Clarissa adapta Mrs. Dalloway para Lagos com Sophie Okonedo

O novo longa dos irmãos Esiri transporta a obra clássica de Virginia Woolf para a Nigéria contemporânea, explorando memória e desigualdade social.

A literatura de Virginia Woolf, notória por seu estilo de fluxo de consciência e perspectivas fragmentadas, sempre representou um desafio monumental para o cinema. O romance Mrs. Dalloway, em particular, é uma obra sedutora, porém complexa, que viu poucas tentativas de adaptação bem-sucedidas ao longo das décadas. Marleen Gorris tentou capturar sua essência em 1997, com Vanessa Redgrave no papel principal e Rupert Graves como o trágico Septimus, mas o resultado foi considerado instável. Posteriormente, o universo de Woolf foi revisitado através de obras inspiradas em sua escrita, como o aclamado As Horas, de Michael Cunningham, além de diversas montagens teatrais que surgiram e desapareceram do cenário cultural. Agora, os cineastas Arie e Chuko Esiri, os irmãos gêmeos responsáveis pelo drama aclamado pela crítica Eyimofe, apresentam sua própria tradução cinematográfica: Clarissa.

Clarissa Neon
Clarissa Neon

Estreando na prestigiada seção Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, Clarissa surge como uma interpretação fascinante e necessária. O filme não se limita a uma transposição literal, mas realiza um exercício de deslocamento geográfico e temporal, movendo a ação do romance original da Londres dos anos 1920 para a Lagos dos dias atuais. A protagonista, interpretada com uma contenção magnética por Sophie Okonedo, é uma mulher da sociedade nigeriana cujas preocupações diárias são moldadas pela realidade urbana local. Ela se vê constantemente envolvida pelo tráfego infame de Lagos, pelas dinâmicas complexas com seus funcionários domésticos e, acima de tudo, por memórias vívidas de verões passados, onde o debate sobre a democracia na Nigéria e as prioridades intelectuais e políticas de uma nação em desenvolvimento ocupavam o centro de sua juventude.

O filme conta com um elenco de peso, incluindo Ayo Edebiri, David Oyelowo, India Amarteifio, Toheeb Jimoh e Fortune Nwafor. A narrativa, escrita por Chuko Esiri, encontra em Septimus — interpretado por Fortune Nwafor, uma verdadeira revelação — um de seus pontos mais pungentes. Nesta versão, Septimus é um oficial militar fora de serviço que acaba de retornar do combate contra o grupo insurgente Boko Haram no norte do país. O personagem trava uma batalha interna constante para afastar os pensamentos sobre o conflito, que assola a região desde 2009, tentando desesperadamente ancorar-se em sua realidade presente, marcada por um casamento feliz com Aisha, uma respeitada costureira muçulmana interpretada por Modesinuola Ogundiwin.

Os irmãos Esiri combinam esse novo arcabouço narrativo com um registro poético que tem se tornado uma marca registrada de seu cinema desde a estreia de seu primeiro longa em Berlim, há seis anos. Clarissa abraça a gramática cinematográfica contemporânea, alinhando-se a cineastas que exploram a linguagem fragmentada da memória, como Raven Jackson em All Dirt Roads Taste of Salt, Savannah Leaf em Earth Mama, RaMell Ross em Nickel Boys e, mais recentemente, Akinola Davies Jr. em My Father’s Shadow. Assim como nessas obras, o filme de Esiri se deleita na subjetividade das lembranças, utilizando a cinematografia de Jonathan Bloom — capturada em película de 35mm — para criar uma textura visual que ressoa com o texto original de Woolf. A edição disciplinada de Blair McClendon encontra rimas visuais e ecos emocionais, como em closes detalhistas de um lábio tocando um joelho ou o som melancólico de um pássaro martim-pescador em um galho, elementos que conferem uma profundidade sensorial à obra.

A trilha sonora composta por Kelsey Lu atua como um fio condutor espectral, costurando essas imagens e reforçando a qualidade onírica do filme. A estrutura narrativa de Clarissa começa de forma distinta do romance de Woolf. Embora os Esiri eventualmente cheguem à icônica cena das flores, eles optam por abrir o filme com a imagem de uma jovem Clarissa, interpretada por India Amarteifio — conhecida por seu papel em Queen Charlotte: A Bridgerton Story —, estabelecendo desde o início o tom de uma obra que olha para o passado como uma lente para entender o presente. Com uma duração de duas horas e sete minutos, o filme se consolida como uma revelação silenciosa, um estudo de personagem que, ao transpor o clássico para o contexto nigeriano, não apenas honra a obra de Woolf, mas a expande, revelando novas camadas sobre a condição humana, o trauma e a persistência da memória em uma sociedade em constante ebulição.

A escolha de Sophie Okonedo para o papel principal é um dos maiores trunfos da produção. Sua habilidade em transmitir a complexidade interna de uma mulher que tenta manter a compostura em meio ao caos de Lagos, enquanto é assombrada por ideais políticos de sua juventude, confere ao filme uma gravidade emocional que sustenta a proposta dos diretores. A interação entre a vida privada e as pressões sociais, um tema central na obra de Woolf, é aqui amplificada pela realidade de uma metrópole vibrante e desigual. O filme consegue, através de sua montagem e fotografia, transformar o cotidiano em algo quase mítico, onde cada gesto, cada interação e cada memória possuem um peso existencial. A transição entre o passado e o presente é feita com uma fluidez que desafia a linearidade, permitindo que o espectador mergulhe na psique de Clarissa e Septimus de maneira profunda e ininterrupta.

Ao final, Clarissa se apresenta não apenas como uma adaptação literária, mas como um diálogo entre épocas e culturas. Ao situar a história na Nigéria, os irmãos Esiri convidam o público a refletir sobre como as questões de classe, gênero e trauma nacional são universais, mas profundamente moldadas pelo contexto local. É um filme que exige atenção aos detalhes, recompensando o espectador com uma experiência estética e intelectualmente rica, reafirmando o talento dos diretores em capturar a essência da experiência humana através de uma lente cinematográfica única e profundamente sensível.

Fonte: THR