O documentário Bodies of War, uma obra documental que investiga a fragilidade e a resiliência de vidas profundamente alteradas pelo conflito na Ucrânia, marca o mais recente projeto da cineasta Małgorzata Szumowska — renomada diretora polonesa e duas vezes vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim por seus trabalhos em “Body” e “Mug” — em colaboração com seu parceiro de longa data, o diretor e cinegrafista Michał Englert. O filme, que acaba de concluir sua produção, propõe um olhar sensível e urgente sobre o custo humano de uma guerra que já dura quatro anos, focando não apenas na destruição, mas na capacidade de sobrevivência e na busca por significado em meio ao caos.


A estreia oficial da obra acontece no dia 8 de maio, dentro da competição do prestigiado festival polonês Millennium Docs Against Gravity. Enquanto aguardam a recepção do público e da crítica, os cineastas também se encontram em fase de pós-produção de outro projeto, o filme “The Idiot(s)”, que conta com a participação de talentos como Aimee Lou Wood, conhecida por sua atuação em “White Lotus”, e o ator Johnny Flynn. Em entrevista concedida à Variety, Szumowska e Englert detalharam os desafios e as motivações por trás da criação de Bodies of War, um projeto que, segundo eles, exigiu uma adaptação constante às realidades mutáveis do conflito.
A estrutura narrativa e os protagonistas
O documentário não se limita a um único ponto de vista, optando por tecer um mosaico de experiências que ilustram diferentes facetas do trauma e da resistência. A narrativa é construída a partir de três eixos principais. O primeiro deles localiza-se em Lviv, uma cidade situada atrás das linhas de frente da guerra, onde a equipe de filmagem acompanhou veteranos em um centro de reabilitação. Nestes espaços, homens e mulheres lutam diariamente para recuperar não apenas a integridade de seus corpos, mas também a sua força psicológica, enfrentando as consequências diretas dos combates.
O segundo eixo da narrativa transporta o espectador para Varsóvia, na Polônia, onde a história de Dana Vitkovska, uma artista multidisciplinar ucraniana e transgênero, ganha destaque. A jornada de Dana para construir sua identidade sob seus próprios termos, enquanto navega por um ambiente de incertezas e enfrenta obstáculos impostos pela burocracia polonesa, oferece uma camada adicional de complexidade ao filme. Por fim, o documentário acompanha os membros do Open Group, um coletivo de arte contemporânea ucraniano que já representou a Polônia na Bienal de Veneza. O grupo busca, através de sua prática artística, confrontar a violência da guerra, tentando transformar o trauma coletivo em expressão criativa, mesmo quando um de seus integrantes decide permanecer na Ucrânia para lutar nas linhas de frente.
Reflexões sobre o trauma e o heroísmo
Para Michał Englert, que também assina a cinematografia do longa, o filme é uma meditação lírica sobre o preço pago por milhões de pessoas desde o início da invasão em larga escala pela Rússia. Englert enfatiza que o documentário busca investigar o que poderá emergir no pós-guerra e, de forma mais contundente, questiona o quão profundamente feridas permanecerão as sociedades após uma experiência tão traumática. A intersecção entre as histórias pessoais e o uso de imagens de arquivo cria um registro histórico que vai além do factual, buscando tocar a dimensão emocional e existencial dos envolvidos.
A produção de Bodies of War teve início em Lviv, logo após a invasão russa. Inicialmente, o foco da dupla de diretores era capturar a luta dos soldados feridos para reconstruir suas vidas. Foi durante esse processo inicial que Szumowska e Englert testemunharam o que descreveram como uma forma de “heroísmo inesperado”. No entanto, com a intensificação dos combates e o aumento dos riscos de segurança para a equipe de filmagem, tornou-se impossível continuar o trabalho atrás das linhas de frente. Essa limitação forçou os cineastas a retornarem a Varsóvia, onde precisaram encontrar novas camadas, novos protagonistas e novas perspectivas para adaptar a narrativa à realidade que se desenrolava.
O desafio da montagem e a visão dos diretores
A diretora Małgorzata Szumowska admitiu que o processo de criação do documentário foi uma tarefa árdua. Segundo ela, não era claro, inicialmente, se as narrativas díspares dos veteranos, da artista transgênero e do coletivo de arte conseguiriam coexistir em harmonia dentro de um mesmo filme. “Foi uma luta fazer este filme”, confessa Szumowska. A diretora explica que a equipe não tinha certeza sobre o resultado final até o momento crucial em que as peças do quebra-cabeça foram montadas e a conexão entre as histórias se tornou evidente. A montagem final, portanto, é o resultado de uma busca incessante por uma coesão que honrasse a complexidade das vidas retratadas.
A obra, ao explorar a fisicalidade do trauma, mantém uma conexão temática com a filmografia anterior de Szumowska, que frequentemente utiliza o corpo como um espelho das tensões sociais e psicológicas. Ao trazer para o centro do debate a fragilidade do corpo humano em tempos de guerra, Bodies of War se posiciona como um registro urgente e necessário. O filme não oferece respostas fáceis, mas convida o espectador a observar as cicatrizes invisíveis de uma nação e a persistência da arte como uma forma de resistência. A estreia no Millennium Docs Against Gravity é vista pelos diretores como uma oportunidade vital para compartilhar essas histórias com um público que, embora geograficamente próximo ao conflito, necessita de um olhar mais profundo sobre o impacto humano que transcende as manchetes diárias dos jornais. A obra, em última análise, é um testemunho sobre a resiliência e a capacidade humana de buscar a reconstrução, mesmo quando o mundo ao redor parece desmoronar sob o peso da violência e da incerteza histórica.
Fonte: Variety