Brillante Ma Mendoza escala Judy Ann Santos para o drama Aid

O novo projeto do cineasta filipino explora os dilemas éticos da ajuda humanitária internacional e marca uma colaboração entre França e Filipinas.

O renomado cineasta filipino Brillante Ma Mendoza, conhecido por sua filmografia que frequentemente transita entre o realismo cru e a crítica social, anunciou seu mais novo projeto cinematográfico: “Aid”. O drama político, que promete ser um dos títulos mais comentados no Cannes Film Market deste ano, contará com um elenco de peso internacional, reunindo a estrela filipina Judy Ann Santos e as atrizes europeias Jeanne Balibar e Stacy Martin. A produção é uma iniciativa colaborativa que envolve a Fire & Ice Media, atuando como produtora delegada, em parceria com a francesa Ghost City Films e a holandesa Human Films.

Aid team
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Um marco na cooperação cinematográfica internacional

Além de seu valor artístico, “Aid” possui um significado geopolítico relevante para a indústria cinematográfica. O longa-metragem é esperado como um dos primeiros projetos de grande escala a ser concretizado sob o novo acordo bilateral de coprodução assinado entre a França e as Filipinas, formalizado durante a edição anterior do Festival de Cannes. Este tratado visa facilitar o intercâmbio de talentos, recursos e visões narrativas entre os dois países, consolidando uma ponte entre as tradições do cinema europeu e a vibrante cena do cinema independente asiático.

A trama: Entre a benevolência e a cumplicidade

O roteiro de “Aid” mergulha profundamente nos dilemas éticos que cercam o setor humanitário. A narrativa acompanha a trajetória de uma respeitada trabalhadora de uma organização não governamental (ONG), dedicada à proteção de crianças da comunidade indígena Aeta, nas Filipinas. A protagonista, interpretada por Judy Ann Santos, vê sua vida e seu trabalho serem transformados à medida que se torna cada vez mais envolvida nas complexas e, por vezes, obscuras engrenagens da ajuda humanitária internacional.

O elenco principal é composto por figuras de trajetórias distintas: Judy Ann Santos assume o papel de Ruby Dela Cruz, a líder de uma organização de base que atua diretamente com as comunidades Aeta. Stacy Martin, reconhecida por atuações em obras como “Nymphomaniac” de Lars von Trier, “Godard Mon Amour” de Michel Hazanavicius e o recente “The Brutalist” de Brady Corbet, interpreta Angelique Dumont, uma executiva europeia de alto escalão responsável por supervisionar as operações de auxílio em todo o Sudeste Asiático. Jeanne Balibar, atriz e cantora de vasta experiência, conhecida por suas colaborações com cineastas como Arnaud Desplechin, Mathieu Amalric, Olivier Assayas e Jacques Rivette, completa o trio central, trazendo uma camada adicional de profundidade dramática ao projeto.

A visão do diretor e a busca pela verdade

Para Brillante Ma Mendoza, “Aid” não é apenas um filme, mas uma investigação sobre uma frustração pessoal e coletiva. O diretor questiona abertamente: “Eu queria entender por que, apesar de todo o auxílio enviado, tão pouco realmente muda”. Mendoza argumenta que, muitas vezes, as intenções mais nobres acabam sendo engolidas por sistemas burocráticos e políticos muito maiores do que os indivíduos que tentam prestar ajuda. “Essa verdade perturbadora é a razão pela qual eu fiz ‘Aid'”, declarou o cineasta.

Liza Diño, da Fire & Ice Media, descreve a obra como um cinema que se recusa a desviar o olhar. Segundo ela, o filme confia na capacidade do público de suportar o desconforto, testemunhando como o cuidado pode se transformar em cumplicidade e como a maquinaria da ajuda humanitária pode, paradoxalmente, sobreviver às próprias pessoas que deveria servir.

Produção e autenticidade cultural

O compromisso de Mendoza com a autenticidade é um pilar central de sua carreira. O diretor, que já foi premiado em festivais de prestígio como Cannes, Veneza, Berlim e Locarno, planeja rodar o filme em uma vila Aeta localizada em Pampanga. Esta escolha não é aleatória: Pampanga é a região natal do cineasta, um local onde ele domina o dialeto local, o que garante que a representação da comunidade indígena seja tratada com o devido respeito e precisão cultural. As filmagens estão programadas para começar em outubro deste ano.

O projeto marca também a continuidade de uma parceria de sucesso. Judy Ann Santos já havia trabalhado com Mendoza em “Mindanao” (2019), filme que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Cairo Film Festival. A expectativa é que a química entre o diretor e a atriz, somada à diversidade do elenco internacional, confira ao filme uma ressonância universal.

Perspectivas dos coprodutores

Os parceiros internacionais veem em “Aid” um exemplo do tipo de cinema que o mercado atual necessita. Franck Priot, da Ghost City Films — produtora que também está por trás de “Zsazsa Zaturnah”, de Avid Liongoren, com estreia prevista para o festival de Annecy —, destaca a relevância do questionamento central do filme: “Os fins justificam os meios? Esta é a pergunta levantada por ‘Aid’, e os backgrounds fortes e distintos de nossas atrizes ajudarão a história de Brillante a ressoar de forma universal”.

Pavel Feldman, da Human Films, reforça a visão de que o projeto atua como um conector necessário. “Para a Human Films, ‘Aid’ representa exatamente o tipo de ponte que nos propusemos a construir: entre as tradições narrativas europeias e asiáticas, entre a ambição do cinema de arte e a relevância urgente das questões contemporâneas. Coproduções como esta não apenas cruzam fronteiras; elas remodelam a forma como as enxergamos”, concluiu Feldman.

Com uma premissa provocativa e uma equipe de produção de alto nível, “Aid” se posiciona como uma das obras mais aguardadas do cinema filipino recente, prometendo desafiar as percepções globais sobre a eficácia e a ética da ajuda humanitária.

Fonte: Variety