O renomado cineasta Ryusuke Hamaguchi, cuja filmografia é marcada por uma profunda investigação sobre o diálogo como ferramenta de negociação e exploração humana, retorna às telas com All of a Sudden (Soudain). O filme, que teve sua exibição no Festival de Cannes, reafirma a habilidade do diretor em transformar conversas cotidianas em ações dramáticas potentes, uma característica já observada em obras anteriores como Drive My Car e Evil Does Not Exist. Desta vez, o cenário é uma unidade de cuidados para idosos nos arredores de Paris, onde a gestão humanizada colide frontalmente com as exigências de um sistema focado em resultados financeiros e eficiência operacional.



A trama central gira em torno de Marie-Lou Fontaine, interpretada por Virginie Efira, a diretora da unidade “O Jardim da Liberdade”. Marie-Lou é uma defensora fervorosa do sistema “Humanitude”, uma abordagem que prioriza a dignidade, o respeito e a atenção individualizada aos pacientes. Contudo, sua visão progressista encontra resistência dentro da própria equipe. A enfermeira sênior Sophie, vivida por Marie Bunel, é a voz principal da dissidência. Tendo trabalhado no local desde a época em que o edifício funcionava como um hospital psiquiátrico, Sophie argumenta que as diretrizes de Marie-Lou são impraticáveis diante da realidade de subfinanciamento e escassez de pessoal.
O conflito entre a filosofia de cuidado de Marie-Lou e as pressões administrativas levanta questões fundamentais sobre o estado atual da sociedade. O filme questiona se a compaixão e o cuidado individual podem sobreviver em meio ao declínio demográfico e às pressões do capitalismo de final de estágio. À medida que a riqueza se concentra e os setores com fins lucrativos reduzem os investimentos em serviços básicos, as taxas de natalidade caem e a escassez de mão de obra se torna um gargalo crítico para o atendimento à população idosa. Hamaguchi utiliza esse pano de fundo para examinar como a gestão de recursos humanos afeta diretamente a qualidade de vida dos residentes.
Um dos pontos de maior tensão na narrativa envolve as práticas diárias exigidas pela direção. A equipe de enfermagem, já sobrecarregada, aponta que o tempo necessário para realizar as rondas conforme os métodos de Marie-Lou resulta em um acúmulo de tarefas para os turnos seguintes. Além disso, os seminários de treinamento obrigatórios, realizados três vezes ao ano, desfalcam as equipes de plantão, agravando o estresse laboral. Existe também um debate técnico sobre a “verticalidade” — a prática de incentivar os pacientes a caminharem diariamente —, que, segundo os críticos internos, aumenta o risco de quedas e acidentes, gerando um dilema entre a autonomia do paciente e a segurança institucional.
Apesar da densidade temática, Hamaguchi mantém sua metodologia característica. O filme não evita o aspecto documental e técnico da gestão hospitalar; pelo contrário, ele abraça a exposição de diagramas, gráficos e tópicos apresentados em quadros brancos durante reuniões de equipe. Para o espectador, a primeira hora de projeção exige paciência, sendo marcada por um ritmo lento e diálogos extensos. No entanto, essa escolha narrativa serve como base para uma construção emocional profunda. Com uma duração de três horas e dezesseis minutos, a obra evolui de uma análise fria de processos para uma afirmação poderosa dos direitos humanos básicos.
O diferencial de All of a Sudden reside na sua observação gentil e detalhada dos pacientes. Em um cenário onde filmes sobre demência se tornaram recorrentes, a abordagem de Hamaguchi se destaca pela delicadeza. Ele captura as respostas dos idosos aos esforços incansáveis das duas protagonistas em trazer conforto e alegria para seus anos finais. Para qualquer pessoa que tenha vivenciado o cuidado com parentes ou entes queridos acometidos por doenças degenerativas, o filme oferece uma experiência profundamente tocante e humanista.
O roteiro, escrito por Hamaguchi em parceria com Léa Le Dimna, foi livremente inspirado no livro When Life Suddenly Takes a Turn, de Makiko Miyano e Maho Isono. O elenco, que conta com nomes como Tao Okamoto, Kyozo Nagatsuka, Kodai Kurosaki, Jean-Charles Clichet e Romain Cottard, entrega atuações que sustentam a complexidade do texto. Se a duração do filme justifica ou não o tempo de tela, é algo que certamente gerará debates entre críticos e público, mas a recompensa emocional final é inegável. All of a Sudden se consolida, assim, como uma obra que, apesar de sua natureza técnica e por vezes árida, consegue tocar o âmago da experiência humana, defendendo a dignidade como um valor inegociável, mesmo diante das mais severas restrições econômicas.