Backrooms estreia nos cinemas com recepção dividida da crítica

A estreia de Kane Parsons na direção de longas-metragens pela A24 traz uma proposta surrealista que divide especialistas sobre o futuro do terror.
BACKROOMS, from left: director Kane Parsons, Chiwetel Ejiofor, on set, 2026. © A24 / courtesy Everett Collection

O aguardado filme de terror Backrooms, produzido pela A24, chega aos cinemas nesta sexta-feira cercado de expectativas e opiniões divergentes. A obra marca a estreia na direção de longas-metragens de Kane Parsons, jovem cineasta de 20 anos que ganhou notoriedade na internet com a série viral de mesmo nome no YouTube. Com um orçamento robusto e a chancela de um estúdio conhecido por produções autorais, o projeto tenta transpor o conceito de labirintos infinitos e espaços liminares para a tela grande, gerando um debate intenso entre especialistas do gênero.

A produção conta com um elenco de peso, incluindo Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Finn Bennett e Lukita Maxwell, sob o roteiro de Will Soodik. Entre os produtores, nomes de prestígio como James Wan e Osgood Perkins reforçam a aposta da A24 no potencial comercial e artístico da franquia. A trama acompanha a terapeuta Dr. Mary Kline, interpretada por Renate Reinsve, que acaba adentrando uma dimensão alternativa após o desaparecimento de um de seus pacientes, dando início a uma jornada surrealista.

Bastidores e a liderança de Kane Parsons

A trajetória de Kane Parsons até a cadeira de diretor de um grande estúdio foi alvo de especulações online, especialmente devido à sua pouca idade. Em resposta a rumores que questionavam sua autonomia no set, o ator Mark Duplass saiu em defesa do cineasta. Em publicação na rede social X, Duplass afirmou que, durante as filmagens, Parsons esteve no controle total da produção, demonstrando uma maturidade superior a muitos diretores com três vezes a sua idade. Esse respaldo de um veterano da indústria foi fundamental para dissipar dúvidas sobre a capacidade técnica do jovem diretor em gerir uma equipe profissional e um orçamento de grande escala.

Recepção crítica e o desafio da transposição

Atualmente, Backrooms mantém uma pontuação de 87% no agregador Rotten Tomatoes, com projeções de bilheteria entre US$ 45 milhões e US$ 50 milhões para o fim de semana de estreia. Caso os números se confirmem, o longa pode se tornar o maior lançamento da história da A24. Contudo, a recepção crítica revela uma divisão clara sobre a eficácia da narrativa. Enquanto alguns elogiam a atmosfera, outros apontam falhas na estrutura do roteiro.

Angie Han, crítica do The Hollywood Reporter, destacou que a insistência em criar uma sensação de estranheza sem um propósito narrativo claro acaba por esvaziar o impacto do filme. Segundo ela, à medida que a exploração dos cenários avança, o terror diminui e as bizarrices parecem aleatórias, sem uma lógica interna ou desenvolvimento psicológico que sustente o interesse do espectador até o final. Para a crítica, a falta de respostas significativas torna a experiência frustrante.

Em contrapartida, Nick Schager, do The Daily Beast, defendeu a obra como uma experiência sensorial única. Ele comparou o filme a produções de David Lynch, como Lost Highway, descrevendo-o como uma descida a um submundo que funciona como uma desconstrução do mundo moderno. Para Schager, embora o filme peque pelo excesso de psicologismo em certos momentos, ele consegue criar um feitiço surrealista que se diferencia de tudo o que é produzido atualmente no cinema de horror, priorizando a atmosfera em vez de sustos fáceis.

O debate sobre o formato e a duração

A transição do formato de curtas virais para um longa-metragem também foi um ponto central nas análises. O crítico Jeremy Jahns, em seu canal no YouTube, elogiou os elementos de found footage e o humor inesperado presente na obra, mas ressaltou problemas de ritmo. Segundo Jahns, o filme parece longo demais e o terceiro ato soa como uma adição tardia, quase um pensamento posterior. Ele concluiu que, embora tenha tido uma experiência claustrofóbica satisfatória, o conceito talvez funcionasse melhor como uma série de curtas online do que como um filme de duas horas.

Jake Coyle, da Associated Press, foi mais crítico quanto à execução da premissa. Em sua análise, ele argumentou que a história de origem é mais intrigante do que o filme em si. Para Coyle, a tentativa de transformar o labirinto físico em uma metáfora para o estado mental da protagonista não se conecta de forma eficaz. O crítico afirmou que, apesar de tantas portas abertas na trama, o filme acaba não encontrando o caminho certo para entregar uma conclusão satisfatória.

O impacto cultural e a comparação com clássicos

Jamie Graham, da revista Empire, classificou Backrooms como um dos filmes de terror artístico mais ousados desde Eraserhead, de David Lynch. Ele reconheceu que, apesar dos 200 milhões de visualizações que a série original acumulou desde 2022, o filme não é uma obra para todos os públicos. A preferência pela opacidade, criaturas vistas apenas parcialmente e uma sensação constante de desconforto, em vez de sustos tradicionais, garante que o filme será alvo de debates e interpretações variadas entre o público.

A recepção do filme coloca a A24 em uma posição interessante no mercado de horror. Assim como outros títulos recentes, como Disclosure Day, que recebeu elogios por sua abordagem inovadora, Backrooms tenta equilibrar o apelo de nicho com a escala de uma grande produção. O sucesso ou fracasso comercial deste projeto servirá como um termômetro para o interesse do público em adaptações de fenômenos da internet que buscam uma linguagem cinematográfica mais experimental e menos dependente de fórmulas consagradas do gênero.

A expectativa agora recai sobre como o público geral reagirá a essa proposta. Com uma base de fãs já estabelecida pelo conteúdo original de Kane Parsons, o filme tem um público cativo, mas a longevidade nas bilheterias dependerá do boca a boca. Se a proposta de terror atmosférico e surrealista for bem recebida, o longa poderá consolidar Parsons como um dos nomes mais promissores da nova geração de cineastas, provando que a transição do digital para o cinema tradicional é possível quando há uma visão artística clara, mesmo que essa visão desafie as convenções do entretenimento de massa.

Fonte: THR