A Arábia Saudita deu um passo decisivo para se consolidar como um dos principais destinos globais para a indústria cinematográfica. Durante o Festival de Cannes de 2026, foi anunciado que o reino elevará seu programa de rebate para produções de cinema e televisão para a marca expressiva de 60%. Este movimento, que coloca o país em uma posição de destaque no cenário internacional, é parte de uma estratégia mais ampla liderada pela Film AlUla, a comissão cinematográfica responsável pela região noroeste do país, que busca transformar o território em um ecossistema autossustentável e tecnologicamente avançado para a sétima arte.

O anúncio foi o ponto alto de um painel realizado como parte das ‘Global Conversations’ da Variety em Cannes. A medida não apenas visa atrair produções estrangeiras de grande orçamento, mas também fomentar a capacitação de talentos locais, um ponto que Phillip Jones, diretor de turismo da Comissão Real para AlUla, enfatizou como uma necessidade premente. Segundo Jones, o desenvolvimento da indústria não pode ser dissociado da formação de mão de obra local, um processo que está sendo conduzido em estreita colaboração com parceiros estratégicos, como o MBS Group — responsável por Manhattan Beach Studios, base de operações das sequências de ‘Avatar’ de James Cameron — e a Red Sea Film Foundation.
A integração entre as entidades é um dos diferenciais do modelo saudita. Faisal Baltyuor, CEO da Red Sea Film Foundation, explicou que o fundo da fundação, um dos maiores do Oriente Médio, oferece aos cineastas que submetem projetos a opção de realizar as filmagens em AlUla. Essa sinergia entre o financiamento e a infraestrutura física tem gerado resultados tangíveis. Baltyuor destacou dois marcos importantes: o filme ‘Norah’, de Tawfik Alzaidi, que em 2024 se tornou a primeira obra saudita a integrar a seleção oficial do Festival de Cannes, e ‘Hijra’, de Shahad Ameen, que teve sua estreia no Festival de Veneza em 2025. Ambos foram rodados na região de AlUla, provando a viabilidade do território como locação de prestígio internacional.
A infraestrutura física, por sua vez, está em plena expansão. Jason Hariton, diretor de estúdios e imóveis do MBS Group, detalhou que as instalações atuais já contam com dois palcos de 25 mil pés quadrados e um estúdio de gravação de última geração. No entanto, o executivo ressaltou que o que está sendo visto agora é apenas a ‘fase 1-A’ do projeto. A capacidade de expansão é um dos pilares do plano diretor, permitindo que a região se adapte às necessidades de qualquer tipo de produção. ‘Do ponto de vista de backlot, temos a capacidade de fazer praticamente tudo o que precisarmos’, afirmou Hariton, destacando a versatilidade do terreno.
O sucesso dessa infraestrutura já foi testado na prática. O filme ‘Chasing Red’, da Stampede Ventures, uma adaptação do romance best-seller de Isabell Ronin, foi filmado em AlUla em janeiro e detém o título de primeiro longa-metragem de Hollywood produzido inteiramente em solo saudita. A experiência foi tão positiva que Jones, em tom bem-humorado, mencionou que a região serviu como um cenário perfeito para emular o Arizona, brincando que ainda restam muitos cactos no local para futuras produções que necessitem de paisagens similares.
A decisão de elevar o rebate para 60% é vista pelos especialistas como um catalisador para manter o ímpeto de crescimento da indústria. Baltyuor reconheceu que, embora a Arábia Saudita seja um player jovem no mercado global — tendo iniciado sua trajetória cinematográfica apenas no final de 2017, após o fim de um banimento de 35 anos imposto por razões religiosas —, a agilidade do país em se adaptar às mudanças é um trunfo. ‘É sobre como nos adaptamos à mudança. Como podemos ser ágeis. Como podemos desenvolver rapidamente’, afirmou o CEO da Red Sea Film Foundation. Ele acredita que o novo rebate, além de ser um dos maiores do mundo, destaca-se por ser extremamente amigável ao usuário, o que deve atrair um fluxo constante de produções locais e internacionais nos próximos anos.
Para a indústria global, o movimento saudita sinaliza que o país não está apenas investindo em tecnologia e estúdios, mas criando um ambiente regulatório e fiscal que favorece a viabilidade econômica de projetos complexos. A combinação de paisagens naturais únicas, infraestrutura de estúdio de padrão internacional e um incentivo financeiro agressivo posiciona AlUla como um competidor de peso frente a outros polos tradicionais de filmagem. O objetivo final é claro: consolidar a Arábia Saudita como um destino indispensável para o cinema mundial, onde a tradição local encontra a inovação técnica em um cenário de escala global. À medida que o país continua a expandir suas capacidades, a expectativa é que o número de coproduções internacionais aumente, fortalecendo ainda mais o intercâmbio cultural e profissional entre a Arábia Saudita e o restante do mundo cinematográfico.
Em suma, a estratégia da Film AlUla, apoiada pela robustez do MBS Group e pela curadoria da Red Sea Film Foundation, demonstra uma visão de longo prazo. O foco não reside apenas em atrair produções momentâneas, mas em construir uma base sólida que permita ao reino ser um protagonista na produção de conteúdo audiovisual de alta qualidade. Com o novo incentivo de 60%, a Arábia Saudita reafirma seu compromisso com a indústria, garantindo que, independentemente do gênero ou escala, os cineastas encontrem em AlUla não apenas um cenário, mas um parceiro estratégico para suas visões criativas.
Fonte: Variety