O conceito de Backrooms, que se tornou um fenômeno da internet como uma lenda urbana digital, finalmente chega às telas em uma produção cinematográfica de grande escala. O longa-metragem, que conta com o selo da A24, traz nomes de peso como Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve no elenco, sob a direção de Kane Parsons. O projeto, que também conta com a produção de nomes influentes do gênero como James Wan e Osgood Perkins, tenta transpor a atmosfera de horror liminar que conquistou milhões de espectadores no YouTube para uma narrativa estruturada, embora o resultado final apresente desafios narrativos significativos.


A trama acompanha Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, um arquiteto fracassado que tenta manter a sobrevivência de sua loja de móveis, a Cap’n Clark’s Ottoman Empire. Em uma fase de declínio pessoal, marcada pelo fim de seu casamento e por sessões de terapia com a doutora Mary Kline, vivida por Renate Reinsve, o protagonista se vê em uma situação de isolamento extremo. Ao passar noites dormindo no próprio estabelecimento comercial, ele acaba descobrindo uma anomalia física: a capacidade de atravessar paredes, entrando em uma dimensão que desafia a lógica espacial.
A origem do horror liminar nas telas
O fenômeno das Backrooms teve início como uma imagem perturbadora de um espaço vazio, supostamente capturada durante a reforma de uma loja de móveis em Wisconsin. O conceito evoluiu em fóruns como o 4Chan, onde usuários adicionaram camadas de mitologia, transformando a ideia de um escritório infinito em um pesadelo existencial. Em 2022, Kane Parsons, então com 16 anos, elevou o conceito ao produzir uma série de curtas-metragens no YouTube que se tornaram virais, estabelecendo a estética de horror liminar que define a obra.
A transição para o formato de longa-metragem busca manter essa essência, utilizando a estética de espaços abandonados e a sensação de desorientação constante. No entanto, a crítica aponta que, enquanto o filme captura a inquietação visual do material original, a narrativa central sofre com uma estrutura que parece subdesenvolvida. A transição entre o mundo real, representado pela vida melancólica de Clark, e o reino surreal das Backrooms, tenta criar um contraste, mas acaba deixando lacunas sobre a natureza do próprio horror apresentado.
O desafio de adaptar uma lenda urbana
Diferente de outras produções de estúdio que tentaram adaptar creepypastas, como Slender Man, o filme de Kane Parsons tenta dialogar diretamente com a linguagem dos memes e da cultura de internet. A direção aposta em uma abordagem que remete a clássicos do horror surrealista, como Eraserhead e Skinamarink, focando mais na experiência sensorial do que em uma trama linear convencional. O ambiente das Backrooms é descrito como um labirinto de carpetes úmidos, luzes fluorescentes e corredores que se estendem infinitamente, criando uma sensação de claustrofobia mesmo em espaços vastos.
A atuação de Chiwetel Ejiofor confere uma camada de peso dramático ao personagem, que utiliza a terapia como um mecanismo de defesa para lidar com sua frustração. As cenas de role-playing com a personagem de Renate Reinsve servem para expor o estado mental de Clark, preparando o terreno para sua entrada no mundo liminar. Contudo, a eficácia do horror é debatida, com observadores notando que, embora o filme seja inquietante, ele raramente atinge o nível de medo visceral esperado de uma produção de terror de alto orçamento.

A recepção crítica e o futuro do conceito
A recepção do longa-metragem destaca a audácia da A24 em apostar em um diretor jovem que emergiu diretamente da criação de conteúdo digital. A produção é vista como um experimento que testa os limites entre o horror de nicho e o cinema mainstream. A questão central que o filme levanta é se a natureza abstrata das Backrooms, que funciona perfeitamente como um mistério sem respostas no ambiente digital, consegue sustentar uma narrativa de quase duas horas sem perder sua força original.
Apesar das críticas sobre o roteiro, a estética visual é amplamente elogiada. A recriação dos ambientes que parecem “montados por trabalhadores sob efeito de alucinógenos” mantém a fidelidade ao material de origem. O filme consegue, em diversos momentos, evocar a mesma sensação de desamparo que tornou os curtas de Kane Parsons um sucesso global. A decisão de manter o mistério sobre o que habita as sombras das Backrooms é um ponto de tensão editorial, dividindo opiniões entre aqueles que preferem explicações concretas e os que valorizam a ambiguidade.
Em última análise, a adaptação de Backrooms funciona como um estudo sobre a transição de estéticas digitais para o cinema tradicional. O filme não busca oferecer respostas definitivas sobre a origem da dimensão ou o destino final de Clark, preferindo deixar o espectador imerso na mesma incerteza que define o conceito desde sua criação. A produção marca um momento importante para a A24, consolidando sua posição como um estúdio que não teme arriscar em projetos experimentais, mesmo quando o resultado final caminha por uma linha tênue entre o brilhantismo visual e a fragilidade narrativa.
O impacto de Backrooms no mercado de streaming e cinema ainda será medido pela recepção do público, mas o projeto já garantiu seu lugar como uma das adaptações mais singulares de uma lenda urbana da era da internet. A colaboração entre talentos estabelecidos de Hollywood e criadores nativos da web aponta para uma tendência crescente de busca por novas formas de contar histórias de horror, onde a atmosfera e o design de produção superam, muitas vezes, a necessidade de uma estrutura de roteiro tradicional.