Clint Eastwood marca o fim da era de ouro dos filmes de faroeste

O lançamento de O Estranho que Nós Amamos em 1976 consolidou o declínio do gênero, que perdeu força diante de novos blockbusters e fracassos de bilheteria.

Em 1976, Clint Eastwood realizou um feito cinematográfico tão grandioso que, paradoxalmente, parece ter selado o destino do gênero faroeste. Embora Eastwood não tenha produzido uma quantidade tão vasta de filmes do gênero quanto lendas como John Wayne, suas contribuições são inegavelmente pilares da história do cinema. A trilogia Dollars, dirigida pelo visionário Sergio Leone, foi fundamental para reinventar o faroeste em um momento em que o estilo corria o risco de se tornar obsoleto, estabelecendo o personagem “Homem Sem Nome” como um ícone cultural imortal.

heaven s gate 3

As incursões de Eastwood no gênero foram marcadas por uma subversão deliberada dos tropos que sustentavam os faroestes americanos tradicionais. Seus anti-heróis não possuíam a bússola moral inabalável dos mocinhos de outrora; eles mentiam, roubavam e disparavam contra seus oponentes pelas costas sem qualquer hesitação. Essa representação crua e cínica do Velho Oeste causou um desconforto profundo em figuras da velha guarda. É notório que John Wayne, o maior símbolo do gênero, recusou-se categoricamente a trabalhar com Eastwood, expressando um profundo desdém pela violência gráfica e pelo cinismo moral exibidos em High Plains Drifter (1973).

O Estranho que Nós Amamos: O último suspiro de glória

Dentre toda a sua filmografia, The Outlaw Josey Wales, lançado no Brasil como O Estranho que Nós Amamos, ocupa um lugar especial. Eastwood não apenas interpretou o papel principal, mas também assumiu a cadeira de diretor. A trama acompanha um pistoleiro movido por vingança que, durante sua fuga desesperada de caçadores de recompensas, acaba formando, de maneira inesperada, uma nova família ao seu redor. Graças a um roteiro primoroso e à direção precisa de Eastwood, o filme é amplamente considerado um dos melhores faroestes de sua era.

Clint Eastwood como Josey Wales no filme de 1976
Clint Eastwood interpreta o protagonista em O Estranho que Nós Amamos, um marco do gênero.

O sucesso financeiro foi estrondoso: o filme arrecadou cerca de 31,8 milhões de dólares mundialmente, o que representou aproximadamente dez vezes o seu orçamento inicial de produção. Mesmo que críticos da época fossem por vezes reticentes quanto às habilidades de Eastwood como cineasta e ator, o filme recebeu aclamação quase universal do público. É importante notar que O Estranho que Nós Amamos foi o último sucesso comercial genuíno do faroeste na década de 1970. Embora The Shootist, o filme de despedida de John Wayne, tenha tido um desempenho modesto em 1976, ele não conseguiu alcançar o impacto cultural e financeiro da obra de Eastwood. Após esse período, o gênero entrou em um declínio acentuado, e o próprio Eastwood optou por um longo hiato longe das selas.

O declínio e a sombra de Heaven’s Gate

Entre 1977 e 1980, o cenário para os entusiastas do faroeste tornou-se desolador. Tentativas de revitalização, como o esquecido prelúdio Butch and Sundance: The Early Days ou Goin’ South, estrelado por Jack Nicholson, falharam em conquistar o público. A situação foi agravada pela mudança drástica no gosto dos espectadores. Em 1977, o lançamento de Star Wars, somado ao sucesso avassalador de Jaws (Tubarão) dois anos antes, estabeleceu um novo paradigma para o entretenimento, fazendo com que os faroestes parecessem relíquias de um passado distante.

O golpe de misericórdia para o gênero veio em 1980 com Heaven’s Gate. O épico de Michael Cimino, que vinha do sucesso de O Franco Atirador, tornou-se um desastre lendário. Com um orçamento que disparou para 40 milhões de dólares devido ao perfeccionismo obsessivo do diretor — que chegava a interromper filmagens por horas esperando uma nuvem específica —, o filme fracassou miseravelmente nas bilheterias e nas críticas. O prejuízo foi tão severo que levou a lendária produtora United Artists à falência. Esse evento convenceu Hollywood de que o público havia perdido o interesse definitivo pelo Velho Oeste, resultando em uma escassez quase total de novas produções do gênero durante toda a década seguinte. Vale mencionar, contudo, que o legado de Josey Wales continuou a circular, inclusive através de uma sequência de 1986 intitulada The Return of Josey Wales, dirigida e estrelada por Michael Parks, sem qualquer envolvimento de Clint Eastwood. Enquanto Eastwood eventualmente retornaria ao gênero com o aclamado Os Imperdoáveis (Unforgiven), ele sempre reconheceu que O Estranho que Nós Amamos permanece como o filme sobre o qual ele é questionado com maior frequência, consolidando-o como o último grande marco de uma era que se encerrava.

Fonte: ScreenRant