O lendário designer de produção Dean Tavoularis, que faleceu aos 93 anos, deixou uma marca indelével na história do cinema. Sua carreira, que começou com a infância como filho de imigrantes gregos durante a Grande Depressão, passou pela Segunda Guerra Mundial e pela década de 1950 como animador e diretor de arte assistente na Walt Disney, culminou no design de obras-primas como Bonnie and Clyde, a trilogia O Poderoso Chefão e Apocalypse Now.

As conversas com Tavoularis, que detalham sua vida e carreira, foram compiladas em um livro. O material mescla as reflexões de Dean com as de colaboradores renomados como Francis Ford Coppola, Warren Beatty, o diretor de fotografia Vittorio Storaro e a figurinista Milena Canonero, todos com grande estima pelo artista.
O Processo Criativo de um Mestre
Tavoularis converteu um apartamento em Paris em seu estúdio, onde trabalhou em seu último filme, Carnage, de Roman Polanski. A obsessão por detalhes era notável: todos os móveis e eletrodomésticos do set de Carnage foram enviados dos EUA e instalados, com o set sendo completamente refeito para acomodar circuitos americanos, tudo por causa de uma cena em que um secador de cabelo poderia ser usado.
“O trabalho é aproximadamente 20% criatividade e 80% logística”, afirmou Tavoularis, enfatizando que a ideia só é boa quanto sua execução. Suas ideias definiram seu trabalho, tornando-o um artista conceitual cujas criações visuais, grandes e pequenas, marcaram uma mudança significativa no cinema americano, transitando da ilusão para o realismo.
Da Ilusão ao Realismo: A Revolução de Tavoularis
Ao iniciar sua carreira como designer de produção em Bonnie and Clyde, Tavoularis buscou desfazer a artificialidade vista em produções anteriores. O filme foi rodado em locações reais, e os interiores foram projetados para parecer autênticos, com tetos baixos para criar uma sensação de claustrofobia nos personagens.
A colaboração com Francis Ford Coppola resultou em 13 longas-metragens, onde Tavoularis não apenas transformou visões em realidade, mas também trouxe sua própria perspectiva através de pesquisa intensiva, atenção impecável aos detalhes e experimentação. Um exemplo marcante são as explosões em câmera lenta no final de Zabriskie Point, que ilustraram as liberdades cinematográficas da Nova Hollywood.
Detalhes Invisíveis que Moldam a Narrativa
Tavoularis acreditava que o papel do designer de produção se estendia a elementos que o público nunca veria diretamente. Para A Conversação, de Coppola, ele inscreveu o personagem principal em dezenas de periódicos, colocando alguns em gavetas do set. Embora a câmera não focasse nesses detalhes, a intenção era que isso impactasse o ator Gene Hackman.
Em The Brink’s Job, de William Friedkin, o departamento de arte espalhou alho e orégano pelo chão do mercado italiano para que o local cheirasse a um estabelecimento real, não a um set de filmagem. Ele também sugeria adicionar itens nos bolsos dos figurinos, como um rolo de antiácido ou chaves pesadas, para dar mais realismo aos personagens nervosos.
Esses conceitos engenhosos, muitas vezes imperceptíveis, demonstram como artistas podem impactar filmes de diversas maneiras. Tavoularis, com sua personalidade forte e métodos de trabalho, deixou um legado que continua a influenciar o cinema, lembrando que os melhores filmes nos infiltram e permanecem conosco muito depois de assistidos.

Fonte: THR