Cineastas independentes da Índia criam coletivo para o setor

Grupo formado por mais de 120 profissionais busca superar barreiras de distribuição e visibilidade em salas de cinema e plataformas de streaming.

Mais de 120 cineastas e produtores da Índia uniram forças para fundar a Independent Filmmakers Assn. of India (IFAI), um coletivo sem fins lucrativos projetado especificamente para melhorar o acesso às salas de exibição, otimizar caminhos de distribuição e aumentar a visibilidade de produções autorais em plataformas de streaming. A organização fez sua estreia pública formal durante o prestigiado Festival de Cinema de Cannes, onde o ator e produtor Anshuman Jha e o cineasta Devashish Makhija representaram o corpo diretivo para anunciar a criação da entidade.

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Cena do filme Agra
O filme Agra, de Kanu Behl, serviu como catalisador para a criação do coletivo.

O que você precisa saber

  • O coletivo IFAI conta com mais de 120 membros fundadores e colaboradores.
  • A organização foca em pilares como advocacy, políticas públicas, mentoria e desenvolvimento de público.
  • O grupo surgiu como resposta direta a falhas estruturais na distribuição de filmes independentes no mercado indiano.
  • A associação é democrática e orientada pelos próprios membros.

Motivações e objetivos do coletivo

A fundação da IFAI foi impulsionada, em grande parte, pelas dificuldades enfrentadas pelo diretor Kanu Behl com o lançamento de seu filme “Agra” no final de 2025. Embora a obra tenha estreado com sucesso no Festival de Cannes em 2023 e recebido apoio crítico significativo, o filme enfrentou obstáculos severos no mercado doméstico, sendo alocado em um número extremamente limitado de sessões e recebendo pouco suporte de exibição. Para os cineastas envolvidos, esse caso não foi um incidente isolado, mas sim um sintoma claro de falhas estruturais mais profundas que assolam o cinema independente na Índia.

Em um comunicado conjunto, os membros fundadores revelaram que o projeto começou de forma orgânica, a partir de conversas informais em grupos de mensagens. O que inicialmente era um diálogo entre poucos cineastas transformou-se em um movimento de larga escala. Eles concluíram que, no cenário atual, os filmes independentes indianos frequentemente sobrevivem apesar do sistema, e não por causa dele. A necessidade de uma voz coletiva tornou-se, portanto, uma questão de sobrevivência profissional e artística. A IFAI foi estruturada para atuar através de grupos de trabalho dedicados, que abordarão temas cruciais como advocacy, exibição, distribuição, políticas públicas, mentoria e desenvolvimento de audiência.

Diversidade e representatividade no conselho

O conselho fundador da associação reflete uma ampla seção transversal da paisagem do cinema de arte da Índia. Entre os nomes confirmados que compõem o grupo estão diretores renomados como Aarti Kadav, conhecida por “Cargo” e “Mrs.”; Alankrita Shrivastava, de “Lipstick Under My Burkha” e “Dolly Kitty Aur Woh Chamakte Sitare”; Anshuman Jha, de “Lord Curzon Ki Haveli” e “Lakadbaggha”; Bauddhayan Mukherji, de “The Violin Player” e “Manikbabur Megh”; Devashish Makhija, de “Joram”; Harsh Agarwal, de “Nasir” e “Rapture”; Honey Trehan, de “A Death in the Gunj” e “Punjab ’95”; Kanu Behl, de “Titli” e “Agra”; Parth Saurabh, de “Pokhar Ke Dunu Paar”; Ruchi Narain, de “Kal” e “Hanuman Da Damdaar”; e Sudhanshu Saria, de “Loev” e “Ulajh”. A adesão ao coletivo também conta com figuras de grande prestígio, como Nandita Das e Abhay Deol.

Além da defesa de interesses e do lobby por políticas públicas, a IFAI planeja implementar workshops, programas de mentoria e iniciativas comunitárias voltadas para novos talentos. A associação está aberta a diretores e produtores em todos os estágios de suas carreiras, buscando criar um ecossistema onde cineastas não se sintam isolados ao desenvolverem obras de caráter profundamente pessoal. A ideia é compartilhar recursos, conhecimentos técnicos e experiências coletivas sobre marketing, distribuição e construção de público, pois, como defendem os fundadores, o cinema independente na Índia só poderá crescer se os cineastas crescerem juntos.

O futuro do cinema independente

A formação da IFAI representa um dos esforços coletivos mais organizados da história recente do cinema indiano. Em um momento em que as janelas de exibição nos cinemas estão cada vez mais curtas e o mercado de streaming se mostra mais cauteloso e seletivo, a união dos cineastas surge como uma estratégia vital de sobrevivência e crescimento. Kanu Behl enfatizou que o cinema independente é o espaço onde novas vozes, novas formas narrativas e verdades desconfortáveis emergem primeiro, sendo essencial proteger esse ambiente para a próxima geração de experimentação cinematográfica.

Alankrita Shrivastava expressou sua preocupação com o encolhimento do espaço para filmes de espírito independente e alternativo, destacando que essa tendência é um incômodo crescente para a classe artística. O coletivo pretende, portanto, consolidar uma voz unificada para enfrentar os desafios de um mercado em constante transformação, garantindo que o cinema autoral continue a ter um lugar de destaque na cultura indiana. Ao focar na educação e na colaboração, a IFAI espera não apenas resolver problemas imediatos de distribuição, mas também pavimentar o caminho para um futuro onde a diversidade criativa seja valorizada e protegida por estruturas sólidas e democráticas.

A iniciativa marca um ponto de virada importante, onde a classe artística decide tomar as rédeas de seu próprio destino, movendo-se da frustração individual para a ação coletiva estruturada. Com o apoio de nomes influentes e uma agenda clara, a IFAI se posiciona como um interlocutor necessário entre os criadores de conteúdo e os grandes players do mercado de exibição e streaming, buscando um equilíbrio mais justo para o cinema independente indiano.

Fonte: Variety