All of a Sudden ganha distribuição internacional antes de Cannes

Novo drama do diretor Ryusuke Hamaguchi, de Drive My Car, garante acordos globais antes de sua estreia competitiva no Festival de Cannes.

O aguardado novo projeto cinematográfico do diretor Ryusuke Hamaguchi, intitulado All of a Sudden, está gerando uma movimentação significativa no mercado global de cinema. O cineasta, que alcançou reconhecimento mundial com o aclamado Drive My Car, prepara-se agora para a estreia de seu mais novo longa-metragem na prestigiada competição oficial do Festival de Cannes. Em um movimento estratégico que antecede a exibição no festival, a produção já assegurou uma vasta rede de acordos de distribuição internacional, consolidando o interesse do mercado pela obra antes mesmo da primeira exibição pública.

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Uma rede de distribuição global em expansão

A Cinéfrance International, responsável pelas vendas globais do projeto, confirmou o fechamento de uma série de contratos que abrangem diversos continentes. A estratégia de distribuição demonstra a confiança dos exibidores no potencial do filme. No mercado asiático, a distribuidora japonesa Bitters End assumiu a liderança das vendas, garantindo que o filme alcance o público da região. Na América do Norte, a Neon, conhecida por seu olhar apurado para o cinema autoral, adquiriu os direitos de exibição. Na Europa, o filme já possui parceiros estratégicos: a Diaphana Distribution cuidará do lançamento na França, a Plaion Pictures será responsável pela Alemanha e Áustria, enquanto a September Film cobrirá o território do Benelux.

A lista de aquisições continua a crescer, com a Curzon garantindo os direitos para o Reino Unido. Na Itália, a distribuição será realizada em conjunto pela Teodora Film e Tucker Film. A presença do filme se estende ainda por Portugal, através da Leopardo Filmes; Espanha, com a Caramel Films; Grécia, com a Videorama – Weirdwave; e uma forte presença nos países nórdicos, incluindo TriArt Film na Suécia, Camera Film na Dinamarca, Arthaus na Noruega, Future Film na Finlândia e Bíó Paradís na Islândia. A Cinéfrance International informou que ainda mantém negociações ativas para os mercados da Suíça, América Latina, Austrália e Nova Zelândia, o que sugere que o alcance global do longa deve se expandir ainda mais nos próximos meses.

O alcance da obra não se limita ao Ocidente. Outros acordos importantes foram firmados com a Cinelibri (Bulgária), Independenta Film (Romênia), Aurora Films (Polônia), Aerofilms (República Tcheca e Eslováquia), MCF Megacom (Ex-Iugoslávia) e Kino Pavasaris (Bálticos). No mercado asiático e Oriente Médio, a distribuição está garantida através da Edko (Hong Kong), PT Falcon (Indonésia), Green Narae (Coreia do Sul), Andrews’ Film (Taiwan), New Cinema (Israel), Gulf Film (Oriente Médio e Norte da África) e Mars Productions (Turquia).

Cena do filme All of a Sudden com Virginie Efira e Tao Okamoto
Virginie Efira e Tao Okamoto estrelam o novo drama de Ryusuke Hamaguchi, que explora a humanidade em cenários de resistência.

Enredo, produção e o método Humanitude

Filmado inteiramente em locações em Paris, All of a Sudden apresenta uma narrativa centrada em Marie-Lou Fontaine, interpretada pela atriz Virginie Efira, conhecida por seu trabalho em Benedetta. A personagem é a diretora de um lar de idosos localizado nos subúrbios parisienses. A trama se desenrola quando Marie-Lou decide desafiar as convenções estabelecidas e a resistência de sua própria equipe ao implementar o método de cuidado conhecido como “Humanitude”.

A vida da protagonista sofre uma transformação profunda após o encontro com Mari Morisaki, interpretada por Tao Okamoto, de The Wolverine. Mari é uma dramaturga japonesa que enfrenta uma doença terminal. A interação entre as duas mulheres não apenas altera a dinâmica pessoal de Marie-Lou, mas também transforma a instituição de longa permanência em um símbolo de resistência e humanidade frente às limitações impostas pelo sistema de saúde. Um detalhe curioso da produção é que a atriz Virginie Efira dedicou-se a aprender japonês especificamente para compor sua personagem, demonstrando o nível de comprometimento com a visão de Hamaguchi.

Em entrevistas anteriores concedidas à Variety, o diretor Ryusuke Hamaguchi explicou a importância do conceito de “Humanitude”. Segundo o cineasta, trata-se de um método francês que foi importado pelo Japão e que coloca a dimensão humana no centro do tratamento e dos cuidados, priorizando a integridade de cada indivíduo acima de protocolos burocráticos. O roteiro do filme é vagamente inspirado em uma coletânea de cartas reais trocadas entre uma filósofa que enfrentava um câncer terminal e um antropólogo médico, obra publicada sob o título When Life Suddenly Takes a Turn: Twenty Letters Between a Philosopher with Terminal Cancer and a Medical Anthropologist, escrita por Makiko Miyano e Maho Isono.

A visão artística por trás da obra

Renan Artukmaç, representante da Cinéfrance International, descreveu All of a Sudden como um filme impressionante, de coração aberto e profundamente pessoal, capaz de criar uma conexão imediata com o espectador. Segundo Artukmaç, a obra se destaca por seus relacionamentos ricos e matizados, além de uma cadência narrativa cuidadosamente controlada, que consegue prender a atenção do público do início ao fim. As atuações de Virginie Efira e Tao Okamoto foram classificadas como extraordinárias e poderosas, sendo peças fundamentais para a força emocional do longa-metragem.

A expectativa em torno de All of a Sudden é alimentada pelo histórico recente de Hamaguchi. O diretor consolidou seu nome no cenário internacional em 2022, quando Drive My Car recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado, além de levar para casa o prêmio de Melhor Filme Internacional. Desde então, o cineasta manteve um ritmo constante de produção, dirigindo Evil Does Not Exist, que foi premiado no Festival de Veneza, e a peça experimental Gift. O novo filme reafirma a posição de Hamaguchi como um dos diretores mais sensíveis e técnicos da atualidade, capaz de transitar entre diferentes culturas e idiomas para explorar a complexidade das relações humanas e a resiliência do espírito diante da finitude da vida. Com a estreia em Cannes, o mercado aguarda para ver como a crítica e o público reagirão a esta nova exploração sobre a dignidade humana e o poder transformador da empatia em um ambiente institucionalizado.

Fonte: Variety