O gênero de guerra no cinema historicamente se concentra na intensidade do combate, nas estratégias militares e no heroísmo épico. No entanto, produções que se dedicam a dissecar o período pós-conflito — o retorno ao lar e a difícil reintegração à vida civil — são consideravelmente mais raras. Filmes como The Deer Hunter e The Best Years of Our Lives abriram caminho para essa narrativa, mas o longa-metragem Atonement, estreia na direção de Reed Van Dyk, eleva essa discussão a um patamar de intimidade e confronto pessoal raramente visto. A obra acompanha um soldado que, assombrado por seus próprios demônios, decide encarar as pessoas cujas vidas foram irremediavelmente devastadas por suas ações durante a invasão do Iraque.
A gênese de uma história real
O roteiro de Atonement é fundamentado em um artigo jornalístico escrito por Dexter Filkins para a revista New Yorker. A trama centraliza-se na figura do segundo-tenente Lou D’Alessandro, interpretado por Boyd Holbrook. Na vida real, o militar é identificado como Lu Lobello. O incidente que desencadeia toda a narrativa ocorre nos primeiros dias da invasão do Iraque, quando D’Alessandro abre fogo contra veículos que cruzavam um determinado ponto da cidade. O erro tático resulta na morte de três homens da família Khachaturian (chamada Kachadoorian na vida real), civis iraquianos que tentavam desesperadamente encontrar um abrigo seguro após uma explosão ter destruído parte de sua residência. Anos depois, de volta aos Estados Unidos e lutando contra um quadro severo de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e crises de pânico, o ex-marine descobre que sobreviventes da família imigraram para o território americano. Movido por uma necessidade profunda de expiação, ele decide procurá-los, buscando, acima de tudo, o perdão.
O processo criativo de Reed Van Dyk
A conexão de Reed Van Dyk com o material original começou de forma visceral. O diretor recorda-se de ter lido a história de Filkins enquanto vivia em um apartamento em Los Angeles. “Eu não conseguia parar de chorar”, confessa o cineasta. Contudo, ele reconhece que, naquele momento, não possuía a maturidade ou os recursos necessários para transformar aquele relato em um filme. A trajetória de Van Dyk até este longa passou pela escola de cinema da UCLA e pela realização de curtas-metragens, incluindo o aclamado DeKalb Elementary, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2018. Durante todos esses anos, a história do soldado e da família Kachadoorian nunca deixou de habitar seus pensamentos. Quando finalmente sentiu que tinha o suporte necessário para produzir um longa-metragem, ele não hesitou em buscar a viabilização do projeto.
A ética de trabalho de Van Dyk foi pautada pelo respeito absoluto às vítimas. “Eu não queria abrir feridas antigas para eles sem ter a certeza de que eu realmente queria dar vida a isso como um filme”, explica. O diretor empenhou-se em um processo de aproximação cuidadoso: viajou até Nova York para jantar com o jornalista Dexter Filkins, dirigiu até Las Vegas para encontrar Lobello e estabeleceu um contato constante com os membros da família Kachadoorian, que residiam a apenas 20 minutos de distância de sua casa em Los Angeles. Segundo o cineasta, o processo de obter a bênção dessas pessoas levou anos de conversas honestas e transparentes.
Autenticidade visual e narrativa
Um dos pilares de Atonement é a representação de Bagdá. Van Dyk sentia que a cidade, no cinema ocidental, é frequentemente reduzida a um mero cenário de fundo para histórias centradas na perspectiva americana. Para evitar esse clichê, o diretor e seu diretor de fotografia realizaram uma viagem de reconhecimento ao Iraque, munidos de uma extensa lista de leitura de autores iraquianos. Uma das principais referências visuais foi o documentário de seis horas Homeland: Iraq Year Zero, de Abbas Fahdel. Essa imersão foi vital para que o filme não tratasse o conflito como um evento esportivo, onde se define quem está ganhando ou perdendo, mas sim como uma tragédia humana.
Para garantir a autenticidade das cenas de combate, Van Dyk consultou diversos fuzileiros navais, buscando afastar-se dos estereótipos hollywoodianos. O objetivo era que a sequência do tiroteio inicial se aproximasse mais de um registro documental do que de uma cena de ação convencional. O diretor queria que o público sentisse a experiência de quem está puxando o gatilho, evitando a visão distorcida que muitas vezes coloca os iraquianos apenas como alvos através de uma mira telescópica.
A escolha de Boyd Holbrook
A escalação de Boyd Holbrook para o papel de Lou D’Alessandro foi uma decisão intuitiva de Van Dyk. O diretor não estava familiarizado com os papéis mais famosos do ator em produções como Logan ou a série Narcos. O interesse surgiu após ele assistir a uma atuação de Holbrook no filme The Bikeriders, de Jeff Nichols. “Eu saí do cinema falando sobre ele”, lembra Van Dyk. A admiração cresceu ao vê-lo interpretar Johnny Cash no filme biográfico A Complete Unknown. O cineasta ficou impressionado com a capacidade de Holbrook de encontrar a voz, os movimentos e a fisicalidade de cada personagem que interpreta. Para o diretor, Holbrook possuía a versatilidade necessária para carregar o peso emocional de um protagonista complexo.
Holbrook, por sua vez, sentiu-se atraído pela abordagem humana e desmonetizada da guerra proposta pelo roteiro. “Nós vemos tantas versões monetizadas da guerra. Este é um filme que você nunca tem a oportunidade de ver”, afirma o ator. A busca de Lou por uma absolvição face a face com as vítimas foi o que mais ressoou com o intérprete. O desafio físico também foi significativo: as cenas de combate foram filmadas na Jordânia, sob temperaturas que ultrapassavam os 40 graus Celsius, com o ator vestindo mais de 18 quilos de equipamento. No entanto, Holbrook acredita que esse desconforto real contribuiu para a veracidade da cena, afastando qualquer tentativa de fazer o soldado parecer um herói de ação estilizado. O filme se posiciona, assim, como uma exploração profunda sobre a culpa, a responsabilidade e o longo caminho para a cura após o trauma da guerra.
Fonte: THR