Arábia Saudita aumenta incentivo fiscal para produções a 60%

O governo saudita reformula seu programa de reembolso para atrair investimentos internacionais e fortalecer a infraestrutura local de cinema e TV.

A Arábia Saudita deu um passo decisivo para se consolidar como um dos destinos mais atraentes para a indústria cinematográfica global. Durante o prestigiado Festival de Cinema de Cannes, a Saudi Film Commission anunciou uma atualização drástica em seu programa de incentivos financeiros, elevando o reembolso de custos de produção de 40% para um patamar expressivo de 60%. Esta medida, que reflete o compromisso contínuo do reino em diversificar sua economia e fomentar uma indústria cultural vibrante, ocorre em um momento estratégico, menos de uma década após a histórica remoção da proibição de cinemas no país, que durou 35 anos e foi encerrada no final de 2017.

NewSaudiStudio
NewSaudiStudio
lazyload fallback

O anúncio, realizado na sexta-feira, detalha o que as autoridades sauditas descreveram como um “programa de reembolso em dinheiro atualizado”. Mais do que apenas um aumento percentual, a iniciativa introduz um conjunto de “facilitadores práticos” desenhados para apoiar todas as etapas da produção cinematográfica e televisiva. Segundo o comunicado oficial da comissão, o novo modelo foca em processos claros, caminhos simplificados e um suporte financeiro altamente competitivo, visando eliminar as barreiras que historicamente dificultaram a operação de produtoras estrangeiras no território.

Eficiência operacional e fluxo de caixa

Um dos pontos centrais da reforma é a melhoria significativa nos processos de desembolso. A Saudi Film Commission reconheceu que a agilidade é fundamental para a viabilidade de projetos de grande escala. Por isso, as novas diretrizes incluem procedimentos acelerados de liberação de verbas, o que melhora diretamente a eficiência do fluxo de caixa para as empresas de produção. Essa mudança visa criar um ambiente operacional muito mais favorável, garantindo que a entrega dos projetos ocorra em total conformidade com os cronogramas de filmagem, muitas vezes apertados e complexos.

Abdullah bin Nasser Al-Qahtani, CEO da Saudi Film Commission, enfatizou em entrevista à Variety que a ambição do país vai além de oferecer o maior incentivo financeiro do mercado. “Nós queremos ser não apenas o incentivo mais generoso, mas também o mais ágil”, afirmou o executivo. Ele explicou que o período recente foi dedicado ao desenvolvimento de aspectos regulatórios e operacionais cruciais, destacando o lançamento de um guia detalhado de procedimentos para auditoria financeira e desembolso. O objetivo final é proporcionar aos cineastas uma clareza sem precedentes, permitindo que trabalhem com a confiança necessária para investir em produções de alta qualidade.

A evolução do cenário saudita

A percepção internacional sobre o ambiente de filmagem na Arábia Saudita passou por uma transformação notável. Rasha AlEmam, CEO da Yellow Camel Studios, que esteve presente em Cannes para promover as capacidades do país junto a produtores globais, relembrou os desafios enfrentados anteriormente. “Três anos atrás, o reembolso não era realmente amigável para o usuário”, admitiu AlEmam. No entanto, ela ressaltou que o cenário atual é completamente diferente: “Hoje, os sistemas estão implementados; os processos, as diretrizes e as aprovações governamentais estão todos documentados e operacionais. Está tudo no papel, pronto para ser utilizado”.

Essa estruturação burocrática é vista como um pilar essencial para o desenvolvimento de um ecossistema integrado. A visão da Saudi Film Commission é que, ao atrair investimentos de qualidade, o país não apenas viabiliza filmes, mas promove a transferência de expertise e conhecimento técnico para os talentos locais, fortalecendo o setor privado saudita a longo prazo.

Casos de sucesso e o potencial de AlUla

A eficácia dessas políticas já começa a ser comprovada na prática com produções de Hollywood. Um exemplo emblemático é o longa-metragem Chasing Red, uma adaptação do popular romance juvenil de Isabell Ronin. O filme, que conta com a participação de estrelas como Madelaine Petsch (conhecida por Riverdale) e Gavin Casalegno, fez história em janeiro ao se tornar a primeira produção de Hollywood a ser filmada inteiramente na Arábia Saudita.

A escolha da locação não foi por acaso. A produção utilizou as paisagens deslumbrantes de AlUla, uma região no noroeste do país que combina um oásis exuberante com vastos cânions de arenito. A diversidade geográfica de AlUla tem se mostrado um trunfo competitivo, oferecendo cenários que são, ao mesmo tempo, exóticos e cinematograficamente versáteis. Com o novo incentivo de 60% e a promessa de uma burocracia reduzida, espera-se que mais estúdios internacionais sigam o exemplo de Chasing Red, consolidando o reino como um destino de primeira linha no mapa global das locações de filmagem.

Em última análise, o movimento da Arábia Saudita sinaliza uma mudança de paradigma: o país não está apenas abrindo suas portas, mas construindo uma infraestrutura robusta e atrativa, capaz de competir com os maiores polos de produção do mundo, oferecendo aos cineastas não apenas cenários únicos, mas também a segurança financeira e a agilidade administrativa necessárias para transformar visões criativas em realidade comercial.

Fonte: Variety