O cenário natural mais icônico da Bolívia, o vasto Salar de Uyuni, está prestes a se transformar em um epicentro cultural de relevância global. Com o anúncio oficial do lançamento do Salar International Film Festival (SalarFF), o país sul-americano busca consolidar sua posição no circuito cinematográfico internacional, utilizando sua paisagem surrealista como o palco principal para uma celebração da sétima arte. O evento, que promete atrair cineastas, produtores e entusiastas de diversas partes do mundo, terá sua edição inaugural realizada entre os dias 28 e 31 de maio, ocupando uma área de 3.861 milhas quadradas de pura extensão salina.


Para liderar esta empreitada ambiciosa, a organização do festival nomeou o renomado cineasta boliviano Rodrigo Bellott como diretor artístico. Bellott, conhecido internacionalmente por obras que exploram a complexidade das relações humanas e a identidade cultural, como o drama “Tu Me Manques” — que representou a Bolívia na corrida pelo Oscar — e o filme “Sexual Dependency”, traz sua expertise para curar uma seleção que busca equilibrar o prestígio internacional com a autenticidade local.
Um cenário de beleza inigualável
A escolha do Salar de Uyuni como local do festival não é meramente estética; é uma declaração de intenções. O local é mundialmente famoso por fenômenos naturais que transformam a superfície de sal em um espelho gigante durante a temporada de chuvas, criando uma ilusão de ótica onde o céu e a terra se fundem. Além da vastidão branca, o festival pretende integrar outros marcos geográficos da região à experiência dos participantes, incluindo a Isla Incahuasi, famosa por seus cactos gigantes, e o enigmático Cemitério de Trens. A exploração do entorno, que abrange desertos de grande altitude, lagoas coloridas e formações rochosas de aparência extraterrestre, servirá como pano de fundo para a imersão dos convidados no universo cinematográfico.
Programação temática e destaques
A curadoria do SalarFF para este ano foi estruturada sob o tema central “Espelho da Alma”. Este conceito busca refletir a própria natureza do Salar, que atua como um espelho físico, convidando os cineastas a explorarem as profundezas da condição humana através de suas lentes. A cerimônia de abertura será marcada pela exibição do filme “Belén”, dirigido por Dolores Fonzi. A obra, que conquistou o prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano na 40ª edição da premiação, também foi um dos títulos pré-selecionados para a categoria de Melhor Filme Internacional na 98ª edição do Oscar, consolidando seu status como uma das produções mais aclamadas do ano.
Para encerrar o festival, a organização selecionou o documentário “Cuerpo Criminal” (título original “Criminal Body”), dirigido por Martín Boulocq. O filme, que teve sua estreia mundial no Festival de Málaga em março, fará sua primeira exibição oficial em solo boliviano durante o encerramento do SalarFF, um momento que promete ser um dos pontos altos da celebração, conectando o público local com a produção documental contemporânea de alta qualidade.
Mostra internacional e intercâmbio de conhecimento
Além das exibições de abertura e encerramento, o SalarFF apresenta uma mostra não competitiva composta por seis longas-metragens internacionais de destaque. Estes filmes foram selecionados por terem conquistado prêmios e reconhecimento em festivais de primeira linha, como Sundance, Berlim e San Sebastián. A diversidade geográfica da seleção é um dos pilares do festival, trazendo obras da Argentina, Índia, Venezuela, Paraguai e Brasil, reforçando o compromisso do evento em promover um diálogo intercultural através do cinema.
O componente educacional do festival é igualmente robusto, com uma série de masterclasses ministradas por convidados internacionais de prestígio. Entre os nomes confirmados está o diretor de fotografia Oren Soffer, reconhecido pela revista Variety como um dos “10 Cinematógrafos para Ficar de Olho” em 2024. Soffer, que foi o responsável pela fotografia do filme “The Creator”, de Gareth Edwards — indicado ao Oscar —, e que recentemente finalizou o trabalho no longa “Onslaught”, de Adam Wingard, trará sua visão técnica e artística para os participantes do evento.
Outros nomes de peso incluem a cineasta boliviano-americana Elle León Nostas, fundadora da Aymara Films e da Aymara Interactive. A produtora tem sido uma força motriz no cinema independente, com a Aymara Films participando da produção de “It Ends”, de Alexander Ullom, um sucesso crítico do SXSW 2025 que foi adquirido pela Neon para distribuição mundial. Também integra o corpo de palestrantes o produtor paraguaio Sebastián Peña Escobar, cujo trabalho mais recente, “Narciso”, dirigido por Marcelo Martinessi, recebeu o prestigiado Prêmio Fipresci na seção Panorama do Festival de Berlim em fevereiro deste ano.
Competição e inovação técnica
Um dos aspectos mais inovadores e desafiadores do SalarFF é a competição de curtas-metragens voltada para os participantes credenciados. O desafio impõe que os cineastas criem obras originais, gravadas inteiramente no local, durante o curto período de quatro dias. Esta dinâmica não apenas testa a criatividade e a capacidade de adaptação dos realizadores diante das condições extremas do deserto de sal, mas também resulta em uma produção artística que nasce da própria experiência de estar no Salar. Como coroamento desta iniciativa, o curta-metragem vencedor será projetado em uma tela construída especificamente sobre a superfície do deserto, criando uma experiência visual única onde a obra cinematográfica se integra organicamente ao ambiente natural.
A logística para realizar um festival desta magnitude em um ambiente tão remoto e preservado quanto o Salar de Uyuni exige um planejamento minucioso. O evento não apenas celebra o cinema, mas também coloca a Bolívia no mapa dos destinos culturais de elite, desafiando a percepção tradicional de onde festivais de cinema podem ocorrer. Ao transformar o deserto de sal em um espaço de exibição, debate e criação, o SalarFF estabelece um novo paradigma para eventos culturais, onde a natureza não é apenas um cenário, mas uma parte integrante da narrativa cinematográfica.
A expectativa em torno da primeira edição é alta, tanto pela qualidade dos filmes selecionados quanto pela oportunidade de ver profissionais de renome mundial interagindo com a paisagem boliviana. O festival é visto como uma vitrine para a produção local, permitindo que cineastas bolivianos como Rodrigo Bellott mostrem ao mundo que a Bolívia possui não apenas cenários naturais de tirar o fôlego, mas também uma comunidade cinematográfica vibrante, capaz de produzir e sediar eventos de classe mundial. Com a combinação de masterclasses, exibições de filmes premiados e uma competição de produção rápida, o SalarFF se posiciona como um evento indispensável para quem busca entender as novas direções do cinema contemporâneo e a força transformadora da arte em ambientes inusitados.
Fonte: Variety