Documentário Colors of White Rock estreia no Tribeca Festival

Documentário de Khoroldorj Choijoovanchig acompanha a rotina de motoristas no deserto de Gobi e reflete sobre os impactos da mineração na Mongólia.

O documentário Colors of White Rock, dirigido por Khoroldorj Choijoovanchig, faz sua estreia mundial no Tribeca Festival no domingo, 7 de junho, integrando a competição oficial de documentários. A obra oferece um olhar imersivo sobre a realidade dos caminhoneiros que operam no deserto de Gobi, na Mongólia, enfrentando condições de trabalho exaustivas em uma rota perigosa rumo à fronteira com a China. O filme destaca a trajetória de Maikhuu, uma das poucas mulheres em um setor predominantemente masculino, que atua como motorista de caminhão para garantir o futuro financeiro de seus filhos.

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A produção explora o fenômeno conhecido localmente como Minegolia, termo que descreve a transformação do país após a abertura de suas minas no deserto para exploração internacional. O cenário é marcado por longos comboios de caminhões que transportam carvão, criando uma imagem que o diretor descreve como uma serpente de metal que serpenteia pela paisagem árida. A narrativa não se limita apenas ao registro visual, mas busca compreender as motivações e o desgaste físico dos profissionais envolvidos, que muitas vezes trabalham em condições precárias e sem acesso adequado a serviços de saúde.

Bastidores e desafios de uma produção de sete anos

O projeto de Colors of White Rock enfrentou um longo processo de desenvolvimento, estendendo-se por sete anos até sua conclusão. O diretor Khoroldorj Choijoovanchig recorda que a ideia surgiu a partir de um curta-metragem de nove minutos, produzido inicialmente como material promocional para empresas de mineração. Ao observar a imensidão da fila de caminhões através de imagens de drone, o cineasta sentiu-se inspirado a documentar a vida daqueles motoristas, que ele descreve como pessoas apaixonadas pelo trabalho, mas exaustas pela rotina intensa.

A colaboração com a produtora executiva Chantal Perrin foi fundamental para dar forma ao longa-metragem. Perrin destaca a personalidade de Maikhuu, descrevendo-a como uma mulher corajosa, inteligente e astuta, cujas características pessoais ajudaram a humanizar a narrativa. O desafio técnico foi considerável, envolvendo a edição de mais de 600 horas de material bruto. A equipe passou por diversas versões de montagem, sendo a 45ª a escolhida para a versão final exibida no festival. O processo também foi impactado pelos desafios logísticos impostos pela pandemia de COVID-19.

O impacto social e ambiental da mineração na Mongólia

Além da jornada individual de Maikhuu, o documentário aborda as consequências políticas e ambientais da exploração de recursos naturais na Mongólia. O carvão é o principal produto de exportação do país, gerando renda significativa, mas o custo humano e ecológico é elevado. Perrin enfatiza que seu interesse pelo projeto surgiu justamente pela preocupação com a exploração ambiental e os direitos humanos, temas que ela considera universais e presentes em diversas partes do mundo onde a extração de recursos causa danos irreversíveis.

O filme também contextualiza o êxodo rural que ocorre no país, onde nômades e pastores, afetados por desastres naturais e secas, são forçados a abandonar o estilo de vida tradicional para buscar emprego nas minas. Esse deslocamento social é um dos pilares da narrativa, que busca dar visibilidade a uma população que muitas vezes é ignorada pelos centros de decisão. Assim como em produções que exploram a resiliência humana em condições extremas, como visto em Jason Momoa explora restauração de motos em On the Roam na HBO Max, o documentário foca na força de seus personagens diante de um sistema complexo.

Uma metáfora sobre a geopolítica regional

Para Choijoovanchig, a história de Maikhuu e dos caminhoneiros é uma metáfora da própria situação da Mongólia no cenário global. O país, que busca consolidar sua democracia e economia de mercado desde a década de 1990, encontra-se geograficamente pressionado entre dois vizinhos autoritários: a Rússia e a China. Embora a nação tente manter sua soberania e liberdade, sua dependência econômica dos recursos minerais a mantém fortemente atrelada a essas potências, criando uma tensão constante que permeia a vida de seus cidadãos.

O cineasta expressa a esperança de que o documentário possa sensibilizar os tomadores de decisão e contribuir para a melhoria das condições de trabalho dos motoristas. Ele reforça que, como cineasta, sua abordagem é sempre focada no aspecto humano, tratando as histórias como universais, independentemente de sua origem local ou estrangeira. A recepção da obra no Tribeca Festival é vista como uma oportunidade de levar essa discussão para um público internacional, ampliando o debate sobre os custos reais do desenvolvimento econômico em nações ricas em minerais.

A produção contou com o trabalho de Tessa Louise Salomé e Luc Sorrel na produção, além de Kate Kennelly na coautoria do roteiro. A edição ficou a cargo de Simon Le Berre, enquanto as vendas internacionais estão sob responsabilidade da MetFilm Sales. O documentário se posiciona como um registro necessário sobre as tensões entre tradição e modernidade, exploração e sobrevivência, em um dos cenários mais inóspitos e fascinantes do mundo contemporâneo.

A trajetória de Maikhuu, em particular, serve como um fio condutor que conecta o espectador a uma realidade distante, mas cujas implicações éticas ressoam globalmente. Ao acompanhar a rotina da motorista, o público é convidado a refletir sobre o impacto das escolhas de consumo e a responsabilidade das nações na preservação de modos de vida tradicionais. A obra de Choijoovanchig não oferece respostas fáceis, mas propõe um diálogo urgente sobre o futuro de um país que tenta equilibrar suas aspirações democráticas com as pressões de um mercado globalizado e exigente.

A narrativa visual, marcada pela vastidão do deserto de Gobi e pela dureza do trabalho nas minas, reforça o tom contemplativo e, ao mesmo tempo, crítico do documentário. A escolha de focar em uma protagonista feminina em um ambiente hostil adiciona uma camada de complexidade à história, destacando a resiliência e a determinação necessárias para navegar em um setor que, historicamente, excluiu a participação de mulheres. O filme, portanto, não é apenas um registro de uma profissão, mas um retrato de uma luta por dignidade e reconhecimento em um cenário de constantes mudanças políticas e econômicas.

Ao final, Colors of White Rock se estabelece como uma obra que transcende o gênero documental, funcionando como um ensaio sobre a condição humana e as forças que moldam o destino de nações inteiras. A expectativa é que a exibição no Tribeca Festival abra portas para uma distribuição mais ampla, permitindo que a história de Maikhuu e o contexto da Mongólia alcancem audiências diversas, interessadas em narrativas que desafiam o status quo e provocam reflexões profundas sobre o mundo em que vivemos.

Fonte: THR