O lendário músico Bruce Springsteen protagonizou um momento de intensa carga política durante sua participação no penúltimo episódio do The Late Show with Stephen Colbert, exibido em 20 de maio de 2026. Em uma aparição que misturou desabafo pessoal e performance artística, o cantor não hesitou em tecer críticas contundentes tanto ao ex-presidente Donald Trump quanto aos novos proprietários da Paramount Global, Larry Ellison e David Ellison. O ambiente no estúdio, marcado pela proximidade do encerramento definitivo da atração, serviu como palco para uma reflexão sobre a liberdade de expressão e o papel da sátira política no cenário midiático atual dos Estados Unidos.

O contexto controverso do encerramento do programa
A decisão de cancelar o The Late Show tem sido alvo de intensas especulações e debates públicos. O anúncio do fim do programa ocorreu em um momento estratégico, apenas algumas semanas antes da formalização da aquisição da Paramount Global, empresa controladora da emissora, pelos magnatas Larry e David Ellison. A coincidência temporal entre a mudança de comando corporativo e o fim do programa de Colbert gerou desconfiança entre telespectadores e críticos da indústria televisiva.
Donald Trump, que foi um alvo recorrente e ácido das sátiras de Stephen Colbert ao longo dos anos, não escondeu sua satisfação com o desfecho da atração. Em uma publicação na plataforma Truth Social, o ex-presidente celebrou abertamente a notícia, declarando: “Eu absolutamente amo que Colbert tenha sido demitido. O talento dele era ainda menor do que sua audiência. Ouvi dizer que Jimmy Kimmel é o próximo. Ele tem ainda menos talento que Colbert!”. Essa declaração pública de Trump apenas reforçou a narrativa de que o cancelamento estaria atrelado a pressões políticas e a uma tentativa de silenciar vozes críticas ao seu governo.
A manifestação de Bruce Springsteen
Durante a entrevista, Bruce Springsteen assumiu uma postura de defesa direta ao apresentador. O músico afirmou categoricamente que Stephen Colbert é o primeiro profissional na América a perder seu programa por ter um presidente que, segundo o artista, é incapaz de aceitar uma piada. A fala de Springsteen ressoou como uma crítica à fragilidade da tolerância política no país.
O cantor foi além e direcionou sua indignação aos novos proprietários da rede, os Ellison. Springsteen acusou os empresários de agirem por submissão política, sugerindo que o cancelamento do programa seria uma forma de “beijar a mão” de Trump para obter vantagens estratégicas. “Stephen, essas são pessoas de mente pequena. Eles não têm ideia do que as liberdades deste país deveriam significar”, declarou o músico, em um momento que foi amplamente aplaudido pela plateia presente no Ed Sullivan Theater.

Performance, resistência e o legado da reta final
A participação de Springsteen não se limitou ao discurso. O artista apresentou sua nova e sombria canção, intitulada “Streets of Minneapolis”. A performance foi visualmente carregada, com a projeção da bandeira americana contra uma parede de tijolos, intercalada por palavras de ordem como “RESISTÊNCIA”, “VERDADE” e “ESPERANÇA”. A letra da música é uma denúncia explícita de abusos de poder, mencionando a atuação de forças federais e criticando diretamente figuras políticas como Kristi Noem e Stephen Miller. Em um trecho, o cantor entoa: “Os capangas federais de Trump espancaram seu rosto e seu peito, então ouvimos os tiros e Alex Pretti jazia morto na neve. A alegação deles foi legítima defesa, senhor, apenas não acredite nos seus olhos. É nosso sangue e ossos e esses apitos e telefones contra as mentiras sujas de Miller e Noem”.
Este momento emblemático faz parte de uma série de participações marcantes na reta final do The Late Show. O programa tem servido como um espaço de despedida combativa. Anteriormente, o antecessor de Colbert, David Letterman, protagonizou uma cena simbólica ao jogar móveis do telhado do Ed Sullivan Theater sobre o logotipo da CBS. Da mesma forma, o ator Robert De Niro utilizou seu tempo no palco para questionar publicamente o ex-presidente sobre o paradeiro de arquivos confidenciais relacionados ao caso Jeffrey Epstein. Essas participações demonstram que, mesmo diante do cancelamento iminente, a equipe do programa e seus convidados optaram por utilizar o tempo restante para reafirmar suas posições políticas e desafiar as narrativas oficiais, consolidando o encerramento do programa como um evento de resistência cultural e política contra as pressões exercidas pela nova gestão da Paramount e pelo próprio ex-presidente Donald Trump.
A atmosfera no estúdio durante a última semana do programa foi descrita como uma mistura de melancolia e desafio. Ao dar voz a artistas de renome como Springsteen e De Niro, Colbert conseguiu transformar o fim de sua jornada na CBS em um manifesto sobre a importância da liberdade de imprensa e o perigo da autocensura corporativa em tempos de polarização extrema. A repercussão dessas falas nas redes sociais e na imprensa especializada indica que o legado do programa, especialmente em seus momentos finais, continuará sendo discutido como um exemplo de como o entretenimento pode se tornar um campo de batalha para a democracia e a verdade, mesmo quando as forças institucionais parecem convergir para o silenciamento de vozes dissidentes.
Fonte: Variety