, seu quinto longa-metragem. O filme, que tem sua estreia mundial programada para a prestigiada seção de exibições especiais do Festival de Cannes, marca um momento de introspecção na carreira do artista. Adaptando o romance Ceniza en la boca, da escritora Brenda Navarro, o projeto não é apenas um exercício técnico, mas uma exploração profunda sobre a experiência da imigração e o impacto da distância nas relações familiares. A trama acompanha Lucila, uma jovem de 21 anos que deixa o México rumo a Madri, na Espanha, em busca de uma vida melhor e de um reencontro com sua mãe, interpretada por Adriana Paz, que havia migrado anos antes.
Enquanto Luna mantém uma agenda de trabalho intensa em frente às câmeras — tendo estrelado recentemente ao lado de Jennifer Lopez no filme Kiss of the Spider Woman, liderado a aclamada e premiada série Andor, do universo Star Wars, e garantido um papel na adaptação live-action de Tangled, da Disney —, ele faz questão de reservar espaço para projetos que permitam uma narrativa mais íntima e autoral. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, o cineasta explicou que a motivação para realizar Ashes surgiu de uma mistura de preocupações universais sobre o debate polarizado em torno da imigração e de uma conexão pessoal inegável com os temas centrais do livro de Navarro.
A conexão pessoal e a visão de direção
Ao ser questionado sobre o que o atraiu especificamente para a obra de Brenda Navarro, Luna revela que a leitura foi um divisor de águas. O cineasta compartilha que, na época em que leu o livro, seu filho tinha 14 anos, o que o fez refletir sobre a complexidade da jornada de Lucila. Para Luna, abordar a migração sob o ângulo da protagonista é uma escolha narrativa necessária, especialmente considerando o contexto atual do México e sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, uma fronteira que define grande parte do cenário geopolítico e social do país. O diretor enfatiza que, ao adaptar o livro, tomou a decisão consciente de centralizar toda a narrativa na perspectiva de Lucila, focando na lacuna deixada pela ausência dos pais durante anos cruciais do desenvolvimento de um jovem.
Essa escolha narrativa possui raízes profundas na própria biografia de Diego Luna. O diretor perdeu sua mãe quando tinha apenas dois anos de idade e foi criado pelo pai, que dedicou sua vida ao teatro. Luna traça um paralelo interessante entre a sua infância e a trama do filme: para ele, a Espanha, destino da protagonista, representa o mesmo papel que o teatro representou em sua vida — algo que, embora fascinante, era o elemento que mantinha seu pai fisicamente distante. Essa carga emocional é o que confere a Ashes uma camada de autenticidade que transcende o roteiro original.
O processo de elenco e a química em cena
A escolha de Anna Díaz e Adriana Paz para os papéis principais foi um processo meticuloso. Luna, que já havia trabalhado com Adriana Paz no filme Rudo y Cursi, conhecia bem a força interpretativa da atriz. No entanto, a busca pela intérprete de Lucila foi exaustiva. Após analisar centenas de opções de talentosas atrizes mexicanas, o nome de Anna Díaz surgiu através do diretor de elenco, que a havia visto no filme La Cocina, de 2024. Luna admite que, embora já tivesse considerado a atriz, insistiu em um processo rigoroso de testes. O momento decisivo ocorreu quando ele reuniu Adriana, Anna e parte da equipe de produção para uma leitura de cena. A carga emocional foi tamanha que todos os presentes foram às lágrimas, confirmando que a dinâmica entre as duas atrizes era exatamente o que o filme precisava.
Reflexões sobre o passado e o cinema independente
A entrevista também tocou em temas sensíveis, como o filme Cesar Chavez, dirigido por Luna em 2014. O longa, que narra a vida do líder dos direitos civis, tornou-se alvo de discussões recentes após surgirem acusações de abuso sexual contra Chavez. Luna não se esquivou da pergunta, expressando um sentimento de devastação, confusão e profunda tristeza. Ele destacou que o impacto dessas revelações é particularmente doloroso devido ao que o movimento liderado por Chavez representa para a comunidade e para as vidas que foram transformadas por suas conquistas. O diretor admitiu que é difícil processar essas informações, especialmente tendo dedicado tanto tempo de sua vida para contar a história desse ativista.
Ao celebrar os 25 anos do icônico Y Tu Mamá También, Luna refletiu sobre como o cinema independente mudou desde então. Para o cineasta, o cinema que ele mais valoriza é aquele que celebra a perspectiva individual e mantém um ponto de vista claro, independentemente do orçamento. Ele argumenta que o “drive” independente não está atrelado ao tamanho da produção, mas à motivação por trás do projeto. Seja em uma animação, em uma superprodução de grande escala ou em um filme pequeno, Luna busca manter esse espírito autoral. Ele defende que esse tipo de cinema é urgente e necessário, sendo a forma mais poderosa de conexão com o público. O diretor reafirma seu compromisso em defender esses espaços de criação, garantindo que, mesmo em seus trabalhos de maior visibilidade, como a série Andor, ele busca preservar essa essência que o move desde o início de sua carreira. Em última análise, Ashes é o reflexo desse desejo de Luna de continuar contando histórias que desafiem o espectador e promovam uma reflexão sobre a condição humana em um mundo em constante mudança.
Fonte: THR